681818171876702
Loading...

O Erro de Ed René Kivitz


Me simpatizo com o Ed e seu jeito correto de paulistano, me lembra meu marido, com sua janotice burguesa, mas com o coração aberto e os pés cheios de poeira de tanto buscar as pessoas em amor.

Acompanhei em algumas ocasiões as palestras de Ed, e procuro ler seus textos. E é com respeito que faço esta critica de seu texto publicado no ultimo número da revista Ultimato, porque ele epitomiza a esquizofrenia ideológica que hoje é a marca da teologia da Missão Integral.

Entenda aqui que não faço um artigo ad-hominem, atacando a pessoa de Ed René. Ao que me consta ele é um homem íntegro que tem o respeito da comunidade que pastoreia e o respeito do Brasil. Me atenho a questionar as ideias que ele apresenta no artigo:


E para os pacificadores de plantão quero dizer que o debate de ideias nao é apenas saudável mas desejável para o crescimento do corpo. É neste questionamento mútuo que vamos aprender uns com os outros.

O primeiro ponto do artigo é uma série de conselhos sobre como devemos compartilhar a verdade. A atitude de quem compartilha não pode ser impositiva, não pode ser categórica. Concordo com a ideia inicial mas tenho problemas sérios com as inferências. Se Cristo é uma pessoa e tudo o que podemos fazer é dar testemunhos de fé, tornamos o Cristianismo apenas numa religião de experiências subjetivas.

O problema é que experiências místicas com o plano sobrenatural da realidade todos têm. Hindus, Budistas, Kardecistas, Islamistas. Como então diferenciaremos a experiência cristã de todas as outras experiências religiosas? Se o Cristianismo não implica em nenhum raciocínio sobre nada mas no conhecimento empírico do Cristo, não temos então um conceito coletivo de religião, mas idiossincrático. O meu Cristo, the o seu Cristo, podem se encontrar, mas não temos como compartilhar uma cosmovisão comum. Mesmo parecendo extrema esta visão de Ed René é muito comum e deriva diretamente da secularização do conceito de verdade.

Lesslie Newbigin descreve esta mentalidade e a chama de morte:

O relativismo que não deseja falar sobre a verdade, mas que só fala sobre o que é “verdade para mim” representa uma fuga do negócio muito sério que é viver. É uma trágica marca da falta de coragem e vitalidade na nossa cultura contemporânea. É um sintoma inicial da morte.”[1]

Daí Ed René passa para Israel numa síndrome completa de non-sequitour, ou no português mineiro: uma síndrome onde o cós não tem nada a ver com as calças. Como assim? Porque o exemplo de Israel e o que isto tinha a ver com o tema anterior? Não sei. Mas como parece ser uma missão inerente à esquerda evangélica brasileira o ataque ao estado de Israel ele mete o assunto ali. Parece querer dizer que se houver diálogo e paz, todos estarão bem, e que o conflito acontece por causa de fundamentalismo dos dois lados…

Aí me irrito bastante, já que tenho gastado algum tempo tentando entender o assunto e a perseguição injusta que sofre o estado de Israel. Nada mais equivocada do que esta inferência. Fundamentalismo terrorista existe apenas de um lado do conflito e não é o lado de Israel. Chamar a reação de Israel de fundamentalismo mostra não apenas desinformação e ignorância, mas má fé. Seria o mesmo que chamar de terrorista um pai armado que mata um bandido que invadiu sua casa matando dois de seus filhos e em processo ativo de matar os outros dois e a esposa.

O conflito entre Israel e o resto do oriente islâmico (palestinos, iranianos, egípcios, etc.) se entende assim: Um lado (o islâmico) quer o outro (Israel) aniquilado. E só vai parar quando lograr seu objetivo. Pronto é isto. Quer saber porque Israel reage, bombardeia alvos na palestina, tem os militares mais bem treinados do mundo? Porque quer continuar existindo. Apenas isto. Nada a ver com Israel não desejar a paz, não querer atender demandas palestinas pra mais terras, mais dinheiro, mais liberdade. Os palestinos tem toda a liberdade que querem para fazer o bem, e dinheiro derramado do mundo inteiro em cima deles [2]. Se tivessem a menor intenção de melhorar a situação de vida do seu povo teriam feito. Vivem na miséria porque investem todos os recursos que recebem em armamentos. Um exemplo quentinho: A Palestinian Bar Association, a OAB palestina decidiu honrar com um diploma honorário o terrorista que esfaqueou dois israelitas no dia 4 de outubro. Você conhece uma sociedade e seus valores pelo que esta sociedade honra. Infelizmente a sociedade palestina honra o ódio e o terror. Boa diplomacia não cura isto. A esquerda tem uma ingenuidade inerente que a cega.

