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A Bíblia nos Ensina a Viver 2: Responsabilidade Ambiental



Dando sequência à série A Bíblia nos Ensina a Viver, neste segundo texto (artigo) dedicaremos nossa atenção a um tema crucial para a nossa sociedade, que é a importância da responsabilidade. O termo responsabilidade está em voga não somente em nosso país, como também no mundo. Crise econômica, desemprego, inflação, falta de água, desmatamento excessivo são apenas alguns dos temas que estão em discussão. Como superá-los? Como podemos construir uma sociedade sustentável, acolhedora e que dê condições de sobrevivência às gerações futuras? Como nossos filhos e netos viverão nas próximas décadas? São indagações importantes e que merecem nossa atenção. Há bases bíblicas para uma suposta “responsabilidade ambiental evangélica”? Qual é o papel da Igreja frente aos inúmeros desafios que aflige toda a humanidade? Sua função é apenas de ser um canal de comunicação do Evangelho, ou pode ir além?

A humanidade passa por uma situação crítica

Na 10º Conferência das Partes da Convenção Sobre Diversidade Biológica (COP-10), realizada em novembro de 2010, no Japão, o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, fez uma declaração estarrecedora: “Os seres humanos estão destruindo as bases que sustentam a vida na Terra”. Impactante, não? O que de fato temos feito com a criação? Devemos adotar a posição conservadora de um grupo de cientistas e líderes religiosos norte-americanos - de que nada disso é verdade, de que a natureza e, principalmente, a sobrevivência da espécie humana não está em risco -, ou já é hora de pararmos para pensar de que forma temos contribuído com a manutenção do equilíbrio da natureza, que é obra do poder criativo de Deus? Estamos sim diante de uma situação preocupante e que envolve todos.

Diferente do que alguns pensam, o homem tem sim parte de culpa no atual estágio de degradação do meio ambiente. Exemplo do que estamos falando é o desabafo de Gardiner Harris. Em texto publicado no jornal The New York Times, em junho de 2015, Harris fala sobre um dilema que o acompanha desde que mudou para a capital da Índia, Nova Déli. “A respiração de meu filho de oito anos, Bram, estava cada vez mais difícil. Seu inalador passou a ser crucial. Então, numa noite assustadora, nove meses depois de nossa mudança para Nova Déli, o inalador parou de funcionar, e a respiração do Bram ficou ofegante, quase em pânico. Corremos para um hospital particular a quilômetros de distância. Minha mulher estava no banco de trás, com a cabeça do Bram em seu colo, enquanto abríamos caminho em meio a um trânsito caótico. Quando chegamos, os médicos injetaram esteroides em meu filho. Bram voltou para casa uma semana depois”.

Correspondente do New York Times no sul da Ásia desde 2012, Harris compartilha sua frustração com a situação caótica da Índia. “Nós estávamos preparados para enfrentar dificuldades: pedintes insistentes, dengue endêmica e o calor que pode chegar a 50º no verão. Não fazíamos ideia, porém, de como Nova Déli poderia ser perigosa para nossos dois meninos. Pouco a pouco descobrimos que o verdadeiro perigo em Déli vem do ar, da água, dos alimentos e das moscas. Esses perigos adoecem, incapacitam e matam milhões de pessoas por ano na Índia, gerando um dos piores desastres mundiais de saúde pública. Descobrimos que Déli enfrenta uma gravíssima crise respiratória pediátrica. Um estudo mostrou que quase metade das 4,4 milhões de crianças no ensino primário e secundário da cidade já sofreram danos pulmonares irreversíveis devido ao ar. São horrores dos quais a maioria dos indianos não escapam”.

Que situação difícil essa a do jornalista norte-americano. Ele fala de sua preocupação com a manutenção de seu emprego e benefícios, mas também fala de sua preocupação com a saúde de seus meninos e, principalmente, com a situação debilitada de Bram. Em seu artigo Harris menciona uma nova crise respiratória e a revelação que a permanência na Índia pode causar danos irreversíveis na saúde de Bram. Mas o que fazer, não é? Afinal, a Índia é destino de milhares de outras pessoas que desembarcam por lá com finalidades diversas, seja para representar suas empresas ou mesmo para comunicar a mensagem do Evangelho, como é o caso de missionários brasileiros que para lá se dirigem todos os anos. A poluição e as condições de higiene são sim motivo de procupação de quem pretende se aventurar na Índia. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o ar de Nova Déli é duas vezes mais poluído que Pequim, a capital da China.

