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Como um abortivo



Rui Luis Rodrigues 
@Ruiluisr



Eu entendo Paulo. Como muitos de nós, ele provavelmente guardava uma secreta mágoa pelo que talvez considerasse como “tempo perdido”. Isso se subentende da famosa declaração que ele acoplou ao texto de uma antiga confissão da fé, oriunda das primitivas comunidades cristãs:

Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze. (1 Coríntios 15:3-5)

Até aqui vai a antiga confissão, derivada provavelmente das primeiras comunidades cristãs estabelecidas em ambiente palestino. A essa afirmação, que era reproduzida na catequese das comunidades (como fica claro pela menção paulina, “aquilo que eu mesmo recebi”), Paulo acrescentou:

Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram. Posteriormente, apareceu a Tiago e, depois, a todos os apóstolos. (1 Coríntios 15:6-7)

Esse acréscimo procura acomodar outras tradições relativas às aparições pascais (ou seja, às aparições do Cristo ressuscitado), sinalizando que na época da escrita dessa carta (cerca de meados da década de 50) reuniam-se já as tradições que, trinta anos depois, começariam a ser sintetizadas nos relatos dos evangelhos. Mas o que nos interessa aqui é a observação final feita por Paulo:

Em último lugar, apareceu também a mim como a um abortivo. (1 Coríntios 15:8)

A NVI, traduzindo to ektromati como “a um nascido fora do tempo”, capta bem a perplexidade que talvez habitasse a interioridade de Paulo; mas ela dissolve um pouco o caráter tenso da afirmação paulina e, principalmente, o escândalo que representou a adesão de Paulo à fé cristã. Provavelmente a expressão era usada contra Paulo por seus adversários, gente de dentro da própria igreja que via seu ingresso como indesejado, como fermento de tumultos (sobretudo por conta de sua pregação do evangelho da graça livre de Deus). Um aborto é uma deformação; mas Paulo se vale da imagem violenta para afirmar: “Até mesmo a mim, o aborto, o nascido fora do tempo, Cristo apareceu!”

Sejamos indiscretos: pratiquemos um mergulho introspectivo na mente de Paulo. Talvez essa expressão contenha uma dimensão mais pessoal; talvez ela indique o lamento daquele que estava longe, alheio, enquanto Jesus realizava seu ministério, rodeado por homens que agora lideravam a igreja (alguns dos quais rejeitavam severamente a Paulo). A darmos crédito à tradição, Paulo teria nascido em torno do ano 9 de nossa era; seria pouco mais ou menos uma década mais novo do que Jesus. Não poderia, certamente, ter estado entre os fariseus que o julgaram, na madrugada da Sexta-feira Santa; nem se deveria esperar isso, tendo em vista seu status de judeu da Diáspora. O que se sabe com relativo grau de certeza é de sua ação contrária à igreja lá pelos finais da década de 30 e de sua surpreendente conversão. Mas sempre se pode conjecturar que, uma vez liberto das escamas que o impediam de ver no carpinteiro nazareno o Messias, o kyrios (como Paulo gostava de se referir a Jesus, empregando um termo grego que significa “senhor” e que os tradutores gregos do Antigo Testamento usavam para verter o nome impronunciável de Deus, Yahweh), o fariseu tornado discípulo pode ter, inúmeras vezes, se lamentado por sua lerdeza. Por que não antes? Por que demorar tanto para chegar a essa percepção fundamental, a percepção do caráter único de Jesus Cristo? Por que não ter nascido na época certa?

A Paulo provavelmente pesavam a oposição de cristãos mais antigos e a resistência deles, não apenas à sua mensagem, mas à sua própria pessoa. Se essa oposição mais ainda o empurrou para um ministério fora dos parâmetros, radicalmente destruidor de paradigmas, ela também pode ter depositado dentro dele uma mágoa funda. Usar o mesmo vocábulo de detração – “aborto!” – que seus opositores empregavam contra ele foi uma jogada de mestre desse mestre da retórica que era Paulo (não acreditem quando ele diz que nada entendia de “sabedoria de palavras”; Paulo manejava a retórica como poucos, inclusive em sua mais acabada forma, aquela que parece prescindir de toda retórica); mas essa jogada, conquanto eficaz, não seria suficiente para calar a tristeza pelo que podia ter vivido e não viveu, pelo que podia ter conhecido diretamente do Cristo e não chegou nunca a conhecer.

