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Koinonia, Kerígma, Diaconia e Mordomia: As Marcas dos Primeiros Cristãos


“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade” (Atos 4.32-35)

A Igreja Primitiva nada tinha de perfeita. Os episódios envolvendo Ananias e Safira (Atos 5) e a crise relacional entre hebreus e helenistas (Atos 6), comprovam isso. Contudo, havia naqueles irmãos algumas marcas que servem de apontamentos que precisam ser reconhecidos e cultivados por toda comunidade cristã que almeje honrar a Deus em seu dia a dia.

Em Primeiro lugar, Koinonia: os irmãos da Igreja Primitiva desfrutavam de comunhão. Lucas é categórico quando registra que “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma” (vs 32). Antes, então, de compartilharem os bens materiais com os necessitados da ocasião, dividiam primeiro corações, mentes, emoções, sonhos, alegrias, tristezas e decepções, pois é impossível dividir patrimônio sem primeiro compartilhar a vida e o afeto. Aquele deriva deste. Na comunhão dos primeiros irmãos ficavam expostos o amor uns pelos outros e a unidade tão ensinada pelo Senhor Jesus Cristo (João 17.1-26).

Em segundo lugar, Kerígma: A Igreja Primitiva era uma Comunidade da Proclamação / Pregação. Não era qualquer pregação, mas sim a Pascoal, pois “davam testemunho da ressurreição” (vs 33), isto é, o assunto dos crentes de Jerusalém era Jesus Cristo e sua “paixão” (crucificação, morte e ressurreição), como, aliás, deve ser o tema de toda a comunidade de fé cristã. Os cristãos primitivos não anunciavam nada que não fosse Jesus Cristo. Não se perdia oportunidades tratando de assuntos periféricos ou de natureza secundária. A Igreja tinha uma percepção da urgente necessidade de arrependimento e salvação e, por isso, proclama, sendo, assim, uma comunidade kerigmática.
Além de Pascoal a proclamação era pentecostal, pois o testemunho dos apóstolos era “com grande poder” (vs 33). O Espirito Santo derramado em Jerusalém (Atos 2. 1-4) ungiu os primeiros pregadores de forma que as multidões foram convencidas de que Jesus era, de fato, o Cristo (Atos 2.41, 4.4, 6.7). Sem pregação pascoal não há derramamento de poder. Logo, não haverá convencimento do Espírito Santo e, consequentemente, não haverá conversões.

Em Terceiro lugar, Diaconia: A Igreja Primitiva era rica em boas obras. Diaconia significa serviço e os primeiros cristãos cuidavam uns dos outros. Serviam uns aos outros. A Koinonia, portanto, mencionada no início, não era apenas conceitual e verbal, mas sim prática. Tão prática que “...nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras e casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes aos pés dos apóstolos; então se distribuía...” (vs 34-35). A solidariedade era ampla, pois “nenhum necessitado havia”. Até as últimas consequências, pois terras e casas eram vendidas. E, também, sem acepção de pessoas, pois se distribuía “a qualquer um” (vs 5).

Em quarto e último lugar, Mordomia. Mordomia é o mesmo que administração, despensa, economia. Os primeiros cristãos eram generosos, mas não eram tolos. Sabiam exatamente, com sabedoria e senso administrativo, trabalhar com os recursos angariados com a venda das propriedades, distribuindo o resultado “à medida de que alguém tinha necessidade” (vs 35). Vagabundos e preguiçosos não eram sustentados pela comunidade. Afinal, Deus ordenou a todos o trabalho como forma de garantir o próprio pão e a sobrevivência (Gn 2.15; Ex 20. 9). Além disso, o apóstolo Paulo condenou a presença de preguiçosos que queriam se aproveitar da generosidade dos irmãos em Tessalônica (2 Ts 3.6-11). Cada centavo levantado atendia ao pobre, ao necessitado, ao órfão e as viúvas (Atos 6.1; Tg 1.27, 2.14-15). Portanto, diaconia (servir) e mordomia (administração), caminhavam juntas na Igreja Primitiva. O primeiro tem a ver com o dom e disposição em se entregar para a causa do Reino, enquanto que o segundo lida com a forma com acontecerá tal entrega e o serviço.

A Igreja não pode ser apenas um ambiente de comunhão. Clubes e afins o são. Precisa, destarte, haver pregação e ensino. Contudo, não pode ser apenas uma comunidade que anuncia, mas que não vive. Por isso tem que ser também diaconal, praticando o amor que tanto testemunha. E, finalmente, ao tentar praticar o amor e o cuidado, precisa fazê-lo, de forma que os verdadeiros carentes sejam atendidos e os aproveitadores identificados e exortados. Isso chama-se justiça!

Koinonia, Kerígma, Diaconia e Mordomia. Bela combinação a ser resgatada nas igrejas evangélicas brasileiras.

Idauro Campos. Pastor Congregacional. Mestre em Ciências da Religião. Autor do livro “Desigrejados – teoria, história e contradições do niilismo eclesiástico”. É Colunista do Genizah


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