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O que temos feito com Jesus?


Hermes C. Fernandes


Disse-lhes Pilatos: Que farei então com Jesus, chamado Cristo? Disseram-lhe todos: Seja crucificado. Mateus 27:22

Esta mesma pergunta deveria incomodar a todos os homens, diante dos quais Cristo fosse exposto. Não há como se isentar da responsabilidade. Enquanto Jesus estava nas mãos das autoridades judaicas, Pilatos não tinha qualquer responsabilidade. Mas agora, ao recebê-lo, quis esquivar-se, ordenando que o levassem a Herodes. Afinal, Jesus era Galileu, e, portanto, pertencia à jurisdição de Herodes.

Qual foi a reação de Herodes ao receber Jesus em sua presença? As Escrituras afirmam que quando viu a Jesus, “alegrou-se muito, porque havia muito que desejava vê-lo, por ter ouvido dele muitas coisas. E esperava que lhe veria fazer algum sinal” (Lc.23:8). Pelo que tudo indica, Herodes queria apenas entreter-se às custas de Jesus. Semelhantemente, há muitos em nossos dias que só buscam a Deus para entreter-se. Querem o espetáculo, os sinais, os milagres, mas não querem tomar uma posição com relação a Ele. A pergunta persiste: O que fazer com Jesus, chamado Cristo? Quando Herodes viu que Jesus não satisfaria sua curiosidade, “tratou-o com desprezo e, escarnecendo dele, vestiu-o de uma roupa resplandecente, e tornou a enviá-lo a Pilatos” (Lc.23:11). Por algumas horas, Jesus parecia um joguete nas mãos daqueles homens. Ninguém queria entrar pra história como responsável pela morte de um inocente. É interessante notar que a situação envolvendo Jesus foi capaz de reaproximar Pilatos e Herodes, que andavam brigados até então (v.12).

Não importa a sua opinião acerca de Jesus, e sim o que você faz com relação a Ele. Tanto Pilatos quanto Herodes tinham a mesma opinião sobre Cristo. Para ambos, Ele era inocente. Há muitas pessoas que estão na igreja por causa dos amigos que fez. Ali elas encontraram pessoas que pensam como elas. Pelo menos em alguns pontos, elas convergem. Às vezes gostam do mesmo estilo musical, do ambiente dos cultos, do carisma do pastor, mas isso não é suficiente. Não podemos usar Jesus apenas como ponte para unir pessoas diferentes. Ele não pode ser pretexto para a reconciliação entre os homens. Ele é infinitamente mais que isso. Ele é o único capaz de nos reconciliar com o Pai. Pilatos e Herodes aproveitaram o ensejo para rever sua desavença. Mas isso deveria acontecer para que se cumprissem as Escrituras. Veja que interpretação os crentes primitivos fizeram desse fato, ao levantarem unânimes sua voz a Deus em oração:“Senhor, tu és o que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há. Tu disseste pela boca de Davi, teu servo: Por que bramam as gentes, e os povos pensam coisas vãs? Levantam-se os reis da terra, e os príncipes se ajuntam à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido. Verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel” (Atos 4:24-27).

Não existe posição intermediária. Ou somos a favor dEle, ou contra Ele. Por isso, não devemos nos associar aos que são contrários ao Evangelho de Cristo, sob pena de estarmos unindo nossa voz à daqueles que O crucificaram.

Pilatos estava cercado de pessoas que queriam influenciar sua decisão. De um lado estavam os judeus, liderados pelos sacerdotes e anciãos, pressionando-o para que crucificasse Jesus. Do outro lado estava sua esposa, que lhe mandou um recado: “Não entre na questão desse justo, pois num sonho muito sofri por causa dele” (Mt.27:19). São tantas vozes que ouvimos, que não conseguimos ouvir a voz de nossa própria consciência. A voz de sua esposa representava a voz da emoção. A voz da multidão representava a voz da razão. Se desse ouvidos à emoção, e soltasse a Cristo, a multidão enraivecida promoveria uma rebelião, que chegando aos ouvidos de César, fatalmente resultaria em sua destituição do cargo de governador. Ele preferiu dar ouvidos à razão.

Então Pilatos, vendo que nada conseguia, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: “Estou inocente do sangue deste homem. A responsabilidade é vossa” (Mt.27:24). Será que aquele gesto foi capaz de isentá-lo da responsabilidade?

