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Homem, Teu Nome é Paradoxo!



“Oh, a Humanidade vive em triste condição!
Nasce sob uma Lei mas prendem-na a outra:
Tende à vaidade, querem-na humilde,
Surgiu enferma e querem-na saudável”.
(Lorde Brooke)

Por Levi B. Santos


Vendo que o homem paga um custo muito alto ao ceder parte de seus impulsos instintuais originais para poder conviver em um mundo mais ou menos pacificado, disse Freud: “A nossa civilização está alicerçada na supressão dos instintos”.

A constatação de que o instinto não se suprime e de que, por mais que se tente, o máximo que se pode conseguir é represá-lo ou reprimi-lo, fez nascer em toda sua plenitude, o conceito de ambivalência, que também pode significar ambiguidade, ou paradoxo. E esse antagonismo vem de longe. Plagiando o messias do Novo Testamento, eu diria: quem não puder se ver como criança não vai entender nada do reino da ambivalência, do reino dos sentimentos paradoxais ou antagônicos.

Quem não passou pelos primórdios da tal ambivalência na tenra infância? Quem não lembra de que, como criança, amava seu pai e por vezes desejava livrar-se dele?

“A contradição é a marca característica do ser humano” ― já diziam os filósofos e estudiosos da alma. Para se ter ideia de como somos atraídos por um ideal de ego para ser diferente do que realmente somos, nada melhor que alguns dados estatísticos reveladores da contradição ou ambivalência demasiadamente humana que persiste em não nos largar, mesmo já “adultos maduros”. Para que se possa perceber o quanto as imagens secretas que existem em nossa psique estão repletas de desejos antagônicos, recorramos então a uma enquete realizada nos EUA, no final do século XX:

“89% dos americanos consideraram a sua sociedade demasiadamente preocupada em ganhar dinheiro; 74% responderam que o materialismo excessivo dos indivíduos era um grande problema social. Pasmem: 76%, em outro quesito, fizeram ver que ter dinheiro os deixava bem consigo mesmo; 76% desejavam ganhar mais, e 74% gostariam de ter uma bela casa, um carro novo e outras coisas dessa magnitude”.

O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Romanos, já fazia menção a esse velho conflito. Tanto é, que num rasgo de espontaneidade incomum assim se expressou: “Porque eu sei que em mim, isto é na minha psique, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. (Romanos 07: 18). Nesse mesmo diapasão, afirmou, Eduardo Giannetti, a respeito do difícil equilíbrio entre a realidade e o sonho, mundo ideal ou utopia:

“Há uma guerra anticolonialista na alma de cada um. Duas verdades medem forças. De um lado, está o princípio da realidade: se o sonho ignorar os limites do possível, ele se torna quixotesco”.

Paul Tillich, em “Teologia da Cultura” (página 245), já fazia ver a distância enorme entre o “desejado”(aquilo que se deseja para si) e o “desejável” (de fundo coletivo – idealista): “Esse é o nosso destino melancólico desde o começo da história humana e deverá permanecer enquanto houver vida humana consciente”.

O homem, enfim, é esse ser paradoxal que enquanto prega a salvação para os deserdados e marginalizados, trabalha desesperadamente para ficar mais seguro e distante daqueles que diz amar. Temeroso da própria sociedade ergue para si, altos muros eletrificados em torno de suas casas que mais parecem fortalezas em época de guerras. O homem é esse ser que está em um movimento pendular, ora se identificando com o polo que considera “positivo”, ora com o polo “negativo” de sua ambivalência, como bem explicita Kênia Kemp no trecho abaixo, pinçado do seu antológico artigo ― “Identidade Cultural” (“Antropos e Psique” ― Editora Olho D'água):

“Quando queremos nos apresentar a estrangeiros para nos valorizar, trazemos à tona traços da tradição e peculiaridades que nos identificam como brasileiros: a cordialidade, informalidade e alegria. Entretanto, entre nós são comuns expressões depreciativas: 'Brasileiro é preguiçoso'; 'a terra é boa, mas tem um povinho…'. Enfim, qualquer grupo de alguma forma coloca em questão a legitimidade dos traços de sua identidade, que inclusive podem ser modificados, ampliados ou reprimidos. Enquanto forem legitimados, permanecerão”.

