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O amigo dos mendigos. Entrevista com Wildo Gomes, líder da Missão Vida.






Com uma rede de mantenedores que, em sua maioria, contribuem com apenas 15 reais mensais, a Missão Vida atende cerca de 600 pessoas tiradas da situação de mendicância em diversas unidades, desde Goíás – onde surgiu e mantém o maior núcleo, na cidade de Cocalzinho – até Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Amazonas e Distrito Federal. Mais que isso: a instituição ofererece formação profissional, treinamento em diversas áreas e, naturalmente, o caminho da salvação em Cristo. Por trás do ministério, a figura de seu fundador e presidente, o pastor presbiteriano Wildo Gomes dos Anjos, de 52 anos, se sobressai. Não é para menos: foi através dele que tudo surgiu, no comecinho dos anos 1980, quando o então rapazola ficou amigo de um mendigo. Todos os dias, Wildo levava comida e algumas roupas para o seu João.

Das conversas com o homem da rua, ele travou conhecimento com uma realidade bem diversa da sua, acostumado que estava com os confortos da classe média. Um belo dia, João morreu, na calçada. Da tristeza, Wildo resolveu que ajudaria outros “joões” que encontrasse. Da distribuição de cobertores e sopas, passou ao acolhimento numa casa, depois em outra e mais outra. Surgiram as unidades de reabilitação, os centros médicos, as oficinas profissionalizantes. O ministério cresceu; hoje, é referência na sua área de atuação em todo o Brasil e até no exterior. Ao longo desses mais de trinta anos, centenas de homens têm passado pelas unidades da Missão Vida. “Tudo é pela graça de Deus”, resume Wildo. Só assim ele explica o fato de trabalhar com gente tão afetada pela dureza da vida, pelo álcool e pelas drogas e, mesmo assim, jamais ter registrado qualquer conflito ou rebelião. Na Missão Vida, fica quem quer. E quem fica – a absoluta maioria – encontra um novo caminho na vida, uma nova família, um Deus e uma esperança, como o pastor conta nesta entrevista:


CRISTIANISMO HOJE
POR CARLOS FERNANDES




CRISTIANISMO HOJEQuando surgiu a ideia de fundar a instituição?

WILDO GOMES DOS ANJOS –As coisas foram acontecendo de forma natural. Há um versículo que tem influenciado muito a minha vida, que diz: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2.13). Primeiro, distribuí alimentos e cobertores; depois ajudei um mendigo, retirando-o da rua; em seguida, outro, e outro... Até que quase todo o meu salário era gasto com as despesas desses homens. Tempos depois, construí, com a ajuda financeira de alguns amigos e a mão-de-obra dos ex-mendigos, o primeiro centro de recuperação. Desde então, a Missão Vida vem crescendo e estendendo a mão para centenas de moradores de rua e pessoas carentes.

Quais foram as principais dificuldades, no início?

A primeira grande dificuldade foi eu mesmo crer que era possível a transformação de um mendigo. A segunda veio dos amigos e muitos dos meus familiares, que achavam que eu estava ficando meio louco. Havia um grande descrédito nas minhas ações. A igreja da qual eu era membro chegou a pedir que eu não levasse mais aqueles homens para a Escola Bíblica Dominical. Eu sempre me reunia com os ex-mendigos, antes de irmos para a igreja, em algum posto de combustível, levando comigo aparelho de barbear, roupas e desodorantes, para que eles aparecessem na igreja de forma mais apresentável. Mesmo assim, eles não eram aceitos.

Ao longo destes 32 anos, quantas pessoas, aproximadamente, passaram pelas diferentes unidades da Missão Vida?

O primeiro centro da Missão Vida tinha doze vagas. Hoje, oferecemos 600 leitos em todo o país, sendo que praticamente todas as unidades trabalham em sua capacidade máxima. Não temos como fazer a estimativa de quantos homens já passaram pela instituição, mas seriam milhares, se considerarmos a rotatividade e os anos de trabalho ininterrupto. Para se ter uma ideia, nos últimos quatro anos, servimos 3 milhões de refeições, realizamos 47 mil procedimentos médicos, distribuímos 195 mil medicamentos. No Instituto Bíblico Palavra e Vida, já formamos 112 ex-mendigos em cursos de liderança.

