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Oração para depois do Carnaval


Nosso Pai Celestial,

Hoje é quarta-feira de cinzas, quando os foliões guardam suas fantasias e, exaustos, voltam à sua rotina. Aqueles mais religiosos farão penitências, e arrependidos por seus excessos, darão boas-vindas à Quaresma, período em que os cristãos católicos se preparam para a celebração da Semana Santa. Outros, indiferentes ao calendário religioso, simplesmente retomarão suas vidas, descobrindo que aquele vazio existente antes da festa da carne parecerá ainda maior.

Ninguém nos conhece tão bem quanto o Senhor. Tu sabes o quão suscetíveis somos às paixões carnais. Por isso, dirijo-me a Ti para rogar o Teu perdão e a Tua misericórdia sobre nosso sofrido povo brasileiro. Não somos inocentes. Sabemos exatamente onde e quando erramos e magoamos o Teu coração. Porém, nem todos conhecem a Ti por meio de Teu Filho Jesus Cristo. Estes carregam nos ombros o insuportável peso da culpa, sem ao menos saberem a quem recorrer em busca de alívio.

Muitos de nós, desejosos de Te agradar, preferiram privar-se da festa, isolando-se em seus domicílios ou em retiros promovidos por suas igrejas. Mesmos estes não estão imunes ao pecado, seja ele de ordem moral ou por pura presunção. No fundo, somos todos “farinha do mesmo saco”. O pecado não está na Avenida onde acontecem os desfiles, nem nos blocos, nos bailes ou na transmissão televisiva. Antes, o pecado está em nós, em nossa natureza caída. Por isso, todos, igualmente, temos nossas próprias razões para nos arrepender. Inclusive pela nossa indiferença e alienação.

Alguns de nós se expuseram, infiltrando-se por entre os foliões para dar testemunho do Teu amor. Destes, muitos voltaram frustrados por não obterem os frutos esperados. Outros voltaram relatando a experiência de ter alcançado alguns poucos foliões, dentre os quais, boa parte afastada da igreja. Obrigado, Senhor, por sua coragem e dedicação.

No meio a tanta perversão, pudemos ver lampejos da Tua graça nos lugares mais inusitados. Até nos desfiles das agremiações carnavalescas, com sua rica criatividade revelada nas alegorias, nas fantasias e nos sambas-enredos. Quão bom é o Senhor! Não há trevas que de tão densas não possam ser rasgadas por Tua luz. Mesmo assim, os homens Te dão as costas e preferem celebrar suas próprias paixões desenfreadas. Se fôsseis um Deus vingativo e rancoroso, Tua farias chover violentamente durante os festejos e, assim, estragaria a festa deles. Em vez disso, Tu nos brindaste a todos com dias ensolarados e noites estreladas. Isso me recorda o que Teu servo Paulo declarou aos moradores de Listra, afirmando que o Senhor “não deixou de dar testemunho de si mesmo, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas do céu e estações frutíferas, enchendo-vos de mantimento, e de alegria os vossos corações” (At.14:17). Quão bondoso é o Senhor!

É bem verdade que alguns desses sambas-enredos mencionaram o Teu nome, ora parecendo invocá-lo, ora louvando-o. Seria isso o que Teu Filho previra ao dizer que se calássemos as pedras clamariam?

Obrigado, Senhor, pelos inúmeros empregos gerados nesta época. Pela injeção econômica que nossa cidade recebe por causa do turismo. Embora, muitos desses turistas venham em busca de prazer carnal, anunciado pelas agências de turismo ao redor do mundo, através de cartazes com fotos de nossas mulatas desnudas. Que bom seria se a EMBRATUR investisse mais num turismo destinado à família em vez de buscar atrair um público predominantemente masculino procurando por sexo fácil. Eu realmente preferiria que nossa gente fosse querida por sua criatividade e hospitalidade, e não por sua licenciosidade. Ainda assim, obrigado, Senhor, pelo aumento na arrecadação de impostos que beneficia tanto nossa prefeitura, bem como o governo do Estado e a União. Pena, Senhor, que esses recursos não sejam revertidos para melhoria da qualidade de vida daqueles que com tanta alegria desfilam em defesa do pavilhão de sua escola de samba. Devo confessar, Senhor, que não me sinto confortável de saber que entre os que financiam os desfiles há contraventores, cujo dinheiro se mistura ao dinheiro público numa relação antiética e absurda. Quando, Senhor, os governos e a direção dessas escolas prestarão contas ao povo?

Vejo com bons olhos o fato de ricos e pobres se unirem num mesmo desfile. Mas até ali, a injustiça prevalece. Os verdadeiros protagonistas, que ensaiaram o ano inteiro nos barracões, desfilam no asfalto, enquanto que, artistas e gente renomada recebem destaque em carros alegóricos luxuosos. Preocupa-me a relação entre a classe artística e as escolas de samba. Não estou certo de que estejam apenas em busca dos holofotes. Mas Tu, Senhor, tudo conheces e julgas retamente.

Perdoe-nos os excessos, Senhor. Mesmos os cometidos em Teu nome. Perdoe-nos o excesso de corpos desnudos que fomenta a lascívia até no coração de irmãos que assistem pela TV. Perdoe-nos o excesso de julgamento que nos faz alimentar a presunção de sermos melhores e mais santos do que outros. Perdoe-nos os excessos de alguns de nossos jovens que, mesmo em retiro, dão vasão à carnalidade nas caladas da noite, enquanto seus líderes dormem.

Perdoe-nos por fechar nossas igrejas quando mais o mundo precisa de nós. Por entregar nossas cidades ao reinado de Momo. Perdoe-nos pela nossa apatia frente à necessidade dos bancos de sangue que, devido ao elevado índice de acidentes nas estradas e nos grandes centros, atravessam seu momento mais crítico.

Peço pelas famílias destroçadas durante os festejos carnavalescos, seja pelo abuso de álcool, drogas ou pela imprudência ao volante. Console, Senhor, aos enlutados. Restaura àqueles que, no calor da folia, deram passos dos quais terão a vida inteira para se arrepender.

Ajude-nos, Senhor, a que sejamos mais compassivos e menos jactanciosos. Que sejamos sal da terra, luz do mundo, e não sal no saleiro ou holofotes voltados para nós mesmos. Que tenhamos mãos estendidas no lugar de dedos em riste. Tire-nos de nosso comodismo e ostracismo, e conduza-nos na direção do outro, mesmo quando este pensa e age de maneira contrária aos nossos valores e princípios. Que o mundo conheça através de nosso testemunho de amor, aquela alegria perene que não termina em cinzas, festa que não tem hora para acabar.

Em nome de Jesus, Teu precioso Príncipe,

Amém.







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