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Quem sai da igreja por causa das pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus. Será?



Por Fernando Khoury


 Sobre jargões evangélicos

Tem circulado uma frase bastante rasa no face de vários evangélicos, dizendo que quem sai da igreja por causa das pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus.

Inicialmente, não ia nem aprofundar minha opinião sobre essa frase "super profunda", pra não correr o risco de ser tachado de seminarista rebelde! Isto porque reconheço que vivo num meio onde jargões evangélicos carregados de inverdades têm sido cada vez mais vociferados nos púlpitos das igrejas, sem um mínimo de reflexão. E - para piorar - são reproduzidos acrítica e inocentemente por aqueles que, de boa-fé, ouvem a mensagem. Mas como meu comentário gerou uma sadia repercussão, mudei de ideia. Na minha opinião e da forma como enxergo a mensagem de Cristo, essa frase é apenas mais uma forma de os que se dizem cristãos criticarem e julgarem rapidamente as pessoas que saem da igreja. Esse jargão evangélico é mais uma daquelas frases prontas que contribui mais para segregar e julgar do que para ajuntar e se solidarizar. Sim, considero essa frase bastante rasa - e por diversas razões.

Primeiro, como seres limitados que somos, simplesmente não temos a prerrogativa de dizer que se alguém sai da igreja por causa da atitude de determinada pessoa é porque esse alguém nunca entrou na igreja por causa de Cristo. Muitas pessoas que buscam a Cristo sinceramente, infelizmente, são violentadas física e emocionalmente por pessoas de dentro da própria igreja. Muita gente acaba ficando gravemente machucada e traumatizada para a vida toda. Muitas acabam saindo da igreja sim, por causa de pessoas que estão dentro dela. É um fato - muito triste, por sinal.

Contudo, esse fato não confere aos que estão do lado de dentro a prerrogativa mesquinha e por demais pequena de dizer que, se tais pessoas saíram da igreja, é porque não conheceram ou não conhecem a Cristo. É uma prerrogativa que só cabe a Deus, que sonda os corações. Até porque algumas pessoas fazem parte da igreja por causa de Cristo, e até gostam das pessoas. Outras fazem parte da igreja por causa das pessoas, e até gostam de Cristo. Algumas pessoas vão à igreja para cultuar e adorar a Cristo, e até admiram as pessoas – ou não. Outras vão à igreja para idolatrar e paparicar as pessoas, e até admiram a Cristo – ou não. Nós, simplesmente, nunca saberemos quem é quem. E é bom que seja assim. Mas não é só isso.

Segundo, decorrente do primeiro ponto, porque simplesmente tem muita gente que está assiduamente na igreja e dela nunca vai sair, mas que nunca vai ter estado lá genuinamente por causa de Cristo. De acordo com Jesus, no mundo, o joio convive com o trigo e com ele se confunde, mas não cabe a nós dizer quem é quem. E essa frase acaba incidindo nesse erro.

Terceiro - e talvez o mais grave -, porque esse jargão confunde a igreja-instituição com a Igreja de Cristo. Igreja-instituição é a construção de 4 paredes, feita por mãos de homens, presa no tempo e no espaço, sujeita aos caprichos dos homens. Igreja de Cristo é o ajuntamento de todos os filhos de Deus ao redor do mundo, imaterial, invisível, noiva santa e imaculada, eterna, idealizada e construída pelas mãos do próprio Deus, pela qual o próprio Cristo morreu. Já ouvi muito líder evangélico dizer que o compromisso de Jesus é com a igreja-instituição, quando, na verdade, o que Jesus ensina é que as portas do inferno não prevalecerão contra sua Santa Igreja. Contra várias igrejas-instituição, onde a Verdade é sucateada e deturpada, infelizmente as portas do inferno já prevaleceram...há muito tempo.
Tendo isso em mente, podemos dizer que tem muita gente que sai da igreja-instituição, seja pelo motivo que for, sem nunca ter saído da Igreja de Cristo. Tem muita gente que nunca sai da igreja-instituição, seja pelo motivo que for, mas que nunca fará parte da Igreja de Cristo. Estar na igreja-instituição não significa estar em Cristo - mas quem está em Cristo e pertence à sua Santa Igreja sabe que deve sempre buscar uma comunidade de fé (igreja-instituição) que seja bíblica e saudável para cultuar a Deus juntamente com seus irmãos. Porém, não podemos confundir os dois conceitos, e, neste ponto, esse jargão erra mais uma vez.

Quarto, porque os alertas de Jesus quanto à perdição se destinaram, quase sempre, àqueles que se julgavam salvos e cumpridores da lei - os fariseus. Ou seja, àqueles que frequentavam regularmente o Templo e as sinagogas, mas nem por isso faziam parte da Igreja de Cristo. Àqueles que se julgavam salvos, por se amoldarem a um conceito pré-estabelecido, mas que no fundo estavam perdidos. Por outro lado, Jesus vai dizer que as pessoas que, muito provavelmente, eram excluídas e não faziam parte desse sistema pré-moldado (os publicanos e as prostitutas) estavam entrando antes do que os fariseus no reino dos céus. Porque enquanto os que estavam do lado de fora, alijados do sistema, criam em Cristo e se arrependiam, os que estavam do lado de dentro se perdiam cada vez mais.
Ou seja, aplicando o alerta de Jesus à realidade dos dias de hoje, creio que nós - os que permanecemos dentro da igreja-instituição e dentro de um conceito pré-concebido- é que temos que sempre fazer uma auto-avaliação interna quanto à nossa real motivação e permanecermos sempre vigilantes para não nos perdermos no meio do caminho. Pois a mensagem de Cristo aos que se julgavam salvos era: "Cuidado! Quem está do lado de dentro pode estar fora, e quem está do lado de fora pode estar dentro".

Não quero dizer com isso que nós, os de dentro, estejamos perdidos, tampouco que os de fora estejam salvos. Quero dizer, simplesmente, que o alerta de Jesus foi para os que estavam do lado de dentro, ou seja, para nós. E esse tipo de frase - vinda e compartilhada de maneira irrefletida e aos quatro ventos pelos que estão do lado de dentro - não contribui em nada para que possamos demonstrar o amor de Cristo na prática, tanto pelos que saíram entristecidos da igreja-instituição, quanto pelos que continuam orgulhosamente dentro dela - seja por qual motivo for.

Enfim, que eu e você possamos refletir mais da próxima vez que formos disseminar ou compartilhar um jargão clichê gospel que adultera a Verdade, pois jargões desse tipo podem ter sido facilmente compostos pelo próprio diabo em cartas escritas aos seus aprendizes.



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