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A ÚLTIMA PREGAÇÃO. Ele foi chamado à Glória durante o culto.


Deivinson Bignon


“(...) porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça; antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço, e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12.5b-7).


Esta é uma história de ficção baseada em fatos reais. Em minhas andanças ministeriais, deparei-me com dois casos semelhantes à narrativa que você lerá a seguir.



- Jesus está chamando vocês ao arrependimento! Quem, nesta noite, aceitará o maior desafio de sua vida? Quem terá a coragem de entregar seu coração ao Senhor para renascer?

Hermeneuo fazia reverberar a Palavra de Deus no íntimo de seus ouvintes através dos sons articulados por sua dicção impecável, apesar de seus 71 anos. Ao longo de meio século de experiência ministerial, o velho pastor já havia ganhado cerca de 700 almas para Jesus. Tudo indicava que o número aumentaria naquela noite.

Era um culto especial de aniversário da igreja e de Ceia do Senhor. Com o breve silêncio do pregador, podia-se ouvir apenas o fungar das respirações afetadas pela emoção. Em seguida, dez pessoas levantaram suas mãos, indicando com este gesto que estavam entregando suas vidas a Jesus naquele momento. Foi uma festa! A igreja veio abaixo em brados de Aleluias e Glórias a Deus. Sim, dez almas foram conduzidas ao altar pelos obreiros atentos, que vibravam em silêncio, tentando segurar a emoção por aquela colheita tão abundante.

Hermeneuo convocou o novo pastor titular, a quem há sete anos ele havia entregado o cajado do ministério após um longo período de mentoria bem-sucedida. O pastor Apolo também era poderoso na Palavra, mas todos se regozijavam ao ver o seu velho pastor no púlpito, ainda arrancando almas das garras do inferno.

A verdade é que Hermeneuo estava muito doente. Há um ano ele descobriu que havia contraído câncer nos rins e lutava com o tratamento. Septuagenário, o velho pregador já mostrava sinais de cansaço, apesar de manter sua mente muito lúcida. Seu apoio de toda vida era sua esposa, a irmã Miriã. Também incansável no ministério, a anciã cuidava de seu marido naqueles dias penosos. Mas ela não tinha como saber o que iria acontecer mais tarde.

O pastor Apolo anunciou um número musical antes de iniciar a cerimônia da Ceia do Senhor. Uma irmã jovem e muito bonita recebeu o microfone e iniciou o seu solo. No auge dos agudos da soprano, o pastor Hermeneuo sentou-se na cadeira atrás da mesa enfeitada com a Ceia preparada, sentindo-se mal. Num instante, ele focalizou os matizes carmesins de um cacho de uvas e toda a sua vida passou como um relâmpago em sua mente.

Hermeneuo lembrava-se de sua infância pobre no interior de Capitão Poço, estado do Pará; de sua juventude passada no Rio de Janeiro, de seu chamado ao ministério pastoral com apenas 15 anos de idade, de seu primeiro beijo em Miriã, aquela jovem loira tímida por quem ele se apaixonara muito cedo na nova igreja de seus pais, no Rio. Reviveu ainda os anos de estudos no seminário teológico, sua ordenação ao ministério e o modo como suava em bicas em seu sermão de prova, diante de tantos pastores e mestres. Enfim, um filme se desenrolava no íntimo de sua mente até aquele momento do culto, quando ele tentava continuar respirando.

O pastor Apolo estava de olhos fechados, navegando nas ondas musicais. Hermeneuo afundava na cadeira confortável, remexendo seu velho quadril em busca de uma posição que lhe facilitasse a respiração, mas não a achava. O desespero já tomava conta da alma, mas seu autocontrole era admirável, pois o semblante não demonstrava sua intensa agonia.

O solo terminou, a igreja glorificava a Deus em altos brados. Os novos convertidos já haviam sido conduzidos ao gabinete pastoral à espera das orientações do pastor. O culto se aproximava do fim. Neste momento, a irmã Miriã cessou suas orações, abriu seus olhos e percebeu que algo estava errado. Fitou seu velhinho e o viu em agonia, tentando controlar seu mal-estar. Rápida, a anciã correu ao púlpito, subindo os três degraus que dava acesso ao altar. Chegou a tempo de ver os olhos de seu marido contemplando o teto e balbuciando só para ela, com intensa dificuldade:

- Veja, ... Miriã!... Há... anjos aqui... são... lindos!

