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O Que os Olhos não Vêem o Coração não Sente. Mas Faz mal do Mesmo Jeito!



Carlos Moreira

É próprio do ser humano fugir de responsabilidades, não assumir erros, nem chamar para si o “peso” de decisões, muito menos ser coerente com suas convicções. Sim, coisa difícil é encontrar, sobretudo num tempo onde é possível camuflar quase tudo, desde a imagem até a realidade, pessoas que, reconhecendo suas falhas, defeitos, incongruências e interjeições, firmem posições.

A atitude de fugir, de esconder-se, não é algo novo. No texto do Gênesis já podemos ver tal comportamento na conduta de Adão e Eva. “Onde estais?”, disse Deus. Era o Criador a procura da criatura. Diante da transgressão cometida, a primeira coisa que ambos cogitaram foi desaparecer, tentaram encontrar um modo de evadir-se da culpa, das implicações inerentes ao que fora praticado. Tolinhos...

Na verdade, o ato de se esconder, de dissuadir, de disfarçar, está intimamente ligado com o fato de que, aquilo que não pode ser percebido, passa incólume, dá ao transgressor a sensação de imunidade e impunidade, de ter escapado ileso ao agravo realizado.

Pensando bem, talvez seja por isso que a sabedoria popular afirma: “o que os olhos não vêem o coração não sente”. Ora, se os olhos não podem discernir o que está se passando, então a alma nem sente nem se ressente de nada, pois tudo fica na sombra, vira esquecimento.

Esses conceitos são muito úteis para pensarmos sobre uma questão bastante polêmica: pecados que são percebidos e pecados que são de foro íntimo. O pressuposto é bastante simples: aquilo que não é visto não pode ser julgado, nem tornar-se alvo de condenação, de comentários ou fofocas. O pecado que se desenvolve na mente, por exemplo, só é discernido por quem o pratica, mas não tem como ser percebido pelo outro.

No entanto, quando o pecado é perceptível, vem a público, o “infeliz” que o cometeu torna-se réu da “corte dos santos”, alvo fácil de falatórios, a “bola da vez”, o “prato” quente servido para ser devorado na mesa dos “justos”, os quais o fazem com voracidade, mas sem qualquer compaixão ou misericórdia. Triste de quem for surpreendido em qualquer que seja a situação de pecado. Será vítima do “apetite” de uma “igreja” que tem prazer em ver mortos os seus feridos. 

Neste sentido, é fácil, por exemplo, condenar alguém que está embriagado. Seu estado é facilmente perceptível. Mas o que dizer de alguém que sente ciúmes? Ora, quem comete tal pecado, normalmente faz tudo para escondê-lo, sobretudo porque não deseja que a pessoa que é alvo de tal sentimento o saiba. Contudo, ao analisarmos Gálatas 5, que trata dos desvios da conduta humana, vemos que ambos são tratados da mesma forma, com igual severidade.

Jesus lidou com esta questão quando proferiu o Sermão do Monte. Nele está explicitado o que chamo de “Ética do Reino”, ou seja, os valores e conteúdos que fazem com que o bem aventurado seja aquele que é, que encarna no chão da vida a Verdade, que se cobre com a justiça que procede da fé, e não das obras.

No texto, o Galileu nos fala o seguinte: “ouvistes o que foi dito...”; em seguida, todavia, estabelece o novo paradigma: “eu porém vos digo...”. Faz isso por diversas vezes. Numa delas, usa um exemplo que era extremamente controverso na cultura judaica, e o é ainda nos nossos dias: a questão do adultério.

Vocês ouviram o que foi dito: “Não adulterarás”. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração”. Mt. 5:27-28. Perceba a maneira como o Evangelho trata a questão: tanto o explícito quanto o implícito são reprováveis diante de Deus, pois, mesmo aquilo que os olhos não vêem, tendo, todavia, se tornado fato “materializado” no coração, constitui-se pecado, e torna aquele que o cometeu réu do inferno.

Ora, isso está posto para que ninguém seja capaz de se justificar diante de Deus, uma vez que alguém até pode dizer: “eu jamais me deitei com outra mulher”, mas torna-se impossível afirmar nunca ter desejado alguém em sua mente e coração durante toda a vida.  

No fundo, a afirmação de Jesus foi proposital, pois tornou inviável todo caminho que tente promover auto-justificação. Por outro lado e, exclusivamente pela Graça, Ele mesmo se constituiu Caminho para a salvação de todo aquele que, crendo, deseje viver em pacificação, santidade e fé. 

Quando realizo algo que desagrada a Deus, os olhos dos outros podem não perceber, seus corações podem até nem sentir, mas, a mim, faz mal de todo jeito! O pecado ofende ao Senhor, mas causa danos a minha alma e consciência. Por isso, é melhor andar sempre na luz, pois é na “claridade” que toda obra se torna manifesta, e só desta forma é que eu posso ser justificado, não por aquilo que faço, mas por alguém em quem creio, Cristo Jesus!

Carlos Moreira é coeditor do Genizah



 

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