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UMA GERAÇÃO QUE NÃO SABE SORRIR




Confesso que fiquei surpreso com uma crítica dura que recebi em um post que coloquei na minha time line numa rede social. Como se pode ver na imagem deste artigo, trata-se de um cartoon que se utiliza do bom humor para fazer uma denúncia. As figuras que aparecem no mesmo, como se sabe, não carecem de apresentação nem comentários...

Pois bem, por causa deste dito cujo, recebi a reprimenda de que estava fazendo pilhéria, algo de mau gosto, debochando, ridicularizando os pastores em destaque, que os profetas, ou os apóstolos – Paulo e Pedro – jamais fariam isto, que a denúncia era desmedida, etc., etc.

Ora, não é de hoje que sei que a mente religiosa, além de limitada, é violentamente condicionada pela moral de ocasião, um subproduto da cultura bíblica que, na esmagadora maioria dos casos, é irremediavelmente mal aplicada a contextos diversos da vida. Sim, a igreja neste tempo sofre, dentre outros, de dois males terríveis: ignorância doutrinária e analfabetismo histórico.

O grande mal da alienação que a religião produz é a amputação do indivíduo para a vida. A religião não suporta nada que não seja ligado a “fé”, que não se atenha as suas rotinas, credos e confissões. Para o religioso, arte, cultura, ciência, política, são temas exilados da existência, para nada aproveitam ao “homem-de-Deus”, são manifestações e conhecimentos inúteis que cabem, apenas, ao mundo caído e as suas dinâmicas próprias.

Este confinamento do saber às mídias de cunho espiritual, além de limitar o pensar do indivíduo, bitola-o de tal forma em sua consciência que ele se torna alguém impossibilitado de fazer abstrações, desenvolver um senso crítico, questionar algo ou mesmo se posicionar na contramão do sistema. O resultado é o que chamo de “crente em série”, um produto da igreja-fábrica que oferece a sociedade um sujeito obtuso, do ponto de vista da cultura, e intolerante, da perspectiva da fé.

A trágica realidade é que, a grande maioria das pessoas ligadas à religião, perdeu a capacidade de sorrir. Sim, é um contrassenso uma espiritualidade que, ao invés de tornar o indivíduo um ser melhor, faz dele uma aberração! Esta é uma geração que não consegue se alegrar com nada que não seja pregação ou culto do sagrado. Eles não conseguem rir de uma piada, nem admirar o nu de uma obra de arte, não podem assistir a uma dança popular ou falar sobre economia e política sem o viés da religião.

Eu usei o cartoon para fazer a denúncia – lembrando que este tipo de arte consegue alcançar uma enorme quantidade de pessoas – como poderia ter utilizado uma música do Ivan Lins, criticando o cerceamento da liberdade, ou uma obra de arte de Edvard Munch – como “O Grito” – para falar do desespero humano, ou uma poesia de Pier Paolo Pasolini, denunciando práticas sociais perversas. Eu não vivo numa gaiola, vivo numa sociedade plural!

Portanto, é bom lembrar que a bíblia não é o único canal da manifestação de Deus na história humana, pois a Graça Comum nos revela um Pai que faz com que seu amor alcance pessoas através de meios, não raro, totalmente inusitados e imponderáveis.

Sou um homem do mundo contemporâneo, não posso viver minha fé da mesma forma que Jeremias viveu. Os princípios de Deus são imutáveis, mas as dinâmicas da vida estão marcadas pelas características de cada tempo e da própria história humana debaixo do sol.

Os heróis da fé sempre serão, para nós, uma referência, mas eu preciso encontrar a forma certa para comunicar o Reino de Deus e a Salvação em Jesus para este tempo! Se assim não for, estou correndo o sério risco de afirmar que “Jesus Cristo é a solução”, mas sem saber quais são os problemas que afetam as pessoas neste dia chamado hoje.


Carlos Moreira colabora com o Genizah


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