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O Grande Colisor e o desvendar da mente de Deus



Frei Betto


O Grande Colisor, o acelerador de partículas inaugurado a 10 de setembro - com 27km de circunferência, construído sob as fronteiras da Suíça e da França - é para a física o que o telescópio é para a astrofísica.

Seu princípio operacional baseia-se na famosa equação de Einstein - E=mc2 (E é energia; m, massa; c, velocidade da luz). A quantidade de energia concentrada numa porção de matéria equivale à sua massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. A velocidade da luz é de 300 mil km por segundo.

Se a energia tem massa, 1 kg de carvão, convertido totalmente em energia, produziria 25 bilhões de quilowatt-hora (kwh) de eletricidade. Toda a energia elétrica gerada nos EUA, somada à do Brasil, não chega a 15% disso.

Antes de Einstein, ninguém supôs que energia e massa se igualassem. A constante c, aparentemente inofensiva, representa um número astronômico - o quadrado da velocidade da luz. Se extrairmos energia de uma colherada de água, ela será suficiente para que um transatlântico atravesse o Atlântico mil vezes.

O que se pretende com o acelerador de partículas é captar a energia primitiva que deu início ao Universo há 13,7 bilhões de anos - o Big Bang. Ele é como uma imensa serpente brotando de um pequeno balão de hidrogênio, cujas válvulas, controladas por computadores, liberam jatos de gás, como se fosse uma brincadeira de criança. No entanto, em cada um daqueles jatos há mais prótons do que a soma de todas as estrelas da Via Láctea.

As minúsculas nuvens de gás entram pela cavidade elétrica do gerador que separa os elétrons dos átomos de hidrogênio, como quem arranca o halo de luz de uma estrela, e lançam os prótons, primeiro, por um túnel de grande velocidade; em seguida, por um cano estreito como uma mangueira de jardim, mas com cerca de 5 km de extensão. Dentro desse anel os prótons são acelerados por pulsão provocada por eletroímãs, enquanto ímãs focalizadores os reúnem num feixe tão fino quanto a grafite de um lápis.

Ao atingir uma velocidade próxima à da luz, a massa inicial aumenta cerca de 300 vezes, graças à própria velocidade. Neste momento, são desviados do anel e lançados contra um alvo dentro de um detector. Seus rastros, captados pelo campo magnético do detector, revelam a identidade da partícula.

Os aceleradores seriam como estrelas mecânicas; sua temperatura, elevada a milhões de graus, pode fazer com que as partículas se movam tão rapidamente como no coração das estrelas. No anel do acelerador, prótons e antiprótons percorrem trajetórias opostas em velocidades próximas à da luz, colidindo um milhão de vezes por segundo - e, assim, fragmentando os átomos em suas partículas mais genuínas, entre as quais o quark top, o último dos seis tijolos fundamentais da matéria a ter sua existência comprovada, em 1995.

Quanto mais aperfeiçoado o acelerador de partículas, mais serão descobertas novas partículas. Assim, os cientistas se perguntam se algum dia essa "arqueologia" da matéria findará - ao se depararem com aquela partícula que seria, afinal, a mais elementar, base de todas as demais.

O acelerador nos aproxima do parto gerador do Universo. Para as nossas dimensões de tempo, alcançar o que sucedeu 1 centésimo de segundo após a Criação é fantástico. Que importa saber o que ocorreu 1 decimilibilionésimo de segundo antes que você decidisse piscar o olho, como fez agora? No entanto, quando se trata da evolução da matéria, cada fragmento de segundo é como um século para a história humana.

Sabe-se, hoje, o que teria ocorrido nos três primeiros minutos após a explosão do Ovo Primordial que continha todo o Universo, o Big Bang. Mas isto não basta, muitas outras coisas se passaram na fornalha original antes daquela fração de segundo.

O que a ciência procura é se aproximar do momento em que o átomo inicial não se conteve e, pleno, abriu-se como um botão de rosa que exibe pétalas em todas as direções. Assim, ficaremos sabendo um pouco mais a respeito das raízes de nossa universal e holística árvore genealógica.

O que fazia Deus antes de criar o Universo? A resposta foi dada por Santo Agostinho, no século IV: "Preparava o inferno para quem faz esse tipo de pergunta".

Quem aprecia culinária e gosta de pilotar um fogão saiba que os ingredientes da receita para fazer o Universo são simples: 76,5% de hidrogênio; 21,5% de hélio e 2% de outros elementos químicos.

De preferência, o cozinheiro deve ter mãos divinas.

Frei Betto, autor de 51 livros, editados no Brasil e no exterior. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. Frade dominicano. Divulgação Genizah
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