681818171876702
Loading...

A Pegada Ecológica de Jesus

Por Hernani Ramos

Quais são as dimensões ecológicas por detrás da vida e ensinamentos de Jesus? Gostaria de convidá-lo para uma reflexão nesta temática. Sim, por incrível que pareça a dimensão ecológica também se faz presente na Bíblia, desde o livro de Gênesis até Apocalipse, em centenas de passagens, inclusive no entorno do personagem central, o Messias, Jesus Cristo. Pode ser que a dimensão ecológica das escrituras sagradas soe como assunto novo para você, por vezes soa como algo estranho para muitas pessoas. Esta abordagem, contudo, sinto informar, não é assunto novo, existem diversas associações e comunidades cristãs que estão atentos para os aspectos ecológicos da Bíblia e da pessoa e vida de Jesus e que norteiam suas missões inclusive numa dimensão socioambiental.

Hoje existem algumas bíblias de estudo com a temática ecológica disponíveis no mercado, em inglês temos a “Green Bible” publicada pela Harper Bible em 2008; em português existe a Eco Bíblia lançada pela Sociedade Bíblica Brasileira em 2009; e em espanhol a Eco Biblia lançada pela Sociedade Bíblica Unida em 2011. Nestas bíblias citadas encontramos passagens relacionadas com a justiça socioambiental e o cuidado da criação destacadas em verde. A primeira que citei aqui possui anexo reflexões de alguns autores, entre eles um texto do Dave Bookless, fundador de A Rocha UK.

Creio que a dissociação que muitas vezes existe entre cristianismo e meio ambiente reside no fato de muitas pessoas simplesmente não estarem atentas para os aspectos ecológicos quando leem a Bíblia, não buscam este contexto nas reflexões que fazem. Graças a Deus que isso esta mudando e que este aspecto de interesse da sociedade está cada vez mais em pauta nas igrejas e denominações cristãs, mais abertas para a educação ambiental inclusive. Uma sugestão e cuidado que podemos adotar nos estudos que fazemos dos evangelhos seria interpretá-los do ponto de vista do amor de Deus para conosco e também para com a sua criação, o qual se faz representado na pessoa de Jesus Cristo, nosso alvo maior de reflexão neste texto.

Desde o seu berço Jesus se apresentou em condições de total simplicidade, repousou em uma manjedoura, num estaleiro de animais e seguiu com simplicidade até o final de sua vida. Desde jovem juntamente com sua família viveram numa trajetória nômade, de Belém para o Egito, do Egito para Nazaré, de Nazaré para Carfanaum, onde começou a pregar e não parou mais de viajar. Quem já se mudou muitas vezes de país, estado ou cidade sabe, que mudanças constantes demandam uma postura de simplicidade em relação à vida, fica difícil acumular e carregar coisas. Conforme relatam os evangelhos, Jesus seguiu assim o tempo todo, ensinando e caminhando de forma leve e simples pela terra, sem ostentação de posses e preocupações. Em sua triunfal chegada à Jerusalém, Jesus vem montado num jumento, com toda a tranquilidade e simplicidade que sempre lhe fora tão natural por toda a sua vida.

Jesus não apenas viveu com essa simplicidade toda como também pregou e ensinou sempre sobre isso. Jesus não acumulou riquezas, não lutou por terras, não construiu edificações. Pelo contrario, o que ele fez foi nos advertir contra o acumulo de tesouros na Terra, a não tratarmos de modo descortês quem não possui riqueza ou poder, ensinou sobre a importância de não sermos indiferentes às injustiças e a tomar cuidado com a ganância no coração. Ele ensinava à beira dos rios, praias, montes, campos e desertos num profundo contato com a criação.

Ao ser confrontado pelos estudiosos da época, Jesus resume todas as leis em dois simples mandamentos, que amemos a Deus sobre todas as coisas e que amemos também ao nosso próximo. Há quem inclui como próximo à criação não-humana também carente de amor e cuidado. Jesus ensinou que o cuidado de atender ao próximo deve ser conforme a necessidade deles, da importância de servirmos uns aos outros conforme suas dificuldades. Ensinou sobre o perdão, sobre a reconciliação, sobre o Reino de Deus que o tempo todo alegou estar próximo. Jesus nos adverte a tomar cuidado com o tipo de vida estressada, típica de quem se preocupa com o futuro, com suas posses, vestimentas e sustento. Ensinou-nos a importância de vivermos um dia de cada vez e de separar tempo para os necessitados, para as crianças, para as viúvas e enfermos. Para Jesus tempo não é dinheiro, no exemplo da viúva pobre e de suas pequenas moedas ofertadas no templo, ele relativizou até mesmo o valor do próprio dinheiro.