Quantos estão lavando suas mãos, buscando uma posição confortável em cima do muro?

Eles dizem que amam a Jesus, que o admiram, mas na hora H, lavam suas mãos. Na verdade, estão crucificando-o novamente. Mas será isso possível? A Bíblia diz que sim. Há pessoas diante das quais Cristo foi exposto, e que, num certo sentido, foram iluminadas, provando o dom celestial, fazendo-se participantes do Espírito Santo. E tudo isso porque provaram a boa palavra de Deus, experimentaram os poderes do mundo vindouro, mas ainda sim, caíram. Tiveram a chance de tomar a decisão certa. Mas preferiram tripudiar, deixando-se levar pela voz da maioria. Deixaram-se pressionar pelas vozes dos inimigos de Cristo. Pois agora que caíram, não lhes é possível a renovação para o arrependimento, pelo simples fato de estarem novamente“crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o ao vitupério” (Hb.6:4-6). Não foi exatamente isso que Pilatos fez? Ele expôs o Filho de Deus ao vitupério público. Ele caçoou do Filho do Deus Vivo.

A maior preocupação de Pilatos era com a opinião da maioria. Como bom romano que era, ele talvez acreditasse no conhecido ditado: Vox Populi, vox Dei (A voz do povo é a voz de Deus).
E desde quando pode-se dar crédito à voz de uma maioria enfurecida, incitada por outros? Aquele povo que gritava, insistindo para que Pilatos crucificasse Jesus, era o mesmo que dias antes recebia o Salvador com mantos e palmas. Aquele povo era massa de manobra nas mãos das autoridades judaicas. Não foi à toa que Jesus, olhando do alto da cruz, rogou ao Pai que perdoasse aquela gente, que não sabia o que estava fazendo. Mas ao referir-se às autoridades judaicas, Jesus disse a Pilatos: “Nenhuma autoridade terias contra mim, se de cima não te fosse dada. Aquele, porém, que me entregou a ti maior pecado tem” (Jo.19:11). Portanto, Jesus não inocentou, nem às autoridades judaicas, nem tampouco a Pilatos.

As coisas não mudaram muito desde então. O povo continua sendo manipulado por autoridades inescrupulosas, que tudo quanto almejam é saciar sua sede por poder. Hoje, porém, com um agravante: o uso indiscriminado da mídia para se alcançar tal fim.

Entretanto, o juízo de Deus é exercido de maneira particular e individual. Deus não lida com turbas enfurecidas, mas com pessoas individualmente. Cada pessoa é um universo à parte. Nada mais insano do que seguir os passos de uma multidão para fazer o que é mal. Daí o mandamento:“Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda deporás, acompanhando a maioria, para torcer o direito” (Êx.23:2).

Ninguém responderá por nós diante do Tribunal de Deus. Nossa sentença vai depender exclusivamente da resposta àquela pergunta: O que farei com Jesus, chamado Cristo? Não vai adiantar alegarmos que estávamos sendo pressionados por todos os lados. Ou que a tentação foi maior do que nós, ou coisa parecida. Quem houver recebido a Cristo como seu Salvador pessoal, terá a quem recorrer. Quem, porém, não o fez, será condenado, acusado de ter crucificado o Filho de Deus.

Duas perguntas diferentes: Quem crucificou a Jesus? E, por quem Jesus foi crucificado? De nada adianta entrarmos em controvérsias acerca de quem foi o responsável pela morte de Jesus. O que interessa não é se foram os judeus, ou se foram os romanos. Na verdade, foi a humanidade como um todo, a responsável por pregá-lO no madeiro. Entretanto, aqueles que O reconhecerem como seu Salvador, submetendo-se ao Seu senhorio, serão absolvidos desta acusação. Mesmo aquele que martelou os cravos que o fixaram na cruz (Lc.23:48). Em vez de se dizer que esses O crucificaram, será dito que por esses, Ele foi crucificado.

No final, quando todos estiverem diante do Tribunal Celestial, a humanidade será dividida em dois grupos: Os que lavaram suas próprias mãos, e os que tiveram seus pés lavados por Ele (Jo.13:5-8).

Hermes Fernandes é um dos mentores da Santa Subversão Reinista no Genizah

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