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Viagem de trem


Ana Cristina

Sempre quando vou pra capital, vou de trem...

Não é uma viagem muito agradável: o trem está sempre sujo, segue muito devagar e me deixa, algumas vezes, com mal-estar de tanto que chacoalha...

O trem não leva só pessoas. O trem leva histórias...

Nesses dias, enquanto viajava fiquei observando os rostos que comigo partilhavam o mesmo ambiente. Trabalhadores, estudantes, crianças... olhares vazios, alguns em pleno flerte, outros ouvindo uma música, outros lendo e eu observando.

Um pouco distante de onde estava chamou-me a atenção um rapaz que atendia o celular e no tom apreensivo começou à reclamar:

-" Tia! Por que vocês não me avisaram quando aconteceu... Vocês não podiam ter feito isso comigo..."

E este rapaz começou à chorar. Acabara de receber a notícia da morte de sua mãe.

Fiquei angustiada ao ver a situação daquele moço. Ele tentava segurar o choro mas este era mais forte que ele. Olhava pra janela buscando o céu mas os seus olhos se perderam com o transbordar das lágrimas que já não cabiam dentro de si.

Fiquei angustiada ao ver que ao lado deste que tanto sofria haviam pessoas que com tamanha diferença, continuavam rindo e conversando como se o que se passava bem ao seu lado não tivesse importância ou algum peso.

Nessas horas, lembro dos ensinamentos dos meus pais...

Quando alguém perdia um ente-querido não tocávamos música em casa, não demonstravámos nenhuma alegria na hora da dor de quem nos cercava... A dor do outro era a nossa!

Mas, ali naquele trem ninguém parecia se importar. Me deu vontade de chorar, mal conseguia olhar pro rapaz que cobria a cabeça com o capuz como se isso pudesse torná-lo invisível ali.

Queria ter ido até ele e dito: "Moço, meus sentimentos..." - mas sei que nessas horas palavras não surtem efeito.

Não. Não fui indiferente. Embora me sentisse totalmente incapacitada de fazer alguma coisa um pedaço daquela dor me atingiu.

Quem nunca sofreu uma perda?...

Durante toda a viagem fiquei me questionando sobre a minha postura diante de tal situação. Deveria chamar a atenção dos que estavam ao lado do rapaz pra pedir que o respeitassem? Deveria me aproximar e dizer: "Moço, Deus consolará seu coração?"
Deveria evitar observá-lo e fingir que nada acontecia?

Mas não me contive e fiz. Fiz uma prece silenciosa pedindo à Deus que é o nosso Consolador Fiel que abraçasse aquele moço e alentasse a dor que lhe abatera no peito.

Talvez, não tenha feito nada de importante à vista de quem ali estava mas sei que Deus viu e sentiu o que eu sentia ali.

Deus nos abençoe!


Ou Simplesmente Tininha, que escreve Em Um passo de cade vez e Genizah foi buscar.




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