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A IRA É ESSENCIAL



Paul David Tripp


Neste mundo que tem sido terrivelmente arruinado pelo pecado, onde nada funciona como era para ser e onde o mal, muitas vezes, tem influência mais imediata do que o bem, seria errado não ficar irado. Como você pode olhar de frente para a pobreza e não ficar irado? Como pode considerar o crescimento das doenças sexualmente transmissíveis e não ficar irado? Como pode olhar para a corrupção política, que usa de cargos de governo para o poder pessoal mais do que para a proteção da sociedade, e não ficar irado? Como pode olhar para a taxa de divórcio na cultura ocidental, ou a prevalência da violência doméstica, e não ficar irado? Como pode ver o grande número de sem-teto que vagueiam pelas nossas ruas e não ficar irado? Como você pode ver a confusão de identidade de gênero e a imoralidade sexual que nos rodeia e não ficar irado?

Como você pode ver o estado de nossas instituições educacionais, das artes e do entretenimento e não ficar irado? Como pode olhar para o estado da igreja, que tantas vezes parece ter perdido seu rumo, e não ficar irado? Como você pode lançar um olhar para sua própria vida, sua família e seu círculo de amigos, como pode ver que o pecado emaranha e complica cada aspecto, relacionamento e situação de vida tão perto de você, e não ficar irado? Na vida e no ministério, a ira justa não é apenas importante. Ela é vital.

Como você pode ver a doença, a guerra e a destruição ambiental e não ficar irado? Como pode encarar o fato de que nada em seu mundo é exatamente como era para ser e não ficar irado? É simplesmente impossível você ver a vida com os olhos da verdade, e com um coração comprometido com o que Deus diz a respeito do que é certo e bom, e não ficar irado diante do estado em que as coisas estão neste mundo caído. Em seu ministério, como você pode ver diariamente os danos que o pecado tem causado às pessoas ao seu redor e não ficar irado? Neste mundo caído, a ira é algo bom. Neste mundo caído, a ira é algo construtivo. Neste mundo caído, a ira é algo essencial – desde que esta ira não esteja centrada em você.

As razões certas

Neste mundo caído, as pessoas de caráter e boa consciência deveriam ficar iradas.  Nosso problema em relação à ira talvez seja duplo: não somente ficamos irados repetidamente pelas razões erradas, mas também deixamos de ficar irados com a devida frequência pelas razões certas. O problema é que as coisas que deveriam nos deixar irados, e deveriam então nos mover à ação, simplesmente não suscitam mais a nossa ira. Nós nos acostumamos com a corrupção. Nós nos acostumamos com a pobreza, a moral pervertida da indústria do entretenimento, a quantidade de lares destruídos que estão ao nosso redor, os relatórios diários do crescimento dos males resultantes da depravação sexual em todos os cantos do globo.

Nós nos acostumamos também com o fato de que a Igreja é muitas vezes um lugar onde há divisão e falta de compromisso com a verdade. Nós nos acostumamos com a nossa própria complacência e hipocrisia, as tensões conjugais e a rebeldia dos filhos. Nós nos acostumamos com um mundo arruinado pelo pecado. Até mesmo os líderes espirituais entram no embalo do sono e se tranquilizam com muita facilidade apesar do compromisso ministerial. Coisas que deveriam produzir tristeza e preocupação, que deveriam nos incomodar, passam a ser coisas às quais deixamos de dar atenção e com as quais nos acostumamos.

Aprendemos a contornar os problemas, quase como se eles não estivessem lá. Aprendemos a habilidade de negociar os campos minados. A vida contaminada pelo pecado torna-se parte do nosso dia- a- dia e simplesmente não nos incomoda mais. Desenvolvemos a triste capacidade de não nos importarmos mais com aquilo que deveria quebrar o nosso coração e nos irar. Perdemos os valores e nem sequer percebemos isso. As coisas que Deus diz que não são certas passam a ser certas para nós. Perdemos a capacidade e o compromisso de ser ao mesmo tempo graciosos e irados. Passamos a aceitar o inaceitável e a conviver com aquilo que não deveríamos suportar. Deixamos de lutar movidos por ira justa e aprendemos a ir adiante movidos por complacência injusta. Quando procedemos desta forma, não somos fiéis ao nosso chamado e ao poder transformador e radical do evangelho de Jesus Cristo.

A ira justa não é opcional. Ela é um chamado para as pessoas que afirmam viver para algo maior do que a felicidade e o conforto pessoal, que estão comprometidas com o ministério e professam fazer o que é correto, verdadeiro, amoroso e bom diante de Deus. Você não pode ser semelhante a Cristo e estar livre da ira enquanto viver neste mundo arruinado pelo pecado. Esta ira faz com que você ame a graça de Deus e se esforce o quanto possível para proclamá-la aos outros, sabendo que é só esta graça que tem o poder de corrigir todas as coisas arruinadas que o deixam corretamente irado todos os dias.












 

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