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Os Desafios de uma Reforma Protestante no Brasil




A igreja evangélica brasileira precisa passar por uma Reforma? Esta pergunta é insistentemente formulada sempre que nos aproximamos do dia 31 outubro, ocasião em que nos lembramos da Reforma Protestante. Podemos entender que há um consenso quanto a tal necessidade, no entanto a questão não é tão simples. Existem dificuldades que precisam ser seriamente consideradas, novas batalhas que precisam ser reconhecidas a fim de se empreender um movimento reformista no evangelicalismo nacional.

Em primeiro lugar, temos que entender que um movimento de Reforma no Brasil seria extremamente complexo em virtude do nosso evangelicalismo ser plural e multifacetado. Não temos apenas um segmento evangélico no país. São tantas igrejas de origens, confissões, práticas e governos tão distintos que colocá-los em tomo de uma mesma bandeira ideológica seria quase impossível. Na época de Martinho Lutero (século XVI), o mundo ocidental conhecia apenas uma estrutura cristã organizada (Igreja Católica) e se pensava em termos de "certo" ou "errado", de "isto" ou "aquilo". Hoje, uma das marcas de nossa contemporaneidade é o pluralismo (inclusive o religioso), todos alegam conhecer a verdade e ter parte com ela. Portanto, romper com essa barreira seria extremamente difícil.

Outra questão que precisa ser analisada, pois, certamente pode constituir numa dificuldade aos intentos de uma Reforma, é a realidade do tipo de mídia evangélica presente no Brasil. Sabemos que a mídia é um fenômeno moderno, especialmente a mídia evangélica, e também sabemos o poder de penetração que a mesma possui e a influência que exerce, principalmente entre as massas. Portanto, qualquer tentativa de promover uma Reforma eclesiástica deverá levar em conta a utilização da mídia. No entanto, temos um problema: a mídia evangélica brasileira tem interesse em uma Reforma? Esta mesma mídia, que tem sua parcela de responsabilidade na superficialidade da fé evangélica moderna (o que a faz lucrar absurdamente), desejaria uma Reforma? Os livros mais vendidos nas editoras cristãs são os de "autoajuda" e os que tratam de revelações do mundo demoníaco; os CDs mais divulgados pelas gravadoras e, consequentemente, vendidos nas lojas são justamente aqueles cujas músicas possuem letras paupérrimas que nada ensinam e onde o arranjo, a melodia, a sonoridade da canção e a forma da ministração são, na prática, mais importantes que o conteúdo das letras. Os programas evangelísticos exibidos na TV e transmitidos nas rádios não abordam questões fundamentais para uma vida cristã saudável, como justificação pela graça mediante a fé, santidade de vida, perseverança dos santos, temor de Deus. Tais programas estão mais para fábrica de ilusão do que para cristianismo sério, sem contar que boa parte destas programações está mais a serviço do reino dos homens, com suas ambições políticas, do que ao Reino de Deus. Os pregadores valorizados por essa mídia são aqueles que prometem um Evangelho fácil, agradável e sem cruz e que, não raro, estão vinculados à mesma no esquema nada cristão de amealhar votos nas igrejas em prol dos seus candidatos. Portanto, concordo em número, gênero e grau com a pergunta feita por um pastor, na ocasião de um debate realizado no Rio de Janeiro, sobre a Reforma Protestante, "se já não está na hora de pensarmos em uma mídia evangélica reformada?" (pergunta que, embora pertinente, não foi apresentada aos debatedores, talvez pelo fato do evento ter sido patrocinado por uma mídia evangélica conhecida nacionalmente e que nada tem feito para a realidade de uma igreja saudável e fiel aos princípios da Reforma).

Finalmente, outra questão que podemos destacar como dificuldade para uma Reforma no Brasil é a tendência eclesiológica contemporânea. Com o advento do conceito de que igrejas verticalizadas em sua forma de governo são mais propensas ao crescimento numérico, muitas comunidades estão sendo criadas em torno da figura de um "bispo" ou "apóstolo", onde este detém a "visão de Deus" para o povo, destruindo assim um dos pilares da Reforma Protestante que é a doutrina do sacerdócio universal dos crentes (1 Co 12. 7-31; Ef 4. 7 -16; 1 Pe 2.9). São raríssimos os casos de novas comunidades de fé onde haja uma forma de governo coletivo, seja presbiteriano ou congregacional. Geralmente as "novas igrejas" são construídas em terrenos cuja propriedade não pertence ao povo que ali congrega, mas sim ao líder, sendo isto, inclusive, um fator de sucessão de poder. Este modo de ser igreja constitui-se um entrave aos intentos de uma Reforma no Brasil, pois centraliza o poder nas mãos de um "iluminado", que não possui interesse na liberdade de consciência do seu rebanho, não estando sujeito assim a nenhuma forma de prestação de contas. Na Reforma Protestante enfatizou-se o postulado "Sola Scriptura", onde se ensinava que toda doutrina, todo ensino cristão deveria ser aceito como verdade somente se fosse extraído das Escrituras Sagradas (2 Tm 3. 16, 17). A Escritura era, portanto, o norte para a consciência do cristão, a autoridade máxima sobre a Igreja. Tentar manipular o povo de Deus, escravizando sua consciência, se utilizando da igreja como um trampolim para a realização de projetos pessoais, impedindo convenientemente de que os cristãos atinjam a maturidade na fé, alijando seus dons, contrapondo sua vocação profética, explorando sua boa fé com objetivos comerciais, reduzindo-os a massa de manobra, é cometer um retrocesso histórico, ferindo tudo àquilo pelo que gerações de homens e mulheres de Deus creram, se entregaram, lutaram e morreram.


Apesar destas dificuldades alistadas aqui (e é claro que não são as únicas!), não podemos nos abater. Os Reformadores enfrentaram oposições muito mais renhidas, muito mais ameaçadoras e perigosas. Não podemos nos esquecer do lema "Igreja Reformada, Sempre Reformando", que moveu o coração de homens e mulheres a lutarem por uma igreja que realmente fosse uma expressão do corpo de Cristo, que realmente exalasse o Seu bom perfume, que glorificasse o Seu nome e que fosse digna da Presença de Seu Senhor. Que Deus nos ajude. Amém!!!

Soli Deo Gloria!!!


Idauro Campos é Pastor Congregacional. Mestre em Ciências da Religião e Colunista do Genizah

Teologia 2629629307912217304

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