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A Melhora da Morte

André Pessoa

                
No início desta semana jornais de grande circulação, revistas e sites especializados divulgaram com grande alarde as mais recentes pesquisas do IBGE que mostram o crescimento bombástico dos evangélicos no Brasil. Nos últimos dez anos o número de evangélicos cresceu mais de 60% e deve ultrapassar o número de católicos nos próximos 20 anos.

                Os evangélicos passaram de 26 000 000 para 42 000 000 em uma década apesar da óbvia retração das igrejas ditas tradicionais como batista, presbiteriana, congregacional  e outras que, no que diz respeito a certos princípios, se dizem filhas da Reforma Protestante.  Crescimento sem precedentes? Talvez. Garantia de alguma coisa? Em hipótese alguma!

                Embora os números não mintam (isso é meio esotérico não acham?), as generalizações das quais fazem uso os pesquisadores para chegar as suas conclusões fincadas no solo da indução, em muitos casos são equivocadas. No que tange ao crescimento da igreja evangélica por exemplo, estamos diante de um desses equívocos que produzem festa e abertura de champagne mas depois se transformam em amargas  desilusões.

                Uma coisa que os números do IBGE não conseguem captar é que o crescimento evangélico é meramente nominal e sem raízes uma vez que o grande responsável por ele é o neopentecostalismo cujas igrejas que hoje abrem um salão de culto em um galpão qualquer, amanhã, sem aviso prévio, são substituídas por um frigorífico, uma granja de galinhas ou um bar. A não permanência é a expressão da fé da qual estamos alardeando o crescimento!

                O que está aparecendo nas pesquisas do IBGE são números relativos a uma multidão flutuante que hoje está aqui e amanhã acolá, que hoje é crente e amanhã pertence a lugar nenhum, que hoje usa sai longa e amanhã fio dental. O tipo evangélico que tem sido descrito com estereótipo de herói-desbravador da fé representa na verdade um tipo confuso e superficial que está a um passo do ceticismo.

                A igreja evangélica não está crescendo nem no Brasil e nem em lugar algum do planeta porque ela, tal e qual as demais instituições conservadoras que marcaram o século passado, estão dando os primeiros passos na direção do declínio nesse início de século XXI. O zeitgeist é um rolo compressor que atropela tudo, inclusive o cristianismo brasileiro já tão massacrado pelos próprios evangélicos.

                O fenômeno em processo na igreja evangélica brasileira e que já aconteceu com a igreja cristã em outras partes do mundo e em outras épocas é o que o senso comum convencionou chamar em tom vulgar de "melhora da morte". Trata-se de um fenômeno comum nos hospitais: o doente acorda, pede comida, caminha no corredor com a ajuda da enfermeira para logo em seguida morrer.

                A igreja evangélica brasileira não está crescendo mas se rarefazendo, se tornando sutil, pouco palpável, se sublimando até desaparecer na forma como hoje existe. O que estamos presenciando agora e que alguns chamam de crescimento evangélico nada mais é do que a colocação dos marcos que sinalizam o fim de um momento na história da igreja brasileira e o começo de outro que ainda está se desenhando.

                De agora em diante serão construídos novos paradigmas, uma nova cosmovisão, uma nova forma de comunicar e um novo modelo hermenêutico que em nada se parecerá com o antigo que fincou as suas raízes no Brasil com a chegada dos primeiros missionários no século XIX. Daqui a mais alguns anos os novos homens da religião brasileira e mundial  terão que construir mais um sistema de pensamento do que constituir igrejas.

                O herói evangélico brasileiro pintado por alguns veículos de comunicação que mostram os evangélicos como desbravadores ao estilo RONDOM viajando de barco longas distâncias para assistir a um culto em uma igreja simples plantada no coração da floresta é uma quimera. Nada mais frágil do que a fé evangélica dos nossos dias (desculpe-me o tom fundamentalista); não passa de "casa construída na areia"!

                Os cristãos, como bem observou Peter Berger, sempre foram e sempre serão "minoria cognita", os entusiastas, porém, sempre foram e sempre serão maioria no Brasil, nos EUA, na Europa, na Coréia de Paul Young Cho ou em qualquer outro lugar. Os números do IBGE falam de um fenômeno de "rarefação da fé", diluição dos limites, fantasmização do cristianismo, apesar dos fogos de artifícios de Malafaia e Cia.






 
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