Miriã não viu anjo algum. A igreja inteira estava em silêncio. Apolo percebeu o que acontecia e já estava se comunicando com seus oficiais eclesiásticos para que socorressem o velho pastor e chamassem uma ambulância.

Respirando com dificuldade, Hermeneuo ficou em silêncio. Seus olhos não mais traduziam desespero, mas refletiam sua paz interior, com uma serenidade sem igual. De súbito, o velho pregador conseguiu sorver uma grande golfada de ar e, sorrindo para sua amada esposa, expirou todo o conteúdo de seus cansados pulmões, entregando seu espírito a Deus.

Miriã já estava com seus olhos marejados, refletindo as lâmpadas incandescentes que despejavam sua intensa luz azulada no arranjo ao lado do púlpito de acrílico. Ela viu, numa fração de segundos, um fino filete prateado, etéreo, bruxulear da boca de seu marido e ir serpenteando até ao teto da igreja, dissolvendo-se ao tocar a abóbada. Seu chão ruiu naquele instante.

A igreja estava em suspense. O pastor Apolo explicou o que estava acontecendo e os irmãos foram tomados de intensa emoção. Alguns choravam alto, outros sussurravam para seus vizinhos de banco algo sobre aquele momento estranho. Logo, a Igreja começou a cantar o hino que o velho pastor mais gostava: “Manso e suave, Jesus convidando...”. Miriã chorava baixinho, resignada, quando os paramédicos chegaram e já providenciavam a remoção do pastor Hermeneuo, inerte, numa maca. Ela já sabia: seu amado esposo havia partido para a maior aventura de sua vida, atendendo desta vez ao último chamado de seu Senhor.

Surpreendentemente, os fiéis não se dispersaram. O pastor Apolo conduziu o restante do culto com a igreja em total sintonia espiritual. Todos estavam em ardorosa adoração e confissão espontânea de pecados em oração. Os oficiais que permaneceram no templo tiveram de se concentrar para retomar suas funções e se posicionarem ao lado do pastor para, assim, darem prosseguimento ao culto, servindo a Ceia aos irmãos.

Nunca houve um culto como aquele. No momento em que tomaram o vinho, todos juntos, uma luz suave, dourada, invadiu o lugar. A glória do Senhor se manifestou de forma visível ali. O pastor Apolo não se continha e, ajoelhado, dava brados de louvor e adoração a Deus, orando também em completa plenitude espiritual. O ministério de louvor, desde os que ministravam e cantavam, até os instrumentistas, também se ajoelharam atônitos. Ninguém ousava pegar no microfone para falar nada. A Igreja ardia em uma fé espontânea. Os dons espirituais jorravam com grande fluência. O banquete espiritual era grande na mesa de Deus.

-x-x-x-

Longe dali, Hermeneuo flutuava numa leveza espantosa. Sua consciência simplesmente deslizava no ar, pois não estava mais limitada ao invólucro de sua carne pesada. Já não havia dor, nem pranto. Ele nem precisava mais sorver oxigênio para manter seu corpo vivo. Hermeneuo estancou e vislumbrou os portões prateados e as ruas douradas logo após eles, num resplandecente mosaico de cores vívidas que realçavam sobrenaturalmente a beleza daquele novo lugar. Ele postou-se em frente aos portões. Uma felicidade jamais sentida em sua vida se apoderou dele.

Foi quando eles se abriram, refletindo partículas de luz prateada, e Hermeneuo viu um homem brilhando como a luz do sol do meio-dia. Suas mãos delicadas, traspassadas há tanto tempo, se estenderam num gesto convidativo:

- Vinde, bendito de meu Pai!

Hermeneuo aceitou o convite. Em breve ele faria parte da Ceia mais importante de sua existência.


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Deivinson Bignon é pastor Congregacional e Publisher da Editora Contextualizar.




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