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Sobre a fé e as crendices

Rubinho Pirola

Sou um cara de fé. Mas não de crer em qualquer coisa (sou cartunista, não? E todo cartunista é cético e crítico).

Talvez por isso tenha demorado tanto pra virar um cristão (lá pelos meus 15 anos, quando já distribuia jornais de esquerda, subia em caminhão pra falar contra a ditadura, por descrer do regime e das "fotos e versões oficiais").

Mas faço distinção entre fé e superstição.

Superstição é aquilo recomendado por alguém, o que não provei, o que não experimentei, ou vi evidências, nem físicas, sensoriais ou racionais.

Sem fé é impossível andar com Deus. Ele não vai caber nas minhas limitadas capacidades. Vai ser loucura. Mesmo as Suas coisas mais sábias, vão-me parecer idiotas e sem sentido.

Ele não vai ser medido, nem compreendido, nem percebido pelas minhas faculdades.

No livro de Hebreus, leio que é preciso que aquele que Dele se aproxima, tem de saber quem Ele é, muito mais do que simplesmente existir - a maioria, nem que seja por exclusão, tem um dia de que crer que Ele existe. Mas conhecê-Lo, isso sim, faz toda a diferença. Dai que a fé vem sempre pelo ouvir e o ouvir pela Sua Palavra.

De resto, o que há são crenças, superstições e achismos. E teologias de boteco (tasca em Portugal!).

Sem fé - essa fé - Deus não é Deus. É uma divindadezinha imbecil.

Sem fé, Deus é o inimigo, não Ele mesmo. Sem fé, Deus é religião.

Sem fé, Ele vai ser o Juíz. Implacável, com os nosso atos todos à mão, sem graça nem misericórdia. Sem saber o que é sofrer, o que é estar-se à mercê de uma carne fraca.

Sem fé, vai ser o amigo interesseiro, pronto a nos danar porque não demos, não ofertamos, sonegamos o dízimo, ou faltamos aos domingos santos. Aquele que abençoa ou ajuda, só se fizermos o que ele deseja. Que é fiel, quando muito, se formos-lhe fieis.

Sem fé, Ele nunca vai ser o pai. Vai ser só a criatura-monstro, que abandona os filhos que gerou à mercê de si mesmos, só porque não fizeram o "Curso de Batalha Espiritual - nível 8, avançado e profissional". Ou porque não investiram em investigar onde, na sua hereditariedade, no passado familiar, está o sapo enterrado que os amaldiçoa no presente. Que não aprenderam o seu nome em hebraico, ou fantasiam-se de judeus, mesmo que tenham nascidos orientais ou em algum lugar lá na Bahia. Elas se danam pelas Suas mãos perversas.

Sem fé, nunca vai ser o pastor - o que dá a Sua vida pelas ovelhas, mas o que as entrega ao lobo para tirar algum lucro, vendendo-as por algum benefício, comendo a sua gordura e vestindo-se da sua lã.

Sem fé, é impossível agradar a Deus pois Ele ama o que Dele se aproxima, sabendo que Ele é quem é, e com o coração desejoso por prová-Lo. E saber que Ele é bom.

Como disse o meu amigo Caio, "o galardão da fé é o próprio Deus".


(Hebreus 11:6) - Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele é quem é, e que é galardoador dos que o buscam.
 
 
Rubinho Pirola é colaborador da santa subversão do Genizah





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