681818171876702
Loading...

PARE OLHE E ESCUTE



Levi Bronzeado

Quem de nós, que já entrou na terceira idade, pode dizer que nunca viu uma placa de ferro enferrujada com os dizeres PARE OLHE ESCUTE a pender para um dos lados, à beira da estrada, antes de um cruzamento de uma rodovia com uma ferrovia? Essas palavras escritas em letras brancas garrafais sobre um fundo vermelho, são nossas velhas conhecidas das saudosas viagens de trem. Pensando bem, que sábia frase essa, pedindo-nos para parar, dirigir o olhar e escutar, para não sermos tragados por um “monstro férreo" que pode passar a qualquer instante, nos cruzamentos do nosso caminhar.

O que fazer diante dos velozes trens da modernidade que se aproximam perigosamente de nós, senão, olhar e por último fazer o que há de mais reflexivo: ESCUTAR. Tenho que me vigiar para não colocar a palavra OUÇA no lugar de ESCUTE. Ao trocar um termo pelo outro, eu posso esconder todo o significado e sutileza da mensagem da placa, pois “ouvir,” não é o mesmo que “escutar”. Na “escuta” eu estou discernindo, ou seja, ouvindo com a mente. O poder reflexivo da “escuta”, no caso do trem que vem a caminho, nada mais é que a faculdade perceptiva de entender com os ouvidos, e identificar corretamente as nuances do tipo de “barulho”, de sua intensidade, de onde se origina, de que lado vem, para onde vai, se está próximo ou longe.

Num exercício de reflexão puramente filosófica, imaginemos que assim como esses monstros de ferro que caminham sobre trilhos (as locomotivas), existam outros “trens da vida”, com seus estrondos e tremores, se aproximando para passar como um raio a nossa frente. Ante estes assombros da tecnologia moderna, por um instante, podemos até nos encantar com o maravilhoso espetáculo, mas a grande virtude é deixá-los passar, para logo depois nos recompormos, reiniciando a nossa caminhada tranqüila até os próximos cruzamentos com outras linhas férreas. Não importa que outros “trens” venham com seus moderníssimos e atraentes vagões, perturbar novamente a nossa trajetória, o que importa é que tenhamos ouvidos aguçados para ESCUTAR, deixar a locomotiva passar, e depois SEGUIR o nosso árduo e áspero caminho.

Assim é a caminhada da vida. Necessário é que estejamos sempre atentos, para não sermos engolido pelas monstruosas e espetaculares máquinas produtoras de emoções passageiras, que eletrizam o corpo e entorpecem o espírito. Existe também outro "trem" barulhento, sob a forma apelativa de gritos publicitários que castigam os ouvidos mais sensíveis, alardeando inutilidades mercadológicas as mais incongruentes, tentando nos ludibriar com valores que inebriam a consciência. São apelativos que sutilmente instituem a ditadura do “comprar” no imaginário coletivo como ideal de felicidade, em que até milagres e pedaços de céu são oferecidos para satisfação de um hedonismo doentio e insano, que em nada combina com os dizeres sábios da placa ferroviária: PARE OLHE ESCUTE.

São tentadoras e irresistíveis, as possibilidades de aquisição de emaranhados de informações, tantas vezes confusos e desconexos, que deságuam sobre os olhos mais ávidos do espectador indefeso, através das redes de comunicação como a internet, a televisão, etc, informações estas que se esvaziam pela inaptidão e incapacidade do usuário em compreendê-las e digeri-las, pois os tempos modernos não permitem o PARAR para OLHAR ao redor; enfim, não dá ao indivíduo a opção de exercer o verdadeiro sentido da ESCUTA.

Nunca se investiu tanto, como hoje, na produção de “locomotivas midiáticas”, cada vez mais barulhentas e impressionantes, que por se multiplicarem tanto, reduzem o precioso tempo do caminhar e do pensar. À medida que vamos valorizando o desejo dos olhos em detrimento da ausculta e reflexão, temos como conseqüência, o enrijecimento dos tímpanos, que com o passar dos tempos vai embotando a nossa capacidade de escutar o canto último das almas agonizantes. Tudo isto, nos faz lembrar Shakespeare, em “Hamlet”, quando assim disse: “as sutilezas dormem nos ouvidos dos parvos”.

O barulho ensurdecedor e ininterrupto do momento, já não permite mais a ESCUTA. A “humanidade” diante dos anúncios e placas com sensacionais apelos, estimulantes do desejo carnal latente, PARA e OLHA, ─ e sem a percepção da ausculta ─ se embriaga na volúpia dos olhos, para afinal, numa “overdose” de sonhos inócuos e sem sentido, definhar e morrer.

É desta forma, que a deglutição da “maneira moderna de sobreviver” tem impedido o exercício da “escuta”. A ânsia de parar para olhar e apreciar as mais espetaculares produções da tecnologia moderna que a cada momento surgem a nossa frente, tem provocado um inusitado fascínio sobre nós. Somos bombardeados incessantemente pelas propagandas as mais mirabolantes e inimagináveis, que fazem a resistência ao prazer imediato se render, para dar lugar ao gozo insano dos poderosos e excitantes objetos de desejo.

Tal qual uma criança, a se perder com os eletrônicos presentes recebidos, assim ficamos nós à frente da parafernália tecnológica que nos atrai a cada instante. Que possamos agir como aquela outra criança, que ao receber um presente muito caro, contentou-se em brincar prazerosamente com a simples caixa de cartão, que era o invólucro do brinquedo, deixando frustrada a plateia, que esperava dele a reação comum de PARAR, OLHAR e por fim, àvidamente devorar o objeto de lazer eletrônico de última geração.


***
Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de setembro de 2009 em
Ensaios & Prosas





Artigos 8872561341088884390

Postar um comentário

Página inicial item

Siga por e-mail