Nós e a Bíblia

Robinson Cavalcanti


Durante a infância e parte da adolescência eu ouvia as leituras na missa dominical, cuja liturgia era em latim, que sempre começavam com a expressão: “Naquele tempo”. E eu, naquela época, não entendia muito o que se lia. Chega minha prima, nas férias, engatinhando na alfabetização, com um Evangelho de Mateus que recebera de uma vizinha. Após o almoço, eu, mais velho, lia um capítulo por dia. Chega minha tia de um colégio de freiras. Verifica a edição da Sociedade Bíblica, versão João Ferreira de Almeida. Inquisitorial, pergunta sobre a autorização de alguma autoridade da Igreja de Roma: “Tem Imprimatur? Tem Reimprimatur? Tem Nihil Obstat? Não tem? Vai para o fogo". E, naqueles tempos pré-Concílio Vaticano II, rasga o livrinho e em um “ato de fé” o queima no fogão de carvão lá de casa, no interior de Alagoas. Não posso me esquecer das labaredas azuis.

Estou com 14 anos. Um marceneiro adventista, o Josué Clementino, me pede para recitar os Dez Mandamentos. Eu o fiz, segundo o que tinha estudado no Catecismo do Padre Álvaro Negromonto. Ele abre a Bíblia de edição católica Padre Figueiredo. Me manda ler o capítulo vinte do livro de Êxodo. Surpreso, vejo que não confere. Tinha saído um mandamento, e o outro desdobrado em dois para fechar em dez. “Como pode uma instituição alterar o texto dado por Deus nas Tábuas da Lei?” Josué me desafia a estudar a Bíblia, e por dois anos faço um curso bíblico por correspondência, escondido da minha mãe.

Vou completar 17 anos. Igreja Presbiteriana Central de Garanhuns, PE. Aula de escola bíblica dominical. Meu professor era o advogado Urbano Vitalino, meu avô. Tema: “As viagens de Paulo no livro dos Atos dos Apóstolos”. “Viajo” junto, empolgado.

E assim, aos poucos, a Bíblia foi chegando em minha vida. Do meu primeiro salário, dei o dízimo e comprei uma Bíblia. Meu primeiro sermão foi pregado no Dia da Bíblia, em 1963 (19 anos).

Hoje me alegro com o fato de que o Brasil é campeão em venda de Bíblias. Muito vendida, menos lida, pouco obedecida.

Estou em uma igreja (a Anglicana) que afirma a autoridade da Bíblia como Palavra de Deus!




Edward Robinson de Barros Cavalcanti é um teólogo, político e bispo da Igreja Anglicana do Cone Sul da América, comandando a diocese de Recife. Foi professor da Universidade Federal de Pernambuco e escreveu dez obras sobre religião. Em 1997 foi eleito bispo da diocese de Recife. Como bispo diocesano, ordenou 57 diáconos e 49 presbíteros. Nesses sete anos foram abertas 34 das presentes 44 comunidades da Diocese Anglicana do Recife.




Tipos de Crente (5)

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Conheça outros esteriótipos!





Tipos de Crente (4)

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Conheça outros esteriótipos!




Realidade Alternativa

Rev. Digão


Sou uma pessoa que gosta muito de ficção científica. Na verdade, sou um nerd, mesmo. Sei toda a cronologia de Star Trek, não admito que chamem Spock de “doutor”, pois no seriado antigo o tratamento dado era “senhor Spock”, sei a diferença entre vulcanos e romulanos, sei quem são os Maqui e sei que a maior ameaça à Federação não são os borgs, e sim o Dominion. Com certeza, papo de nerd.

Ultimamente setores da ciência, em especial a física, têm esbarrado nas fronteiras da ficção científica. Um exemplo: há teses defendendo a existência de realidades alternativas, ou seja, dimensões paralelas onde há uma cópia de tudo o que há em nossa realidade, mas com diferenças sutis. Então, caso isso se comprove (ainda está no campo da hipótese), há uma realidade em que há um Rodrigo magro; em outra, um Rodrigo flamenguista; talvez um Rodrigo bom em matemática; e por aí vai.

O Reino de Deus é uma boa aplicação do conceito de “realidade alternativa”. O Reino não é deste mundo, prega valores completamente diferentes dos daqui, há metas e alvos específicos, que só servem de zombaria e escárnio de acordo com os padrões vigentes. Ora, essa história de alguém abrir mão de tudo em nome de um Deus que não vê e resolve partir para a África, a Ásia, ou mesmo o Haiti pregando a Palavra desse mesmo Deus invisível só pode ser coisa de gente lunática. Ou de gente convicta.