Jesus ensina sobre a importância da vida em comunidade, da união entre as pessoas, da concordância, do respeito, da paz. Jesus chama Deus de Nosso Pai, chama os amigos e discípulos de irmãos, os consideram integrantes de sua família. Jesus nos ensina a repartir o pão e o vinho, a repartir nossa atenção, tempo, recursos. Jesus nos ensina que se temos duas peças de roupa então que deveríamos repartir com quem não tivesse nenhuma. Em seus ensinamentos Jesus se utilizou da criação para ilustrar suas parábolas e sabedoria, por exemplo, “olhai os pássaros” e “olhai os lírios”. Jesus falou sobre frutos, campos, sementes, se ilustrou como a videira verdadeira.

Em Lucas 4:18-19, quando a profecia do Messias foi lida pelo próprio Messias, anunciou-se ali o tempo de dar “as boas novas aos pobres”, “libertar os cativos e oprimidos”, “dar visão aos cegos” e “proclamar o ano aceitável do Senhor”, que nada mais é do que o ano do Jubileu de Levítico 25, o ano de reconhecimento de que todas as terras pertencem de fato a Deus, que nenhuma pessoas ou instituição possui o direito de destruí-la e de usufrui-la indefinidamente ainda mais de forma injusta.

A oração do Pai Nosso é um tratado de compromisso sócio ambiental de profundo teor e transformador pessoal. Pense, medite, lembra-se do convite que fiz refletir nesta temática? Que tal pensar nas implicações socioambientais do “venha a nós o Vosso Reino” ou “seja feita a Vossa vontade” ou “dai-nos o pão nosso de cada dia” ou “perdoa-nos nossos pecados” ou “livrai-nos do mal e da tentação”? Se estiver difícil de perceber tais implicações, tente substituir “o Vosso Reino” por “o Reino do Criador de toda esta biodiversidade que há”, ou “a Vossa vontade” por “a vontade do Criador dos Cosmos”, ou “o pão nosso” por “a nossa sustentabilidade de cada dia”, ou “nossos pecados” por “nossas contaminações”. Que tal você mesmo tentar parafrasear o “livra-nos do mal e da tentação” por que algo também relacionado a este tema?

Em qualquer parte e contexto da vida de Jesus vejo implicações sociais e ambientais profundas, mesmo em passagens simples e menosprezadas como o evento que se deu após a sua ressurreição, quando Jesus foi confundido com um jardineiro por Maria Madalena (João 20:14). Questiono-me, será que Jesus andou remexendo na terra ou tocando nas plantas? Por que Jesus estava entretido no Jardim? Por que não teve pressa em ter-se com seus discípulos? Aquele parece ter sido um momento realmente importante para ele. Após concluir com a sua obra redentora, quem sabe, ficou ali refletindo sobre a magnitude de sua redenção que se estende para além da humanidade e que inclui também a sua criação? Quem sabe mais outro exemplo a ser seguido por nós? Que relação teria este singelo evento da vida de Jesus com o ensinamento de Paulo, onde diz que é com esperança e ansiedade que a criação aguarda a revelação dos filhos de Deus? A revelação dos filhos de Deus poderia ser observada pela forma como protegemos a biodiversidade?

Sem duvida que a dimensão ecológica da vida de Jesus é tremenda e profunda, e não é por que não haja palavras modernas como, por exemplo, ecologia, meio ambiente e sustentabilidade presentes nos textos bíblicos que não haja princípios de justiça social e ambiental nas escrituras, existem sim, são evidentes e são muitos. Se não te convenci de que há uma dimensão ambiental na vida e ensinamentos de Jesus, então te convido a calcular o tamanho da Pegada Ecológica* deste nazareno e se por ventura, quiser aprofundar o seu estudo… Que tal comparar as pegadas dele com as suas?

* Pegada Ecológica calcula a pressão do ser humano sobre o planeta, medindo a rapidez com que consumimos recursos naturais e produzimos resíduos. Os cálculos podem ser feitos de forma individual, coletiva ou institucional e existem muitos sites especializados nisso. O fato é que quanto maior for a pegada ecológica do homem maior será o impacto sobre a biodiversidade criada por Deus. Jesus foi e é um modelo de pegada ecológica baixíssima.


Hernani Ramos é Médico Veterinário formado pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Reprodução Animal pela UNESP de Jaboticabal e pesquisador em projetos relacionados com cervídeos. Ele foi um dos fundadores da A Rocha Brasil.


Publicado originalmente em Ultimato


política 7503243833547482593

Postar um comentário

Página inicial item

Siga por e-mail