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A igreja dos nóias


GAZETA
Texto:Vilmara Fernandes 
Fotos e vídeos: Carlos Alberto Silva




Na “Igreja dos Noia”, o longo caminho para a recuperação

Eles são jovens. Chegam de bermudas e chinelos e se misturam a outros fiéis, mais velhos. A medida que o tempo passa eles levantam suas cabeças e repetem as palavras ditas pelo pastor: “Eu posso, eu quero”. Na “Igreja dos Noia” o culto é focado na superação: “Você pode fracassar, mas não pode desistir”. É é assim que usuários de drogas, principalmente de crack, estão sendo convidados a superar o vício em Pinheiros, Norte do Estado (ES).



A cidade está entre as 17 no Estado que apresentam alto nível de problemas decorrentes do consumo de crack, segundo mapeamento realizado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Outros 32 municípios estão em risco médio. Uma realidade que A GAZETA vem mostrando em uma série de reportagens publicadas desde domingo.

Autoestima

O culto em Pinheiros acontece duas vezes por semana na hoje chamada Igreja Batista Renascer. Mas ela começou como a “Igreja dos Noia”. “Nossa pregação está voltada também para fortalecer a capacidade do ser humano e sua autoestima. Você é responsável pela sua mudança, nós somos auxiliares”, explica o pastor Fábio de Sá.



A igreja foi fundada numa região que estava tomada por usuários de crack: “Antes tinham bairros onde não podíamos entrar. E ninguém queria contato com eles”. Para conquistar a confiança dos “noia”, Fábio de Sá ia para a rua, de bermuda, chinelo ou descalço: “Abordo na linguagem deles, pergunto se estão usando drogas, e eles falam. É um trabalho de relacionamento.”



Em algumas situações recorreu aos traficantes para garantir a vida de usuários ameaçados de morte: “Em todos os casos fomos atendidos. Enquanto estão na igreja não são tocados, mas se saírem e aprontarem…”

Para o pastor, o caminho da recuperação passa pelo tratamento não só das questões da alma, mas também do emocional, do que motivou o vício. “Todo mundo que usa qualquer tipo de droga teve uma causa”, pontua. “Eu bebia para encarar a sociedade”, diz sobre seu vício, que deu a ele experiência para lidar com outros usuários.

FÁBIO SÁ, PASTOR

É preciso tratar as questões da alma, mas também as emocionais, o que levou as pessoas às drogas, o que motivou o vício. Todo mundo que usa qualquer tipo de droga teve uma causa.

Criticada no início, a igreja já conta com mais de 400 membros. “Hoje ela é do noiado e não noiado, do traficante, do homo e do heterossexual, do rico e do pobre”, diz.

Duzentos deles se reuniram numa noite de quarta-feira, em novembro. Terminaram o culto abraçados e chorando. “Vou conseguir”, disse um dos jovens para a nossa equipe, sem querer se identificar. Ao lado dele outro jovem, de 26 anos, que há onze é usuário. Ele reside na zona rural, com os pais. O uso intenso de crack, nos últimos anos, o levou a ser ameaçado por traficantes.

Sua família, que já pensou em expulsá-lo de casa, deposita suas últimas esperanças na igreja. “Ainda tô na fissura, mas é um dia de cada vez”, diz, lembrando que os amigos que fizeram uso de drogas com ele, na primeira vez, já estão mortos. “O último com mais de 30 tiros”. O próximo passo do pastor será reativar um centro de recuperação na cidade vizinha, Boa Esperança.

Dono de uma alegria contagiante, Tony Motta, 38 anos, não poupa detalhes da vida que levou. Só no crack foram quase sete anos. Vendeu tudo o que tinha, até os objetos pessoais, para manter o vício. Quando tudo acabou, passou a roubar, a mendigar. Mas descobriu que era possível vencer as drogas e hoje está longe delas, há cinco anos.

Início

Comecei a usar com 16 anos, numa festinha de amigos. Aos 28, quando já tinha doze anos de maconha e cocaína, resolvi parar e fui para uma igreja. Fiquei uns seis meses e tive uma recaída. Por essa época que comecei a usar crack. Foi aí perdi tudo: uma namorada linda, um Escort, meu bar. Vendi tudo o que tinha e, quando o dinheiro acabou, usei mais crack e vendi os objetos pessoais: sapato, roupa, bicicleta, aparelho de som. Quando acabou, comecei a roubar. Até chegar um período em que não tinha mais nada, só a vontade de usar crack.