Mas fico cá pensando se, à parte do Reino, não vivemos também uma terceira realidade alternativa, ou seja, é uma realidade alternativa à alternativa (espero não ter sido confuso…), mas que teima em se afirmar diferente da realidade palpável do mundo. Vivemos nessa terceira realidade através de uma religiosidade cada vez mais esquisita. Uma religiosidade que prega o ódio, a intolerância, o preconceito. Que considera a ganância um dom espiritual e a soberba, uma característica ministerial. Mas que também prega a tolerância irrestrita com tudo e com todos, aceitando as mais aberrantes posições e condutas, chamando o pecado de “erro”, “falha”, mas nunca por seu nome real. Uma religiosidade que avacalha com o catolicismo, mas lhe toma emprestado o culto aos santos e a estrutura eclesial hierarquizada. Que afirma que o terremoto no Haiti é fruto de macumba, esquecendo-se de dizer que não houve terremotos na Bahia, Estado brasileiro onde as religiões afro são fortes e bem conhecidas de todos. Uma religiosidade que afirma que Deus não sabia previamente dos acontecimentos do tsunami, mas que recusa-se a ser instrumento da presença de Deus nas vidas de gente que sofre tsunamis de miséria, rejeição e injustiça em nosso país. Uma religiosidade que olha com microscópio eletrônico cada palavra, ato ou pensamento seu para ver se corresponde aos seus próprios conceitos pré-concebidos, se esquecendo de agir com a misericórdia do Crucificado. Uma religiosidade que explode, com palavras, a instituição religiosa para, no momento seguinte, se aproveitar dela.

Sim, parece enredo de ficção científica, mas é a realidade. O que me mantém em pé é saber que essa realidade vai esmaecer, até virar uma simples penumbra, quando vai eclodir a verdadeira realidade do Crucificado. Até lá, vamos continuar em nossa batalha, buscando mais pessoas para despertarem dessa realidade alternativa nefasta, oferecendo-lhes a pílula vermelha do sangue de Cristo, que nos liberta e nos abre os olhos.


Digão e Hermes são sócios do clubinho de SFI aqui do Genizah. Dois nerds!



Um duro golpe na indústria religiosa

Hermes C. Fernandes

Por que despertamos o ódio de tanta gente quando expomos a Verdade em contraposição dos métodos e estratégias usadas pela igreja atual? Basta um artigo sobre assuntos polêmicos como o G12, a Teologia da Prosperidade, e outros, para que o ânimo de alguns que se dizem irmãos se altere. Quando comentam em nossos artigos, em vez de exporem seus pensamentos com base nas Escrituras, preferem os ataques pessoais, tentando minar nossa credibilidade e pôr em xeque nossas motivações.

Por incrível que pareça, este não é um fenômeno recente. A igreja primitiva teve que lidar com as mesmas reações, ora por parte dos judeus, ora por parte dos gentios.

Um episódio que pode atestar o que estamos afirmando é o que lemos em Atos 19, e que nos mostra o efeito causado pela atuação do ministério de Paulo em Éfeso. À medida que as pessoas iam se convertendo à Fé, elas abandonavam suas superstições e crendices. O texto diz que “muitos dos que tinham praticado artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos” (v.19). Até aí, tudo bem. Cada um faz o que quer com o que é seu. Quer rasgar, queimar, quebrar, dar fim, o problema é dele. Mas alguém que assistia resolveu calcular o prejuízo: “Feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil moedas de prata”. Uau! Se Judas traiu Jesus por trinta moedas de prata, e isso já era uma quanta considerável, imagine o que representava uma quantia tão vultuosa: cinqüenta mil moedas de prata!
Pra se ter uma idéia do montante, as trinta moedas recebidas por Judas foram suficientes para adquirir um campo. Isso significa que as 50 mil moedas de prata daria pra comprar cerca de 1666 campos! Tudo isso em livros. O mercado editorial de Éfeso entrou em colapso. Aquelas pessoas que dispuseram seus livros para a fogueira, jamais voltariam a consumir tal literatura.

Devemos estar cientes que a pregação do genuíno Evangelho sempre fere interesses. Alguém vai ter que arcar com o prejuízo.

Não bastasse a quebra do mercado editorial, sobrou também para a indústria religiosa. O texto diz que “por esse tempo houve um não pequeno alvoroço acerca do Caminho. Certo ourives, por nome Demétrio, que fazia de prata miniaturas do templo de Diana, dava não pouco lucro aos artífices. Ele os ajuntou, bem como os oficiais de obras semelhantes, e disse: Senhores, vós bem sabeis que desta indústria vem a nossa prosperidade. E bem vedes e ouvis que não só em Éfeso, mas até quase em toda a Ásia, este Paulo tem convencido e afastado uma grande multidão, dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos. Não somente há perigo de que a nossa profissão caia em descrédito, mas também que o próprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada, vindo a ser destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo veneram” (At.19:23-27).

Em outras palavras, a mensagem pregada por Paulo doía no bolso e ainda maculava a reputação deles, colocando-os em descrédito perante a opinião popular. Portanto era uma questão que envolvia dinheiro e reputação, avareza e vaidade. Para disfarçar, eles alegavam que Diana, sua deusa, estava sendo ultrajada, dando assim um ar de piedade religiosa às suas reivindicações. Foi o suficiente para que houvesse uma manifestação popular. – Grande é Diana dos Efésios! Bradava a turba.