Em outro exemplo de non-sequitour, desta vez mais contraditório, ele passa para a história de Hirsi Ali, aliás gosto mais do trabalho dela como muçulmano do que do judeu Amos Oz. Ali é uma escritora/teóloga muçulmana que propõe a reforma da religião islâmica. O que propõe Ali é a inclusão de exatamente as contribuições do Cristianismo à cosmovisão ocidental. Principalmente o valor intrínseco do indivíduo, a responsabilidade pessoal e a independência para tomar decisões.

Só que Ed René atribui ao iluminismo estes valores tipicamente cristãos. É só comparar a revolução francesa com a independência americana que se chega ao porão destas ideias. O iluminismo produziu mais de 10 anos de revolução sangrenta e ainda criou o espaço para o surgimento do imperialismo de Napoleão. A guerra da independência americana inspirada pelas pregações de salvação de George Whitefield produziu a melhor e mais segura democracia da história. Inspirada na Bíblia, nestes valores que a muçulmana Ali gostaria de incorporar na sua religião. “We the people…” o texto da constituição americana é uma prova de que religião não é algo irrelevante e deve ser puxado para o lado em nome da nobreza do “secularismo”. A constituição americana é uma obra magnifica porque reconhece exatamente isto, que o ser humano debaixo do Deus cristão deve ser em primeiro lugar livre para tomar suas próprias decisões.

Me lembro que no ensino médio na escola pública em que frequentei no Brasil a professora de história, que eu adorava, se recusava a falar da revolução americana. Aprendi que foi uma luta menor, e que a grande conquista da modernidade foi mesmo a revolução francesa. Hoje sei que minha pobre professora tinha sido bem doutrinada por seus professores esquerdistas e que realmente nunca questionou o que lhe foi oferecido na faculdade.

O que propôs Ed René afinal? Termino o artigo confusa. Ele vai e volta, atacando e defendendo o Cristianismo num zig-zag, parecendo não ter coragem de abraçar afirmar uma coisa nem outra. Arrisco propor que Ed ainda hesita entre dois mundos. Doutrinado pelo secularismo esquerdista ainda bebe das fontes amargas que pintam o Cristianismo com cores diabólicas e ignora os fatos mais óbvios.

Foi o iluminismo ou o Cristianismo que gerou as bases ideológicas da civilização ocidental? Se foi a religião cristã então porque compartilhar estas verdades universais, é negativo? Foi o Cristianismo que inventou a escravidão, o racismo? Foi o projeto missionário cristão? A esperança para o mundo renasce agora porque este projeto missionário maligno se reinventou numa proposta não-colonialista?

Não René, me desculpe mas você está muito equivocado. Paro por aqui. Poderia seguir defendendo as missões católicas que acompanharam os conquistadores da América do Sul, elas mesmas apesar de seus erros e pecados muitas vezes as únicas defensoras dos ameríndios e responsáveis pela sobrevivência dos que ficaram. Poderia defender as missões protestantes do século XIX e XX, consideradas por sociólogos como a principal causa da democratização de muitas ex-colônias na África e no resto do mundo.

Se comprarmos esta balela do cristianismo subjetivo e experiencial que você propõe, pregando verdades individualizadas e culturalmente costumizadas aí sim perderemos o bonde da história.


[1] Lesslie Newbigin, The Gospel in a Pluralist Society

 [2] Nota do Editor: Gaza e Cisjordania recebem 1,8 bilhões de ajuda humanitária anualmente. O dado é de 2012 e a tendência é de alta. A Palestina, apesar de seu pequeno território  e população  é top 10 recebedores de doações no mundo desde 2009 e isto, obviamente, não inclui o contrabando de armas. Não bastassem as armas recebidas de inimigos de Israel, é sabido que o dinheiro para o contrabando é financiado com a venda dos mantimentos recebidos em doação. Manter a animosidade contra Israel é também um grande negócio para os líderes eleitos pelos palestinos.

Publicado originalmente na Revista Ultimato







Capa 8846241079184567126

Postar um comentário

Página inicial item

Siga por e-mail