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Apologética cristã não é pessimismo


Por Marcelo Lemos

Ao trabalharmos no combate as heresias, e aos abusos religiosos que ocorrem tanto dentro quanto fora da Igreja, devemos tomar o cuidado de não desenvolver uma “teologia de jornal”. Corre-se o risco, em meio ao combate, de assumirmos a posição de causa perdida, e passarmos a lutar apenas para não entregar os pontos, sem nutrir qualquer expectativa de vitória final. Chamo de “teologia de jornal”, pois creio que tal pessimismo não se baseia nas Escrituras, mas na avalanche de escândalos e heresias que nos rodeiam.

Ainda que o leitor não aprecie, como eu, a Teologia do Domínio, há de extrair alguma lição das palavras de Atanásio, apologista cristão que viveu entre 295-373 d.C.: “Quando o Sol nasce, a escuridão não prevalece; qualquer parte dela foi embora. Além disso, agora que a Epifania divina da Palavra de Deus tem tido lugar, a escuridão dos ídolos já não prevalece, e em todo o mundo, em todas as direções, são iluminados por Seus ensinamentos”.

Atanásio está refletindo sobre o avanço gradual do Cristianismo no Império Romano, que até então, havia estado completamente subjugado as superstições do paganismo. Engana-se, contudo, quem imagina que esse apologista viveu num tempo de “paz para o Cristianismo”. Nada mais longe da verdade. De fato, Atanásio defendeu a fé nos dias do Imperador Diocleciano, que foi um dos mais cruéis perseguidores dos cristãos, atribuindo-se a ele a tentativa de erradicar completamente a fé cristã. Aqueles dias são considerados a maior das perseguições.

Tempos depois, quando o Cristianismo gozava de maior transito no Império, e a Heresia Ariana avançava a galopes por toda a Igreja, Atanásio dedicou-se, sozinho, durante 40 anos a defender bravamente a Doutrina da Trindade; o que lhe custou ser exilado pelo governo cinco vezes. Em meio a tantas adversidades – muito maiores que as nossas -, ele continuava a lutar, não apenas para não se render, mas na expectativa que o Sol da Justiça dissiparia as Trevas. De sua perseverança e fé nasceu o ditado: Atharzasius contra mundum (Atanásio contra o mundo!).

Admitirmos a derrota histórica para as heresias que nos cercam, caracteriza falta de fé no poder do Evangelho. Quando o Evangelho é anunciado, a Cruz de Cristo ergue-se sobre tudo e todos, humilhando completamente os pagãos e seus ídolos, incluindo os pretensamente cristãos. O fato de que num país livre como o nosso, há tanta proliferação de engano e apostasia, serve apenas para mostrar o quanto temos sido falhos em anunciar o Evangelho, e o quanto os hereges tem se aproveitado da nossa falta.

O avanço da heresia a nossa volta não é testemunho da fragilidade do Evangelho, mas da nossa mornidão. O avanço do Evangelho se dá na medida da nossa obediência a Cristo: “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim, poderosas em Deus para destruição das fortalezas, destruindo os conselhos, e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo; e estando prontos para vingar toda a desobediência, quanto for cumprida a vossa obediência” (II Coríntios 10.4-6).

Quando for cumprida a vossa obediência. Não estamos acostumados a pensar nestes termos. É muito mais cômodo atribuir o avanço das heresias aos ‘sinais dos tempos’, pintando um Cristo que não é capaz de convencer mais que meia-dúzia de fiéis. Quando for cumprida a vossa obediência. Não se trata do fracasso do Evangelho, mas do nosso fracasso.

Talvez por isso, em países fechados para a Igreja, onde o Evangelho precisa ser anunciado em segredo quase absoluto, o Evangelho da Graça consiga prosperar tanto. Enquanto aqui vemos a prosperidade dos “vendilhões do templo”, em países como a China, o protestantismo já atingiu a marca de 40 milhões de seguidores. Não são quarenta milhões de “evangélicos”, o que poderia, no contexto brasileiro, significar qualquer coisa (infelizmente), mas quarenta milhões de seguidores de Cristo, dispostos até mesmo a sofrerem a mesma morte que seu Senhor.

Mas, se o Evangelho não é incapaz de romper as barreiras da morte instituída oficialmente pelo Partido Comunista Chinês, porque nos é tão complicado fazer o Brasil ouvir a pregação da Graça? Temos sido infiéis, é a única resposta que me parece razoável. Acreditamos na Verdade, mas defendemos que a vitória pertence ao erro. Somos adeptos da teologia da derrota – derrotamos a nós mesmos!

Meu convite hoje é refletirmos sobre isto: apologia não é péssimo, é guerra! E o Hino da Vitória do apologista cristão já foi escrito, a quase 2000 anos, por Atanásio:

“Desde que o Salvador veio habitar conosco, a idolatria não apenas diminuiu, mas está em declínio e gradualmente está deixando de existir. Do mesmo modo a sabedoria dos gregos: não avança, e está desaparecendo. Quanto aos demônios, longe permanecerem enganando o povo por meio da mentira, oráculos e feitiçarias, estão sendo vencidos pela Cruz, sem que seja necessário exorcizá-los! Por outro lado, enquanto a idolatria e tudo que se opõe ao Cristo enfraquecem, a cada dia aumenta o conhecimento do Salvador em toda a parte. Adoremos, pois, o Salvador, que está acima de tudo, todo-poderoso, Deus e Verbo, e condenemos aquilo que está sendo derrotado e riscado do mapa por Ele. Quando o Sol nasce, a escuridão não prevalece; qualquer parte dela foi embora. Além disso, agora que a Epifania divina da Palavra de Deus tem tido lugar, a escuridão dos ídolos já não prevalece, e em todo o mundo, em todas as direções, são iluminados por Seus ensinamentos”.

Amém!

Marcelo Lemos, do Olhar Reformado, que apesar de anglicano é otimista, escreveu para o Genizah.


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