Índia e China possuem diversas semelhanças, como superpopulação – juntos os países tem um terço da população mundial, ou seja, 2,5 bilhões de pessoas -, desrespeito aos Direitos Humanos e são um dos grandes causadores da destruição da natureza. Estados Unidos, França e Inglaterra também tem parte de culpa por serem grandes emissores de gases poluentes, que trazem prejuízos econômicos e de saúde incalculáveis. Some tudo isso a uma grande explosão demográfica: existem hoje mais de sete bilhões de pessoas no mundo, das quais 955 milhões vivem no Continente Americano. A crise hidríca do Estado de São Paulo e a Califórnia, nos EUA, são apenas parte de um sintoma de uma infecção ambiental que afeta praticamente todos os países. Vivemos todos dentro de um mesmo barco, e cujos efeitos maritmos afetam a todos nós.

Como temos tratado a natureza, que é parte do processo criativo de Deus

Como cristãos confessos, entendemos a natureza – o que inclui a fauna e a flora – como parte do processo criativo de Deus. Singular em meio a diversos outros planetas, a Terra foi escolhida por Deus como o local em que faria surgir a vida. Somos especiais. Nenhum outro planeta em nossa constelação – e não quero aqui me prender à discussão de que se há ou não vida em outras constelações, afinal é algo não tratado de forma detalhada nas Escrituras – possui tamanha riqueza ambiental como a Terra. De fato somos priveligiados por viver em um planeta com tamanha beleza e condições de vida. O capítulo um de Gênesis é crucial ao entendimento da origem das diversas espécies de animais e vegetais. A natureza é obra de um arquiteto inteligente, senão não teríamos saído do estágio caótico, de ausência de luz e forma descrita em Gênesis 1.2. Big Bang?

Não, a natureza não é – pelo menos não da forma como evolucionistas entendem a origem do universo e da vida – parte de um processo evolutivo, mas de uma ação criativa de Deus. Não sabemos ao certo como se deu a elaboração de todas as espécies, embora Gênesis 1.11 e 20 descreva a ordenança divina com relação ao surgimento das primeiras especies de animais terrestres e maritmos. O fato é que as espécies foram criadas por um ato poderoso de Deus. Não temos qualquer dúvida com relação a isso. A ciência ainda não conseguiu - mesmo depois de centenas de pesquisas científicas posteriores a Charles Darwin - dar uma explicação razoável ao surgimento da vida. Não há nada na Origem das Espécies – livro este publicado em 24 de novembro de 1859 por Charles Darwin – que faça entender que a vida surgiu de uma ameba, de substâncias oriundas dos oceanos. A vida não tem essas características ancestrais. Não há provas.

Como então entender que a Terra e toda a vida que nela existe é obra de um arquiteto inteligente? Pelo próprio funcionamento da Terra, dos ciclos da vida. Tudo funciona perfeitamente, no seu devido lugar, nos fazendo lembrar de uma sinfonia, da melodia de uma orquestra sinfônica. A vida tem essas características, de um ritmo suave e com um ciclo completo de nascimento, vida e morte. Há uma lei para tudo, para todas as espécieis de animais e vegetais. A própria Terra é um organismo vivo, não no sentido como entendem os adeptos da Nova Era, mas no sentido em que a vida corre por suas artérias e que sem as suas características naturais seria impossível haver vida no mundo. Mercúrio tem justamente essas limitações pelo o fato de que, durante o dia atingi temperaturas torrenciais, e que a noite é extremamente gelado devido à inexistência de atmosfera. Por esse e por outros motivos a Terra deve ser preservada pela humanidade.