No fundo, no fundo, o que os incomodava não era o culto à deusa. Se o templo de Diana fosse reputado em nada, o que fariam os que viviam da venda de miniaturas dele? Imagine se convencêssemos as pessoas que a Arca da Aliança (tão em voga no meio evangélico hoje em dia) não passava de uma figura de Cristo, e que já não serve pra nada. O que fariam os pastores que distribuem miniaturas da Arca por uma oferta módica de 100 reais?

O que seria daquela cidade se o culto a Diana foi exterminado? E os milhares de romeiros que vinham de todas as partes do mundo para ver de perto da imagem que, segundo o dogma, havia caído de Júpiter?
A pregação do Evangelho causou tamanho impacto que bagunçou o coreto daquela sociedade. Todos os esquemas foram desarmados. Era como se a correia dentada do motor que a mantinha em movimento se arrebentasse. De repente, todas as engrenagens pararam.

Alguma providência tinha que ser tomada! Tomaram dois dos companheiros de Paulo e os levaram ao teatro para apresentá-los à turba enfurecida.Paulo quis se apresentar, mas foi dissuadido por algumas autoridades que lhe eram simpáticas. No meio do tumulto, “uns clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso. A maioria não sabia por que se tinha reunido”(v.32). Eis o retrato fiel de um povo “Maria-vai-com-as-outras”, que só serve de massa de manobra nas mãos dos poderosos. A maioria sequer sabia o que estava acontecendo. Mas não hesitavam em unir suas vozes aos demais em protesto gratuito e desprovido de sentido.

Quando Alexandre se apresentou diante do povo, acenando com a mão como quem queria apresentar uma defesa, “todos unanimemente levantaram a voz, clamando por quase duas horas: Grande é a Diana dos Efésios!” (v.34). Repare nisso: Diana era considerada deusa em todo o império romano. Mas em Éfeso, seu culto tomou um vulto inédito. Ela não era apenas “Diana”, e sim “Diana dos Efésios”. Algo parecido com o apego que muita gente tem à sua denominação. Cristo deixa de ser Cristo, para ser o “Cristo dos Batistas”, o “Cristo dos Presbiterianos”, o “Cristo dos Pentecostais”, o "Cristo dos Católicos", e assim por diante.

Finalmente, o escrivão da cidade (provavelmente um figurão da sociedade efésia), conseguiu apaziguar a multidão, dizendo: “Efésios, quem é que não sabe que a cidade dos efésios é a guardadora do templo da grande deusa Diana, e da imagem que caiu de Júpiter? Ora, não podendo isto ser contraditado, convém que vos aquieteis e nada façais precipitadamente” (vv.35-36).

Para tentar controlar o manifesto, o tal escrivão apelou ao dogma religioso. Dogma é aquilo que não se pode contestar. É tabu. Está acima do bem e do mal. Por isso, não se discute. É isso e tá acabado. A igreja evangélica também tem seus dogmas. Ninguém se dá o trabalho bereiano de averiguar se o que está sendo pregado bate ou não com as Escrituras. Se o líder falou, está dito. E se alguém se atreve a questionar, é logo taxado de herege, e acusado de estar tocando no ungido do Senhor.

Alguém viu quando a estátua caiu de Júpiter? De onde provinha tal certeza? Quem anunciou o fato Provavelmente foram os sacerdotes do templo de Júpiter, que queriam atrair o público de volta ao templo a qualquer custo.

Há uma indústria religiosa que se alimenta de mentiras, de dogmas inquestionáveis, e de superstições baratas.
É esta indústria que corre o risco de quebrar se a verdade do Evangelho for anunciada, e suas mentiras desmascaradas.

Os fiéis não passam de papagaios de pirata, repetindo o que ouvem sem ao menos refletir. Se dissermos que não há mais maldição a ser quebrada, o que será daqueles cuja prosperidade advém desta mentira? Como poderão cobrar para que as pessoas participem de um Encontro num sítio, a fim de que vejam a Deus cara a cara, e assim, sejam libertas de suas maldições?

Veja: compromissos são feitos em cima desses argumentos chulos. A prestação da propriedade adquirida pela igreja. O programa de rádio. O material de propaganda. O salário do pastor. Tudo isso tem que ser garantido pelo esquema montado. É um ciclo retro-alimentado. Se alguém chega pregando algo que contrarie o esquema, é logo taxado de herege, falso profeta, etc., pois interrompe o ciclo, produzindo um colapso na estrutura.

É isto que o Evangelho faz! Todas as estruturas injustas entram em colapso, para que um novo sistema, com engrenagens justas, se erga, tendo como centro o Trono da Graça de Deus.

Acorde, povo de Deus! Voltemos para as Escrituras! Abandonemos a mentira, o argumento falso, o estelionato, e voltemos à prática do primeiro amor. Caso contrário, Deus nos julgará, e reduzirá nossa indústria religiosa (que chamamos carinhosamente de “igreja”) aos escombros.

Não ficará pedra sobre pedra!

***
Hermes Fernandes é um dos mentores desta subversão aqui no Genizah



E você? Que tipo de vaso fizeram de você?