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Tem evangélico que dá medo...


Hoje encontrei uma matéria triste no Genizah. Na verdade, dado o objetivo do site, sempre há algo triste para se ler. Talvez isso cause desconforto entre alguns, já que fazer apologia para dentro do Corpo, ou seja, denunciar os erros dos próprios evangélicos, sempre causa alguma dor. Dizer a um evangélico que ele errou é como lhe falar mal da mãe, pois parece que nos sentimos dotados de algum tipo de infabilidade quase papal. Mas, tenho uma matéria bem especifica em mente. Genizah publicou uma foto medonha, na qual um grupo de adolescentes evangélicos aparece zombando de um presépio. Essa foto, que parece tão piedosa em seu intento, me fala de ignorância, intolerância e presunção.



Primeiro a presunção. No céu não haverá apenas cristãos, me parece que na mentalidade dos evangélicos as ruas celestiais serão povoadas apenas pelos evangélicos e, em muitos casos, por evangélicos denominacionais. Não basta ser cristão, é preciso ser evangélico; porém, ser apenas evangélico não é suficiente, para ter mais chances, é necessário ser evangélico de certo tipo. Qual tipo? Alguns parecem imaginar que o céu será dos assembleianos, dos batistas, outros que será exclusivo para os reformados... Essa mentalidade denominacionalista é perversa. Em primeiro lugar perverte o cristianismo. Em segundo lugar nos torna monstros. O personagem principal do livro Os Fantoches de Deus, de Morris West, chega à conclusão de que era demasiadamente duro ao julgar os outros cristãos, e mais propenso à caridade quando se deparava com erros em sua “família religiosa” (ele, no caso, um católico romano piedoso). É um risco que corremos, de achar que nossa tradição nos faz melhores que os outros, e assim confundimos as nossas tradições com a essência mesma do Cristianismo. Pode até ser que nossas tradições denominacionais sejam melhores, mais adequadas, ou até mesmo mais bíblicas. Porém, isso não nos faz melhores que nossos semelhantes. Não importa o quanto nossa tradição é bela, ou bíblica, continuamos sendo pecadores carentes da Graça de Deus, como todos os demais. Somos salvos pelas nossas tradições (pentecostalismo, credobatismo, salmodia exclusiva, etc), ou pela fé em Nosso Senhor Jesus Cristo?

Depois vem a ignorância e a intolerância. Essas duas andam quase sempre juntas. E, juntas, podem levar ao fanatismo. Para mim, um fanático é alguém cego, exceto para ver suas próprias qualidades, ou as qualidades de sua ideologia, sejam elas reais ou imaginadas. Por outro lado, o fanático é incapaz de ver os seus próprios erros, sempre arrumando alguma desculpa piedosa para seus deslizes e abusos (que certos evangélicos famosos não me deixem mentir, risos).

Recentemente tenho dedicado boa parte do meu pouco tempo ‘livre’ para colocar na rede uma TV online, que denominamos Basileia Tv. ‘Basileia’ é um nome muito apropriado, pois no grego significa “o reino”. O objetivo do nosso ministério é promover o reino, seja através da nossa pregação, evangelismo, ou no que fazemos na internet. Sendo um calvinista, alguém já questionou como eu poderia transmitir musicas de ‘pentecostal’, ou mesmo com algumas letras ‘arminianas’? Ou ainda pior: sendo um evangélico, como eu posso ter colocado na grade musical um ou duas musicas ‘católicas’? Minha resposta é bem simples, e não espero que todos concordem comigo: o Reino de Deus não pertence aos calvinistas, reformados e evangélicos. O Reino de Deus pertence aos cristãos. Em outras palavras, antes de ser calvinista, antes de ser anglicano, antes de ser reformado, sou um Cristão; antes das minhas tradições pessoais, Cristo! Evidentemente eu me guio por certos limites, mas isso não me faz cego para aquilo que há de belo nas outras tradições cristãs, mesmo que eu não concorde inteiramente com elas.

Por falar em presépio, no Natal passado, eu passei muitos minutos contemplando um maravilhoso presépio que foi montado em frente à Catedral da Sé, em São Paulo. Era um presépio maravilhoso, não só pelo tamanho, mas pelo material de que foi feito: papel reciclado. Ali, no coração de São Paulo, onde todos os dias a gente se depara com prostitutas, drogados, trombadinhas, e os ‘shows’ mais bizarros, por alguns dias, quase todos os olhares voltaram-se para a mensagem da Graça. Não me importa se aquele cenário da Graça foi montado por um católico romano, admirei o simples fato de ele estar ali, e de estar comovendo as pessoas. No entanto, boa parte dos evangélicos com os quais convivo, não apenas pareciam desejar que o tal presépio fosse consumido pelas chamas da Ira de Deus, como também desdenhavam aberta e publicamente da própria celebração do Natal! São em momentos assim que, apesar de saber que não há nada de errado com o termo, faço questão de dizer que “não sou evangélico”.

Entretanto, esse tipo de mentalidade bairrista não existe apenas em círculos pentecostais ou neo-pentecostais. Vejo isso por todos os lados. Dias desses, num debate teológico numa rede social, me surpreendi quando um “reformado” escreveu para um líder anglicano: “Cara, primeiro você vai tirar esse ídolo do seu perfil, arrepender-se de sua idolatria, para só depois eu conversar com você!”. Vejam, o “reformado” recusa-se a responder aos argumentos do outro, pelo simples fato de que este usava em seu perfil uma representação de Cristo usando um computador da Apple! A imagem, apenas uma representação artística e bem humorada, foi automaticamente identificada pelo outro como “ídolo” e “idolatria”! Isso é pura e simples cegueira! O fariseu sequer se deu ao trabalho de pesquisar o que é um “ídolo”, e muito menos o que caracteriza “idolatria”. Ele apenas viu uma representação de Cristo, e uma ira fanática o impeliu a gritar: Ídolo! Idolatria!

Eu gostaria de escrever tantas coisas a vocês! Termino com duas observações: não defendo aquilo que muitos chamam de “ecumenismo”, no sentido de unir todas as Igrejas, e deixando de lado a apologética, e a defesa da fé. Não se trata disso. Não quer dizer que eu não ‘brigue’ com católicos romanos, ou com arminiamos, sobre este ou aquele ponto de vista teológico. Que quer dizer então? Apenas isso: que apesar de nossas diferenças, a Salvação é pela Graça de Deus, ela é um dom imerecido, o que torna impossível sermos salvos por nossas opiniões e tradições! E tão importante quanto isso é dedicarmos algum tempo a conhecer melhor a história da Igreja, e a nossa surpreendente variedade e diversidade.

Parece-me estranho ver alguns pentecostais imaginando que o Cristianismo nasceu em Azuza Street, e alguns outros pensarem que isso de seu em Genebra... Amigos, nossa religião nasceu no primeiro presépio da História, com personagens de carne e osso, num casebre humilde em Belém. Hoje, quando vejo um presépio, com Jose, Jesus, os Magos e a Virgem, não sou tomado por qualquer impulso idolatra! Apenas olho e penso: Graça Maravilhosa, porque o Verbo se fez carne, e fez morada entre nós!



Marcelo Lemos, editor do Olhar Reformado, líder da Comunidade Anglicana Carisma, e colaborador do Genizah.




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