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O pensador cosmético

Jonas Madureira

A subversão toma conta dos ossos, da carne, da pele, do cérebro e da língua dos pensadores que têm a inclinação para perturbar, desconstruir e transformar a ordem estabelecida. Um pensador insatisfeito com a ordem é sempre um pensador subversivo em potencial. Pois tudo o que um pensador subversivo é e faz está plenamente tomado da insatisfação com relação à suposta crença na ordem do “estado de coisas”. E é essa insatisfação que o faz ceder a irresistível tentação de mostrar o caos de todas as estruturas de pensamento, inclusive, daquelas que se dizem livres. Assim, o pensador subversivo é sempre o exato oposto do tipo “livre pensador”.

O livre pensador não é subversivo, como ele pensa que é. Na verdade, ele é um pensador cosmético. Antes que você diga: “Afinal, que absurdo é esse?”, lembre-se de que uma das acepções da palavra cosmos, em grego, é “ordem”. Para os gregos, cosmos é tudo o que ornamenta, embeleza, organiza, oculta ou esconde o caos. Daí “cosmético” ser o adjetivo mais apropriado para designar os produtos de beleza que prometem esconder o caos de rostos e de peles femininas ou masculinas. Nesse sentido, um livre pensador é um maquiador da realidade. Em contrapartida, tal como o pensador subversivo, ele também vê e sabe que o caos está aí, pois ninguém está completamente livre do caos, não é mesmo? Porém, como carece de caráter e sinceridade, o livre pensador acha melhor negar e ocultar a realidade. Que realidade? A realidade de que ele mesmo sabe que não é tão livre assim para pensar. Para livres pensadores, o condicionamento do pensamento é sempre visto como algo aprisionador e destrutivo. Por isso, o argumento que o livre pensador usa é aquele mesmo argumento que os ateus sempre recorrem quando querem opor o pensamento à religião: "dogmas aprisionam o pensamento". Não é à toa que os livres pensadores se dizem livres justamente porque não se veem presos a dogmas, certo?

Porém, não tenha dúvida, o livre pensador não é sincero nem com ele nem com seu povo. A propósito, dizem que a palavra “sincero” significa etimologicamente “sem cera”. Os que acreditam nessa etimologia argumentam que, na antiga Roma, os restauradores de esculturas inventaram uma cera que ajudava na preservação da boa aparência das esculturas desgastadas com o tempo. Um dos desgastes mais frequentes eram as rachaduras, e para escondê-las o restaurador usava uma cera que era capaz de cobrir as fissuras da escultura. Contudo, quando o sol batia era plenamente possível enxergar através das ceras as rachaduras que se tentava inutilmente ocultar. Portanto, sinceridade é a atitude de não mais tentarmos esconder o que não mais conseguimos esconder. É assim que essa etimologia explica o motivo pelo qual usamos o adjetivo “sincero” apenas para qualificar aquilo que de fato é.

Por que acuso os livres pensadores de falta de sinceridade? Simplesmente porque não existem pensamentos livres. O que de fato existe é um fluxo ininterrupto de pensamentos dos quais não temos o menor controle. Tudo o que pensamos é sempre resultado de uma série de adesões a pressupostos que somos obrigados a assumir como axiomáticos se queremos ser no mínimo verdadeiros para nós mesmos. Um livre pensador cerra o galho em que está sentado justamente porque acredita naquela historinha iluminista de que é possível analisar o mundo sem participar dele, ou seja, de que é possível e necessário o distanciamento existencial do objeto de análise. Pessoal, sempre que falamos do nosso mundo falamos de dentro dele, nunca de fora. Por isso, a pergunta certa é “Sabemos em que mundo vivemos?”. Tem uns caras que gostam de bancar de subversivos, mas não passam de pura cosmética. Eles se acham livres e subversivos só porque não acreditam em dogmas. Pobres pensadores, pois não enxergam seus próprios dogmas. Quem disse que não é dogmático o “Diga não aos dogmas!”?

O pior de tudo é que o livre pensador se acha subversivo, livre, libertador, mas na verdade ainda não se deu conta do quanto é escravo de seus pressupostos. Que contradição! Para sua infelicidade ou vexame, ele ainda não percebeu que suas opções intelectuais são como meninos carolas, fiéis em demasia aos seus vigários pressupostos. Agora, qual é o motivo da maquiagem? Por que livres pensadores escondem que têm seus dogmas? Por que têm tanto medo de colocar as cartas na mesa? Qual a razão da ocultação de suas doutrinas tão cristalizadas e tão vistas como inerrantes? Por que afirmar que são tão livres quando, na verdade, estão tão presos às estruturas dogmáticas do pensamento?

É por essas e tantas outras razões que acredito que assumir os pressupostos é uma virtude, escondê-los é malandragem.


Jonas Madureira é bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro em São Paulo; bacharel, mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Professor Titular de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea e Filosofia do Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro e do Seminário Teológico Bethesda.



Divulgação Genizah




 

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