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A síndrome do Tostines

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 Leonardo Gonçalves

Minha mãe era uma mulher de três paixões: o esposo, seus dois filhos e biscoito Tostines com coca-cola bem gelada (portanto o correto seria dizer cinco paixões, mas eu prefiro dividir por categorias). Houve um tempo em que ela estava tão fã do Tostines que não passava um só dia sem comer a bendita da bolacha. Engraçado que apesar de amar muito o papai, ela encarava numa boa quando ele tinha que fazer hora extra, e olha que as vezes papai virava a noite trabalhando! Ela também, apesar da saudade, segurava bem as pontas quando eu e meu irmão íamos passar as férias em Minas Gerais na casa da vovó. Mas tinha algo sem o qual ela não podia viver: Tostines. Mas vamos ser francos: o biscoito até que era gostosinho, né? E quem não lembra daquela propaganda? “Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?”, era o grande dilema existencial dos tostinólatras. Eu acho que são as duas coisas: Tostines vende mais porque é fresquinho sim, e é fresquinho porque vende mais. Se é crocante, é porque é fresquinho, e se é fresquinho, é porque vende mais... É uma questão de lógica (ou não, rs)!

Bom, deixa eu partir pra outro parágrafo porque o texto está começando a ficar embolado... O que eu quero dizer para vocês é que há um dilema no meio evangélico muito parecido com o grande problema filosófico do Tostines: o problema dos “show men”, “animadores de auditório”, os super pregadores da atualidade, que aliás, estão na moda. Poxa gente, não é que eu queira ser chato, ou que eu sinta prazer em pegar no pé dos outros, ou ainda que tenha algum tipo de obsessão compulsiva por enxergar podridão onde não tem, mas é que, gente: a coisa esté feia demais! A quantidade de abobrinhas que se tem ouvido ultimamente no púlpito brasileiro não é brincadeira não. É cada borracha que os caras contam, cada testemunho mais mentiroso que o outro (como o de um evangelista “mais ou menos famoso” da minha região, que dizia ter ido para Miami com 1 real. Mais tarde descobrimos que a história de Miami era fraude, pura “prosa”, e de quebra se descobriu que o danado não era evangelista nada, era cooperador e se fazia passar por evangelista, frequentando inclusive reuniões da Convenção!).

Hoje em dia não serve só pregar a Bíblia: tem que ser extravagante. Pregador bom é o que manda profetizar para o irmão do lado, é o que pisa na cabeça do diabo, que sopra no microfone e dá uns gritos meio doidões deixando a galera em transe hiperestésico. E mais: tem que ser “ex” alguma coisa: ex-bruxo, ex-morto, ex-pai-de-santo, ex-traficante, ex-sequestrador, ex-jogador de futebol, ou pelo menos um ex-aviãozinho (último rango na escala da bandidagem no Rio de Janeiro). Tem que ter um “ex” depois do nome! Mas o pior é que quando se vai investigar, a gente acaba descobrindo que o cara é mesmo “ex” um monte de coisas: “ex”-esposo, “ex”-servo de Deus, e a grande maioria deles são “ex”-telionatários (eu sei... a grafia está errada, né? mas você entendeu, rs...). Mas o pior de tudo é que, apesar desses tipos não pregarem absolutamente nada e de não valerem nem um centavo furado, eles têm a agenda sempre lotada e estão aí na mídia e nos congressos multitudinários. E o mais triste é que quem deseja começar a carreira de pregador, acaba logo aderindo a esse estereótipo cretino, e no final terminam se tornado cópias fajutas de pregadores ainda mais fajutos.

E aí? Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais? E os telepastores? Eles fazem sucesso porque estão na mídia ou estão na mídia porque fazem sucesso? Eles cobram caro porque os crentes pagam, ou os convidamos porque eles são caros? Entendeu agora a analogia com Tostines? Gente, é muito igual!



Crentes do meu Brasil varonil, aprendam isso: o palhaço não faz sucesso se não tiver platéia! Falamos tanto nos pregadores que comercializam a fé, mas na verdade somos nós os verdadeiros responsáveis por esse comércio. Somos nós que consumimos esse lixo gospel que nos é oferecido. Na verdade esses pregadores são apenas uma mercadoria na gôndola do supermercado, e permanecerão ali até que você as compre! Eles são um produto que é exibido na vitrine da religião, e permanecerão ali se você não os comprar. O problema é que alguns deles são a última moda, e infelizmente – assim como os incrédulos – os crentes também se guiam por tudo que está na moda. Gente acorda! Deixa de ser piolho! Para de andar pela cabeça dos outros! Você tem cabeça para pensar! Você não precisa pular porque todos pulam, orar no monte porque todo mundo vai, nem imitar o Marco Feliciano (pronto, falei!) só porque ele está na moda. Cuidado gente: se não acordarmos a tempo, corremos o risco de trasfomar-nos em marionetes igrejeiras!

Vamos boicotar esse sistema ordinário. Vamos lançar mão do divino dom de pensar, de discernir, e julgar os que são de dentro. Vamos deixar esses pseudo-pregadores encalharem nas prateleiras! Vamos parar de bater palma pra maluco dançar! Lembre-se: o palhaço só faz sucesso se tiver uma plateia pra apladir. Parem de comer Tostines, gente! Bolachinha pode até ser gostosinho, mas não satisfaz as nossas necessidades. Ninguém vive de bolacha! E só para que vocês saibam: para mim não faz a menor diferença se Tostines vende mais porque é fresquinho ou se é fresquinho porque vende mais: eu simplesmente não compro e acabou!


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