Talvez Paulo fosse como muitos de nós, gente que, diante de sentimento semelhante, gosta de imaginar: “Esses foram os caminhos de Deus, necessários para mim”. Em alguma medida todos nós já fomos presa desse pensamento segundo o qual os tempos desperdiçados em nossas vidas estavam previstos nos desígnios do Pai e foram indispensáveis para nos construírem, para que pudéssemos nos tornar o que somos hoje. Sem dúvida o pensamento tem um fundo de verdade: sem cada uma das experiências que vivemos não seríamos, hoje, o que somos. Mas particularmente não acredito nessa intervenção contínua de Deus que o pensamento, em sua forma ampla, supõe; como se a rejeição, momentânea, à fé (no caso de Paulo) fosse necessária para que ele pudesse se enquadrar nos planos de um Deus que tudo determina e delimita. Como se nossas pequenas atitudes e decisões correspondessem a jogos premeditados nos tabuleiros de nossas vidas, tendentes a nos conduzirem a resultados pré-definidos. Essa perspectiva, bem como toda a doutrina clássica da “providência”, estriba-se mais na noção grega de Deus como uma Razão que tudo governa e perscruta do que na ideia hebraica de Deus como Aquele com quem entretemos relacionamentos vivos e pessoais. Desde sua fase mitológica os gregos estavam acostumados a pensar nos seres humanos como “joguetes” das forças divinas (ver, como exemplo, as tragédias gregas); para os hebreus tal pensamento seria absurdo. Deus, na concepção hebraica, não determina o que o ser humano vai viver. Deus dá liberdade ao ser humano para que se construa a partir de suas decisões; com isso, e apenas com isso, torna-se possível o relacionamento entre Deus e a grande família dos homens.

Creio que Deus nos confia o desenho de nossa própria vida. Não embeleze o tempo perdido com alusões providencialistas, do tipo “Deus permitiu isso para que...”. Tempo perdido é tempo perdido. Os anos que Paulo gastou zombando da fé cristã não lhe foram devolvidos. O que poderíamos ter feito na casa dos vinte anos e não fizemos desapareceu para sempre. Não há retorno.

Mas permanece o fato de que nossas decisões, mesmo equívocas, nos moldaram. Sou, hoje, aqui e agora, o resultado das ações que pratiquei e das decisões que tomei ao longo de minha vida. Na minha ótica de hoje, acertadíssimas algumas delas, completamente erradas outras; mas minha ótica de hoje não é a que eu tinha há dez anos (e o que hoje me parece acerto talvez eu chamasse, dez anos atrás, de engano). Estamos em constante movimento e, em consequência disso, nenhum balanço de nossa vida é final ou estático.

Olhando para meu passado desse lugar privilegiado que é o “hoje”, percebo que poderia ter tomado decisões melhores; mas, se eu as tivesse tomado então, quem eu seria hoje? Não seria o mesmo; talvez nem sequer estivesse aqui. Ao invés de lamentar o tempo perdido e de acalentar uma suave melancolia por ter aprendido tão tarde a compreender a mim mesmo, prefiro me alegrar pela relativa clareza com que, no presente, consigo me enxergar. Sabendo que, mesmo agora, tomo decisões que, no futuro, talvez não virei a considerar tão boas assim.

A vida é construção contínua. E o Pai, Autor da vida, é tão bondoso que nos deixa construí-la nós mesmos, com toda a alegria e toda a ansiedade que provêm de nos envolvermos num projeto semelhante. “Abortivos” ou não, nascidos fora do tempo ou não, importa que estamos vivos. E que somos livres.


Rui Luis Rodrigues
Professor da Faculdade de Teologia









 

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