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Deus em cinco (outras) palavras



Alan Brizotti

Deus gosta de palavras. Ele sempre trabalhou com elas. É um caso de amor com essa coisa do verbo. Deus é um apaixonado pelo verbo, tanto que chega a "brincar" com isso. A Babel (Gn. 11) é uma licença poética divina promovendo o espetáculo dolorido da perdição/salvação do vernáculo. Em seu passo mais ousado - Encarnação - ele próprio se denomina "o verbo" (Jo. 1). Como um simples escritor, acredito poder captar um pouco desse prazer...

Tenho buscado Deus em palavras outras. Tenho procurado por ele em palavras que, quase por definição, afastam-nos dele. Encontrar Deus nas palavras exige saber dançar nesse eterno baile dos dois: de um lado, palavras propondo encontro, do outro, uma brincadeira de se esconder pra se revelar. Como dizia Karl Barth, Deus é "totalmente outro".

Deixe-me mostra algumas das palavras onde Deus gosta de se esconder:

Angústia: Por que será que a angústia sempre me leva a pensar em Deus? Seria sua estranha forma de me convidar para a vida? Seria uma espécie de eco divino do Getsêmani? (Lc. 22. 39-46). Gosto da angústia. Quem têm asas gosta de abismos. Por ela poemas brotam, ela me impede de assumir prerrogativas divinas. Através dela sei que sou apenas humano. Benditas sejam minhas angústias... (Sl. 18.6)

Ódio: Há coisas que preciso odiar. Odeio a injustiça, pois ela afirma a falta de amor e enobrece espíritos de porco. Odeio a malandragem dos que tentam levar vantagem em tudo - o câncer do jeitinho. Odeio igrejas onde as pessoas são violentadas em seu desespero, vistas como "caixas eletrônicos existenciais", esvaziadas de seu conteúdo humano, transformadas em matéria-prima dos canalhas da celestialidade bandida (Sl. 139. 21, 22).

Preto: Eu vejo tudo na cor preta. No evangelicalismo abobalhado de hoje tudo que tem a cor preta ganha conotações diabólicas, menos o olhar de quem assim o enxerga. Vejo no preto a beleza magistral da noite e a consequente esperança do dia. Alguém disse que o preto é "o acúmulo dos azuis". O preto dos escravos compõe orgulhosamente meu DNA. Amo o fato indiscutível de ser fruto da mistura humana desse caldeirão cultural chamado Brasil. Quando fecho os olhos, e tudo fica preto, a oração que brota não tem cor... (At. 8. 36-38)

Ateu: Nietzsche dizia que "somente aquele que tem uma fé profunda pode se dar o luxo do ceticismo". Na verdade, Deus não existe, quem existe sou eu. Deus é! Ele criou a existência, portanto, é maior do que sua criação. Aqui surge algo interessante: tanto aqueles que afirmam ardorosamente a existência de Deus, quanto aqueles que ferrenhamente a negam são ateus! Ateus abraçados ao próprio delírio. (Sl. 14)

Eu: Deus está em mim? Eu estou em Deus? Costumamos pregar, cantar e escrever sobre a presença de Deus, mas e sua ausência? Eu revelo Deus? Pelo menos uma certeza absoluta eu tenho: eu não sou Deus! Não sou apóstolo, profeta, Ph'Deus ou vidente, eu sou apenas eu... (I Co. 15.10).


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