Que seria do planeta sem as estações do ano? Outono, Inverno, Primavera, Verão. Entende? Elas são importantes ao ciclo regulatório de nosso planeta. Hoje pela manhã (escrevo estas linhas na noite de 8 de julho de 2015) ao conversar com um senhor em uma padaria, ele falou da importância das geadas. “... Lá na roça, onde nasci e fui criado, as geadas eram importantes porque beneficavam a roça (...) eram importantes porque beneficiavam as plantações”. Não nasci na roça e também não me atrevo a questionar práticas dos trabalhadores das lavouras, mas posso concordar que as estações do ano são vitais à manutenção da vida, na reposição de água nos aquiferos e reservas. Por outro, é importante dizer que estamos vivendo um período difícil, de instabilidade climática que afeta a disponibilidade de água para o consumo do homem. A Terra é alvo de uma ação destrutiva, de uma intervenção humana cujos resultados são danosos.

Deus deu ao homem a possibilidade de domínio sobre a fauna e a flora

Adão e Eva deveriam procriar e encher a Terra, mas como seus descendentes poderiam sobreviver? Onde encontrariam recursos necessários à sua perpetuação? Como seria a relação do homem com a natureza, com os animais e os vegetais? Gênesis 1.28-30 nos apresenta um parâmetro para a compreensão deste longínquo processo. “E Deus lhes abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai e enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra (...) Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, e que há fruto que dê semente, ser-vos-à para mantimento. E a todo animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento, e assim foi”. Deus concedeu ao homem o direito de “explorar a Terra”, de administrá-la.

Embora Deus tenha permitido que o homem explorasse a Terra como forma de “sobrevivência”, o atual estágio de destruição da natureza vai contra os propósitos divinos de preservação. Deus não criou os céus e a terra com o intuíto de destruí-los. A perpetuação do homem teria de ocorrer em consonância com a exploração sustentável dos recursos naturais. Hoje observamos o inverso, infelizmente. E o que é pior: há quem defenda a exploração predatória dos recursos naturais com base no fato de que Deus concedeu ao homem o direito de subjugar a fauna e a flora. Nada mais atrasado, medieval e desumano. A natureza é parte de um projeto maior, de implantação do paraíso na Terra. Por que Deus colocou o homem no Édem senão com o objetivo de que este aprendesse a importância de uma administração sustentável? (Gn 2.15). Não deveria Adão lavrar e guardar o Jardim do Édem? Não seria esta uma relação de amor?

A entrada do pecado no mundo causou sérios problemas não somente ao homem, mas também a toda a criação. “Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8.22). Entende? A criação também passa por um período de dor semelhante a uma mulher em processo de parto. Como parte da criação, o homem tem o dever de protegê-la, de preservar a obra prima de Deus. Nada justifica o desmatamento desenfreado da Amazônia, a poluição de rios e oceanos, a aniquilação de espécies inteiras de animais. Nem mesmo a ideia de que “Deus destruirá a Terra“ deve ser tomada como base para o argumento de que não devemos nos envolver com políticas de defesa do meio ambiente, de uma sociedade sustentável. Por outro, isso não significa que os crentes devem largar seus locais de culto para se dedicar as causas ambientais do Greenpeace ou de qualquer outra ONG ambientalista moderna.

Os crentes podem contribuir de diversas formas com o bem-estar da sociedade, com a preservação da criação, começando com uma reformulação de seus próprios hábitos. Consumir de forma consciente, não adquirir madeiras de origem ilegal, não descartar plásticos e papeis em vias públicas, não usar água de forma abusiva é alguns de vários exemplos de mudança de hábitos que todo cristão dever aderir. É preciso exercer nossa cidadania, dar a nossa contribuição com a construção de uma sociedade sustentável. Bram e outras crianças são vítimas de um sistema ultrapassado, que desde a Revolução Industrial vem causando sérios problemas nas grandes cidades do mundo. Diante deste quadro desolador a Igreja deve estabelecer um diálogo de alto nível com a sociedade, participar de debates cujos temas afetam diretamente seus membros e congregados. É o momento de a Igreja assumir uma postura firme frente aos desafios.


Johnny Bernardo é jornalista e pesquisador de religiões.


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