Descrença

Esta vida durou de seis a sete anos, até um dia em que troquei um celular por R$ 5 reais e o traficante o jogou fora. Ali vi que a minha situação era precária. Estava com 32 anos. Foi quando conheci o pastor Fábio de Sá, que me ajudou para caramba e me levou a um encontro. Eu não acreditava em mais nada de igreja, mas já estava com a vontade de parar e quando voltei para casa fiz um acordo comigo de não mais usar drogas.

A droga é uma doença que não tem cura, mas tem como parar. É só querer

Virada

Voltei também para o Narcóticos Anônimos. Ia de carro até Colatina. Todo sábado viajava 340 quilômetros para assistir a uma reunião de uma hora. Lá conheci várias pessoas que tinham parado de usar e foi onde firmei. Faz cinco anos que não uso drogas, que não engano e não roubo ninguém. Hoje sou um churrasqueiro. Tenho o meu espaço, trabalho com meu próprio negócio – vendo espetinho à tarde –, tenho minha casa, minha moto, minha família. Hoje consigo viver aquilo que teve um ponto final aos 16 anos, quando cheirei a primeira carreira de cocaína.

Doença

Muitos falam que o uso de drogas é falta de vergonha na cara, mas não é uma questão moral. É uma doença que não tem cura, mas tem como parar. O problema é que muitos não estão preparados para lidar com esta situação. A droga é algo que alimenta seu físico, mas mexe com o psicológico, com o espiritual. É um desejo enorme que se tem de continuar usando, mesmo estando há muito tempo sem usar. Hoje eu tenho consciência sobre as consequências do uso de droga e que elas podem me levar ao fundo do poço de novo.

Valor

Hoje posso dormir tranquilo, acordar tranquilo, ver o valor que tenho. Fiquei uma semana sem trabalhar e quando voltei as pessoas sentiram falta. Antigamente não fazia falta não (risos). Também aprendi que não posso ficar aqui parado. Tenho muitos amigos que morreram pelo uso de drogas e a gente tem que resgatar quem ainda quer parar. Sei que é possível parar de usar, perder o desejo de usar e ter uma nova maneira de viver. É o que focalizo hoje.

Tratamento

A gente entende que só há cura real para quem quer. Uma mãe pode ter um filho usuário, fazer de tudo para parar, mas se ele não quiser, não adianta. E não adianta internar e tratar os sintomas. Tem que ir às raízes do problema, o que levou às drogas, trabalhar o espiritual, rever os valores. Todo mundo pode e tem força para conseguir. É só querer.

O recado: “Não entra neste mundo”

Aos 46 anos, ele caminha pelas ruas de Guaçuí, Sul do Estado, conversando com usuários de drogas. “Muitos pedem ajuda para sair do vício”, relata o empresário que pediu para não ser identificado. Quando necessário ele viabiliza até a internação. Alguns dos que foram resgatados hoje trabalham em sua empresa. “São ótimos funcionários”, con

O trabalho de resgate é pautado em sua experiência de vida: “Aqui, no bairro São Miguel (território das drogas), foi onde nasci, fui criado, e também onde fumei, bebi, cheirei e fui preso. Comecei com onze anos e não estudei”. Ele não chegou a usar crack porque, quando parou, há 27 anos, a droga não tinha chegado ao Estado: “Mas usei cocaína, bebi chá de cogumelo e de tudo que pudesse deixar doido”.

No tráfico garante ter feito tudo o que era possível para manter seu vício: “Fiz tudo o que um cara que usa droga faz, roubando e bebendo até os 19 anos”.

Na época foi internado em uma clínica psiquiátrica, onde foi orientado por um médico a procurar os Alcoólicos Anônimos (AA) quando saísse. “Procurei e faz 27 anos que estou fora do mundo das drogas. Hoje deixo de almoçar mas não deixo de ir a uma reunião do AA, porque sei que sou um doente”, relata, acrescentando que foi difícil enfrentar o preconceito de que não acredita na recuperação de usuários de drogas.

Quando conversa com jovens faz sempre um alerta: “Não entra neste mundo. Você pode não ter tempo de sair”.

Crack - Depoimentos from aslopes@redegazeta.com.br on Vimeo.






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