Esse ente dúbio sem ter ideia de que tem a alma cindida entre dois polos ou afetos antagônicos, por um mecanismo de projeção bem evidenciado na religião ocidental, acha que o mundo (e não ele próprio) é que está dividido entre ele e os outros; não percebe que nas imagens que tem dos outros que lhe trazem perigo, residem as partes negativas ou rejeitadas de seu próprio ser. Os lá de fora são, como na versão bíblica, “bodes expiatórios” para projeção de tudo quanto percebe de ruim ou pecaminoso, a fim de se sentir purificado. E o que dizer então sobre esse sonoro e belo afeto, que para contrabalançar o ódio (polo negativo) de nossa ambivalência, o denominamos amor? Segundo o famoso psicoterapeuta americano, Rollo May, “...o próprio amor passou a ser problema. Tão contraditório tornou-se na verdade, que alguns que se dedicam ao estudo da família concluíram que “amor” é apenas o nome dado ao controle exercido pelos membros mais poderosos sobre os demais.[ “Eros e Repressão” (pag. 13) ― Rollo May ― Editora Vozes]

Mas o conflito humano (ou intrapsíquico), na verdade, se dá sempre entre o que queremos ou idealizamos ser e o que realmente somos. A parábola neotestamentária do “Joio e do Trigo” (Vide Link), que há algum tempo tinha seus símbolos antagônicos interpretados para identificar e separar as pessoas do “bem” daquelas do “mal”, com o advento da psicologia profunda já pode ser compreendida, em sua forma mais profunda, como metáforas dos afetos ambivalentes ou ambíguos que habitam em cada ser humano. “O Inferno são os Outros” ― célebre frase dita por Sartre ―, pode ser considerada uma espécie de crítica aos puritanistas, que advogavam a separação entre santos(trigo) e pecadores(joio), sem ao menos perceber que o santo e o pecador, a um olhar mais reflexivo, andam a trocar de papéis de uma maneira sutil ou quase imperceptível. A psicologia junguiana disseca, pormenorizadamente, a paradoxalidade de nossos afetos, tornando mais evidente seu mecanismo de identificação imaginária, como a “ilusão de se criar uma imagem pública a partir das características que julgamos aceitáveis, deixando de fora algumas partes mais importantes e saborosas de nós mesmos” (“O Efeito Sombra” ― Debbie Ford)

Ao discorrer sobre a paradoxalidade da ambivalência na sociedade, Zygmunt Bauman, deixou-nos essa contundente observação:

“a modernidade é uma era de ordem artificial e de grandiosos projetos societários, a era dos planejadores, visionários e, de forma mais geral, 'jardineiros' que tratam a sociedade como um torrão virgem de terra a ser planejado de forma especializada[…]. Não há limite para ambição e autoconfiança. Com efeito, pelas lentes do poder moderno, a 'humanidade' parece tão onipotente e seus membros individuais tão incompletos, ineptos, submissos e tão necessitados de melhoria, que tratar as pessoas como plantas a serem podadas (ou arrancadas se necessário) ou gado a ser engordado não parece ser uma fantasia, nem moralmente odioso”. [“O Mal-Estar da Pós-Modernidade” ― Zygmunt Bauman]

Traduzindo para o mundo pós-moderno, a máxima ― “Quem nos livrará do corpo dessa morte?” ― dirigida aos Romanos por Saulo de Tarso, penso que ficaria mais ou menos assim: Quem livrará o nosso EU, do peso da Contradição? Quem atentar para essa brilhante enunciação da dúbia alma humana realizada pelo apóstolo fundador do cristianismo, verá que ela está em perfeita consonância com o sujeito da psicanálise, que às avessas do jargão cartesiano “penso, logo existo”, abarca o Homem Paradoxal com esta emblemática frase: “Penso onde não sou; sou onde não penso”.


“Meu Eu Paradoxal”


“Com uma face emancipada e outra dependente
Marcado pela lei dúbia do desejo ambivalente
Vivo como irmãos, despossuídos mutuamente
Sem poder traduzir meu ser incongruente”.

[“Parte Delirante de Mim” – “Ensaios & Prosas” – julho de 2011]




Do site do AUTOR


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