E quanto ao índice de efetiva recuperação, há alguma estatística?

Temos observado que a grande maioria dos ex-mendigos permanece conosco durante, no mínimo, os três meses do programa de recuperação. Sete de cada dez ex-internos permanecem longe dos vícios e da mendicância após concluírem o programa. Outro ponto a ser destacado é que o apoio familiar ou de alguma igreja é fundamental para que eles não tenham recaídas – e, caso isso ocorra, consigam se colocar novamente de pé. Vale ressaltar, ainda, que acreditamos que, seja qual for o tempo que permanecem conosco, uma semente é plantada no coração desses homens. Uma semente que, ao tempo de Deus, florescerá.

Por que a entidade só aceita pessoas em situação de mendicância?

Quando iniciei o trabalho com a população de rua, procurei instituições que recebessem mendigos e não obtive nenhuma resposta afirmativa, mesmo nos casos em que havia dependência química. Esse era um público ainda não abrangido pelas políticas sociais públicas ou instituições filantrópicas. A Missão Vida surgiu para preencher essa lacuna e, com a prática, desenvolvemos uma metodologia própria de trabalho. Por isso, temos compartilhado nossa experiência com outras instituições e pessoas que queiram realizar trabalho semelhante por meio de um evento anual chamado Congresso Ação e Adoração. Apesar de 99% das pessoas que atendemos apresentarem algum tipo de dependência química, seu processo de recuperação agrega uma qualificadora importante, e que também é um vício: a mendicância. O indivíduo que permanece na rua por muito tempo, sobrevivendo de esmolas ou pequenos furtos, cria o hábito de não ter que trabalhar para suprir suas necessidades primárias, além da dificuldade de submeter-se a regras e horários. Essa questão é exaustivamente trabalhada nas unidades de recuperação da Missão Vida. Além de deixar para trás os entorpecentes, o interno também precisa se adaptar a uma rotina rígida de atividades que incluem devocionais, trabalho e lazer.

O mero assistencialismo, como a distribuição de sopão pelas madrugadas, por exemplo, acaba sendo o máximo que muitas igrejas conseguem realizar, mas não tiram a pessoa ajudada de sua situação precária. Isso ajuda ou prejudica?

Assistir significa ajudar, favorecer, proteger, socorrer. Acredito, sinceramente, que estender a mão ao necessitado é algo que devemos incorporar ao nosso cotidiano. A Bíblia diz que quem age assim é bem-aventurado. Essa versão negativa da assistência social como forma de manutenção do indivíduo em sua situação de necessidade deve ser analisada com muito cuidado, pois sua disseminação tem gerado uma visão distorcida das instituições que se propõem a fazê-lo. Posso garantir que a Missão Vida assiste a população de rua, tanto com a distribuição de sopa nas madrugadas como com a internação dos homens dispostos a sair da mendicância – porém, mantemos a preocupação de que o ex-mendigo mude sua situação e volte à sociedade como um cidadão produtivo. Aquele antigo provérbio chinês sobre dar o peixe ou ensinar a pescar tem sido usado pelos que combatem as atividades assistenciais, mas pergunto: é possível aprender a pescar quando se está faminto?

Uma das críticas que se faz ao papel da Igreja Evangélica brasileira é quanto à falta de envolvimento com esse tipo de trabalho. O senhor concorda que existe essa inação social dos evangélicos?

Fico triste em dizer isso, mas a verdade é que a Igreja brasileira tem se distanciado de projetos que tenham como objetivo amparar, assistir e evangelizar. Qual a função social da Igreja? Além de congregar, orientar e amparar seus membros, cada congregação deve partilhar da tarefa comum de todos os cristãos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”, diz o texto de Marcos 16.15. Ao longo dos anos, muitas igrejas afastaram-se desse propósito. Infelizmente, não são poucas as que menosprezam o trabalho missionário e evitam tudo que possa, digamos, “desviar” a congregação de um objetivo individual e, muitas vezes, longe do propósito cristão e evangelístico. Falo isso com a propriedade de quem, há mais de três décadas, preside uma instituição filantrópica que se mantém de pequenas doações mensais de cristãos de todo o Brasil.

