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Prisões que não Possuem Grades




Carlos Moreira


“Memórias do Cárcere” é uma obra póstuma de Graciliano Ramos publicada em 1953. Preso na época do “Estado Novo” sob a falsa acusação de ligação com o Partido Comunista, o escritor foi deportado para o Rio de Janeiro, onde permaneceu encarcerado por cerca de dois anos. 


No livro, Graciliano se ocupou em tornar público, “depois de muita hesitação”, acontecimentos da vida na prisão. Escrito dez anos após sua libertação, trás em si uma narrativa amarga, não obstante verdadeira. “
Quem dormiu no chão deve lembra-se disto... Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze” 

Já li comentários de que pessoas que foram presas, sobretudo injustamente, jamais voltam a ser as mesmas. O cerceamento da liberdade trás impactos tão violentos a psique que o indivíduo não consegue mais se reencontrar com sua essência, impõe-se a um auto-exílio rumo aos porões do ser, acaba soterrado sob densas camadas de sombras e silêncios.

Eu sei que há prisões que possuem grades, e destas é muito difícil escapar. Mas há outros tipos de prisões, que vão para além de impor ao corpo a reclusão ao cubículo ao qual foi confinado. Sim, estas masmorras são imateriais, sem grades, sem paredes, são calabouços que aprisionam não só à vontade, o desejo de liberdade, mas o ser, a alma, a consciência, a paixão e os sonhos.  

É fato que tenho encontrado, no chão da vida, muitas pessoas aprisionadas em tais “labirintos”. É gente que, sem perceber, tornou-se refém de circunstâncias, medos, traumas, sofismas, projeções, “carmas”, manipulações, culpas, vícios psicológicos, e toda sorte de situação que produz auto-engano e que acaba dando forma a uma imagem distorcida de si mesmo, a qual, projetada na “tela da existência”, reproduz um holograma monstrificado de quem enganosamente se pensa ser.

Em meus aconselhamentos pastorais, tenho me deparado com pessoas vivenciando tais dinâmicas. É gente que se tornou refém de marido, de mulher, de sogra, de filhos, tudo pelo estabelecimento de vínculos afetivos adoecidos, que acabam dando ao outro uma espécie de “licença para matar”, e, por assim dizer, produzem, pela via da culpa e do medo, todo tipo de escravidão e subserviência.

Há aqueles que estão presos a fatalismos e determinismos infundados, não raro fruto de comentários maldosos e recorrentes feitos por pessoas próximas, muitos dos quais se enraizaram na “alma” desde a infância. É gente que se sente “assombrada” por um “carma”, conduzida inexoravelmente por um trilho de onde não se pode sair, fadada a parar sempre na mesma “estação”, seguir sempre pelo mesmo caminho.

Também é comum encontrar os que se viciaram psicologicamente no fracasso, que sentem prazer na perda, no sonho frustrado, nas impossibilidades. Trata-se da negatividade alçada ao platô mais profundo do ser, gente cinzenta, sombria, que vive de olhar pelo “retrovisor”, lamentando pelo que passou, ansiando pelo que poderia ter sido, mas não foi...

Não menos danoso é o grupo dos que passaram a viver de uma espécie de “ração”, que esmolam da vida, se acomodaram em ser o que não são, estagnaram a consciência e amordaçaram o pensamento. Pessoas assim deixaram de acreditar no novo, na mudança, em possibilidades outras. Elas se acostumaram à mesmice, ao banal, ao trivial, seguem o fluxo, o curso, a rotina. Estão mortas, mas ainda não foram sepultadas, existem sem ser, sem saber vão, de arrastão em arrastão, vivem de “migalha de pão”, dos restos do ontem e dos fragmentos do hoje.

Finalmente, mas não menos triste, há os que adoeceram ao ponto de dependerem de medicação para viver, os chamados psicotrópicos, os quais se aplicam a distúrbios e doenças tais como ansiedade, depressão nervosa, distúrbio bipolar, psicose, pânico, dentre outras. Neste estágio há muita dor e desânimo, pois além dos sintomas próprios de cada doença, ainda há os efeitos colaterais dos remédios, tão diversos quanto possamos imaginar. Eles, sem pedir permissão, mudam as pessoas: alteram o olhar, o sorriso, os gestos, gostos, apetites e vontades.

Seria pieguismo e irresponsabilidade de minha parte dizer para você que a solução para todas estas coisas está na religião. Tolice afirmar que apenas reunião de oração, jejum e leitura da bíblia vão resolver o problema. Muito menos bizarrices do tipo: sessão do descarrego, culto de “libertação”, de “unção”, do "desencapetamento" total e outras mandingas do meio “evangélico” vão "liberar a benção". Estas reuniões estão mais para seções espíritas e são destinadas a curar todo e qualquer problema como fossem a “Água Rabelo”, um antigo remédio que se usava para tratar desde verminose até tuberculose. Não, eu não creio que seja assim.

Mas acredito que a cura passa pela experimentação da verdade, ou, como disse Tolstoi: “não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma conseqüência”. Eu creio que a maior parte dos problemas e dores humanas estão associados a não percepção da Verdade, e aqui afirmo Verdade não como paradigma existencial, mas como Caminho a ser caminhado, como experimentação de valores e princípios que mudam o ser, de dentro para fora, aos poucos, pela via da pacificação produzida pela Graça, em Fé e através do Amor, pela ação do Espírito Santo que é capaz de realizar aquilo que nada nem ninguém pode fazer em definitivo: sarar a alma! Sim, pois como disse Jesus: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Estou convencido de que há prisões que não possuem grades, mas que aprisionam muito mais do que aquelas que prendem os indivíduos, posto que é mais fácil libertar o corpo do que a alma. Como disse em texto recente “...eu não sei qual foi a porta que eu abri mas, quando dei por mim, já estava aqui! Curioso, também, é que eu não sei como sair; as portas daqui só possuem maçanetas pelo lado de fora! Aqui é todo canto e lugar nenhum”.

Gostaria de te ver livre desta prisão, destas amarras que prendem tua mente, tua alma, teu ser. Sei que só Deus pode te livrar disto tudo, mas esta experiência tem de ser vivida por cada um, a seu tempo e do seu próprio modo. Fiques, então, com o que escreveu Clarice Lispector: “liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.

Carlos Moreira é coeditor do Genizah






 

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