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Ofendido com o transexual crucificado na Parada Gay?

Fotografia: Marcelo Parmeggiani

Hermes C. Fernandes

A encenação da crucificação de Jesus em plena parada gay causou muito mal-estar entre cristãos de diversas matizes. Uns consideraram blasfêmia, outros, apenas deboche, mas a maioria entendeu como uma provocação aberta aos cristãos.

Particularmente, não me senti nem um pouco ofendido ao ver um transexual pregado numa cruz. Afinal, Jesus não morreu somente por héteros. Na cruz, Ele Se identificou com os excluídos, os oprimidos, os marginalizados, e ao fazê-lo, assumiu em Si todos os nossos pecados, sejam de que natureza forem, inclusive sexual. Não há dilema humano que não caiba na cruz.

O que vi representado naquela cena foi o sofrimento de um segmento que tem sido vítima de nosso preconceito, nojo e ódio. O que deveria nos incomodar não é a cena em si, mas aquilo que ela pretende denunciar. E por mais doloroso que seja admitir, temos engrossado o coro de seus algozes. Nossos discursos inflamados, travestidos de piedade cristã, só fazem fomentar ainda mais a intolerância e o desamor.

O que para alguns pareceu um insulto, para mim soou como um pedido de socorro. Se a intenção era apenas provocar, eles conseguiram. Provocaram o que já estava latente em nós, nosso ódio inconfessável ou nossa compaixão.

Sobre a cabeça do transexual crucificado uma placa que dizia "Basta de homofobia". Se isso não é um pedido de socorro, não sei do que se trata.

Próximo dali, um grupo de cristãos conscientes exibiam uma faixa que dizia "Jesus cura a homofobia". Nem tudo está perdido. No meio desta loucura insana que se instalou em nossos arraiais, ainda resta alguns oásis de lucidez e misericórdia. Pena que seja uma minoria. E tomara que se torne uma minoria bem barulhenta.

A maioria está tão obcecada com a ideia de curá-los daquilo que reprovam como conduta, que não percebem o quão doentes estão.

Obviamente que políticos evangélicos que têm sido eleitos em cima desta guerra idiota vão aproveitar ao máximo o episódio para se auto-promover. Quanto mais animosidade entre cristãos e gays, melhor para eles. Só não vê quem não quer.

E Jesus, será que Se ofendeu? Ora, se Ele foi capaz de rogar perdão por aqueles que o crucificavam pra valer, duvido muito que não tenha relevado o que não passou de uma representação artística. Não creio num Jesus ranzinza, insensível e incapaz de compreender nossas idiossincrasias e incongruências. Creio que do alto céu, Ele olhou com misericórdia aquelas milhões de pessoas que desfilavam na Avenida Paulista como ovelhas que não têm pastor.

Quem sabe encontrou mais sinceridade em cima daquele trio-elétrico do que em cima de outros que desfilaram dois dias antes. Assim como encontrou mais fé num centurião romano idólatra do que nos religiosos escrupulosos que o seguiam. Imagino o quão ofendidos ficaram ao ouvirem dos lábios de Jesus: Nunca encontrei tamanha fé nem em Israel.

Que tal se em vez de ficar colocando lenha na fogueira de nossa nada santa inquisição, não alimentamos o que ainda nos restou da chama do amor?





P.S. Duas passagens bíblicas têm sido usadas para justificar a revolta de muitos cristãos devido à crucificação encenada na Parada Gay. Uma delas está em Hebreus 10:29: "De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com o qual foi santificado e ultrajar o Espírito da graça? Pois conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo." Reparem que esta advertência é dirigida aos cristãos e não aos de fora. Está se falando de alguém que, uma vez santificado, insiste em profanar o sacrifício de Jesus e ultrajar o Espírito da graça. E sinceramente, é o que mais tenho visto por parte daqueles que destilam ódio em seu discurso pseudo-piedoso. Quem ultraja mais o "Espírito da Graça" senão aquele que se atreve a delimitar o perímetro de Sua atuação? Quem profana mais o sangue da aliança se não os que fazem do povo de Deus um meio de ganhar dinheiro e votos?  A outra passagem está em Gálatas 6:7: "Não vos enganeis. De Deus não se zomba. Tudo o que o homem semear, isso também ceifará." Basta uma conferida no contexto para verificar que Paulo está advertindo os que trocaram a graça pela lei, a misericórdia pelo juízo e que estavam justificando a si mesmos por suas obras. Ninguém tem zombado mais de Deus do que os cristãos. E não só isso: por nossa causa o caminho da verdade tem sido blasfemado pelos de fora (2 Pe.2:2). Eles têm como justo álibi uma suposta ignorância. Porém, nós não temos o direito de nos estribar em nossa nesciência.
Agora, cá entre nós... É impressão minha ou os gays se apropriaram "indevidamente" de uma mensagem que tem sido desprezada pelos cristãos? Ou alguém ouviu alguma menção à cruz de Cristo durante a Marcha pra Jesus?
A cruz segue sendo um escândalo. Talvez por isso já não é pregada como antes. Ela expõe as entranhas de nossa presunção, de nosso preconceito, de nossa vaidade, enquanto manifesta a glória de Sua escandalosa graça.

A propósito, não me sinto na obrigação de perdoar o que não considerei ofensa. E se este fosse o caso, meu perdão não se basearia no fato de "não saberem o que fazem". Pelo que tenho visto até aqui, eles sabem mais o que fazem do que muitos crentes sabem o que dizem. Mas se você, cristão, se sentiu ofendido, só lhe resta perdoar ou refletir sobre seu posicionamento. 

Só me resta agradecer à comunidade LGBT por nos fazer lembrar que ainda há uma cruz. 






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