E é difícil captar essas doações?

Olha, temos enfrentado muitas dificuldades nos últimos dois anos e acredito que isso se deve à visão egoísta e egocêntrica de muitos líderes. Para se ter uma ideia, acabo de chegar de uma viagem a Minas Gerais, onde fiz a apresentação do trabalho em duas ocasiões. Somente duas pessoas preencheram ficha de compromisso, comprometendo-se a doar 15 reais mensais…

Nas unidades da missão, convivem centenas de homens das mais variadas origens e diferentes tipos de comportamento. Conflitos ou rebeliões podem acontecer a qualquer momento. O que se faz para prevenir ou contornar essa possibilidade?

Com a graça de Deus, nunca houve um único caso de violência dentro dos núcleos da Missão Vida. Os ambientes são frequentados por famílias e até crianças, sem jamais termos tido qualquer problema desta natureza. Acredito que a razão pela qual isso nunca tenha ocorrido deve-se ao fato de que, quando as pessoas são amadas e respeitadas, elas tendem a agir da mesma maneira.

Está em tramitação no Congresso o polêmico projeto que prevê a redução da maioridade penal, de grande apelo popular, sobretudo diante do aumento da violência. Qual a sua opinião sobre isso?

Sou totalmente a favor da redução. Em países da Europa e mesmo em vários estados americanos, crianças a partir de cinco anos de idade são responsabilizadas pelos seus crimes. O que está faltando no Brasil é penalizar e educar aqueles que vêm cometendo crimes bárbaros de todas as formas possíveis e imagináveis, certos de que não serão punidos.

Há algum tempo, o senhor chegou a ser acusado de explorar a fé pública para angariar dinheiro. O senhor vive de quê? Recebe salário da missão?

Quanto à questão financeira, eu me tornei uma pessoa próspera, mas sem jamais usar absolutamente nada do que era levantado para a Missão Vida em benefício próprio. Meu pai adotivo era oficial do Exército e agente da Receita Federal. Meu pai biológico, que vive ainda, é desembargador. Minha mulher, Rosane, tem condição financeira privilegiada. Além disso, comecei a trabalhar com 13 anos, nunca bebi ou vivi dissolutamente. Sei usar bem os recursos que possuo, e adoto os mesmos princípios na Missão Vida, que, mesmo tendo recursos tão limitados, vem cumprindo seu ministério de forma cabal, sem dívidas ou compromissos que não consigamos saldar. Tenho minha consciência e mãos limpas. Por isso, não me abato com as falsas acusações.

O chamado missionário parece perder força diante da pregação onde a maior bênção a ser obtida é o bom emprego, o bem material, o regalo pessoal. Em seu entendimento, de que maneira esse tipo de mensagem tem prejudicado o Evangelho no Brasil?

São muitos os aspectos prejudiciais dessa forma de levar homens e mulheres a Deus. Vou citar apenas dois: ela cria uma fé frágil e não prepara o indivíduo para enfrentar as dificuldades da vida cristã. Se a fé de alguém se baseia na eventual resposta de Deus a seus anseios pessoais, essa pessoa vai questionar a providência divina, caso não seja atendido. Além disso, Deus não nos prometeu uma vida sem sofrimento. Muito pelo contrário: Tiago fala que é motivo de alegria passar por “diversas provações”, pois a prova da nossa fé produz perseverança. Uma fé firmada na prosperidade não resiste às provações. A fé precisa ser consolidada nos princípios bíblicos de amor a Deus e amor ao próximo, e só assim teremos cristãos verdadeiros e espiritualmente saudáveis. E, se ampliarmos o universo do impacto da teologia da prosperidade além da vida do indivíduo, vamos ver o egoísmo tomando o lugar do altruísmo e da solidariedade e o amor ao próximo dissipado numa torrente de amor a si mesmo.




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