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Por que estou aqui?



Em nossa reflexão temos procurado entender a visão predominante sobre os valores da vida em nossa cultura pós-moderna. Quando olhamos à nossa volta, diante de tantas contradições, injustiças, inversão de valores, e constante mudança no que diz respeito a moral e a ética, nos perguntamos: Que sociedade é esta? Gilles Lipovetsky diz que “trata-se de um tipo de sociedade que substitui a coerção pela sedução, o dever pelo hedonismo, a poupança pela despesa, a solenidade pelo humor, o recalcamento pela libertação, as promessas do futuro pelo presente”.[1]

Neste sentido, é lamentável, mas a cultura pós-moderna já encontrou seu espaço dentro da igreja. Fomos encantados pelas seduções do mundo. O cristão de hoje é tão materialista como qualquer outra pessoa na sociedade. Veja a leitura que Gilles Lipovetsky faz da igreja: “Ao contrário do que se verificava no passado, a igreja já não privilegia as noções de pecado mortal, já não exalta o sacrifício e a renúncia”.[2]

Os púlpitos estão a ceder e a seguir o fluxo da sociedade na busca pelo que é temporal, confortável, lucrativo e que produza uma felicidade imediata. Gilles diz ainda: “De uma religião centrada na salvação no Além, o cristianismo passou a ser uma religião ao serviço da felicidade terrena […]”.[3] Sendo assim, se o objetivo é satisfazer o fiel, criamos atividades e até igrejas para todo tipo de gosto. Hoje há igreja que só fala em dinheiro e saúde física, há outras que são para quem usa brincos, argolas e cabelos compridos, há outras que são para homossexuais e simpatizantes, há igrejas só para ricos, há outras que são nudistas, há outras que são para colecionadores de carro, há outras que são para quem anda de motos, e por ai vai.

Igreja só já não serve, tem que ser igreja de alguma coisa para atrair o público. Há muita gente entendo mal o que Paulo quis dizer em 1 Co 9:19-23, onde diz que se tornou escravo para ganhar os escravos, judeu para ganhar judeus, gentio para ganhar gentios e fraco para ganhar os fracos. Este texto precisa ser melhor analisado, pois está a ser aplicado de forma errada. O que Paulo quer nos ensinar neste texto é que apesar de que considerava a lei cerimonial como jugo eliminado por Cristo, se submetia a ela de todos modos para trabalhar entre os judeus, eliminar seus prejuízos, lograr que eles ouvissem o evangelho e ganhá-los para Cristo. Contudo não transgredia as leis de Cristo para agradar ao homem.

Na verdade neste texto Paulo quer nos ensinar que devemos estar dispostos a sofrer o que for preciso para ganhar quem quer que seja com o evangelho de Cristo. No verso 27 do mesmo texto Paulo diz que esmurrava o seu corpo pela causa do evangelho. No entanto, hoje esta variedade de tipos de igrejas comportamentais, não digo nem teológica, pouco tem ajudado, muitas tem é servido de palco de escândalos. Gilles Lipovetsky diz ainda: “A espiritualidade tornou-se mercado de massas, produto a comercializar, setor a gerir e promover”.[4] “Hoje, até a espiritualidade funciona em livre-serviço, na expressão das emoções e dos sentimentos, na procura resultante da preocupação com o melhor-estar pessoal […]”.[5] Portanto, o importante não é que eu sofra para pregar o evangelho aos escravos, judeus, gentios e fracos, mas que estes possam sentir-se bem nesse negócio que eu chamo de igreja. Só iremos acertar o alvo, se entendermos “por que estamos aqui” neste mundo. A resposta do humanismo secular é “que você está aqui para consumir e aproveitar a vida”.[6] Sendo assim, farei com que todas as coisas cooperem para este propósito, inclusive Deus e a religião. O importante é “consiga tudo o que puder. Desfrute tudo o que conseguir. Faça isto. É por isto que você está aqui.”[7]

Nossa sociedade e a igreja embarcaram nesta, criaram uma mistura de prazer e consumo, e o resultado tem sido devastador. Consumimos mais, temos mais acesso ao prazer, conseguimos eliminar a dor física quase que totalmente, derrubamos tabus para que nossa consciência fique mais leve, no entanto não somos mais felizes. 

Na busca pelo prazer e pelo consumo, perdemos a razão da existência humana. Se a razão da vida é consumir e aproveitar, então nos tornamos predadores, e aí, “as únicas coisas que importam são se sou mais poderoso do que você, e se você tem alguma coisa de que eu preciso para meu prazer. Se for assim, então é minha incumbência tomar tudo o que eu puder de você, para aumentar a minha própria satisfação”.[8]

Foi neste contexto filosófico que os de raça ariana se consideraram superiores e no direito de eliminar os que achavam inferiores, como fizeram com os judeus no holocausto. “Eles argumentavam que, porque a raça ariana é superior a todas as demais, é sua tarefa dominar e/ou exterminar outras raças, para entrar no nível seguinte da nossa evolução [...] O mesmo conceito de eugenia reduz o bebê no útero a um monte inconveniente de carne”.[9] E neste entendimento, a criança deformada é exterminada no útero, porque interfere em nossa capacidade de consumir e aproveitar. 

Semelhantemente os velhos são jogados e esquecidos nos lares, porque já não contribuem para a nossa satisfação. E quando a morte é iminente devido a uma enfermidade, consideramos a eutanásia uma forma justa de eliminar o sofrimento da vida. 

Por que estou aqui? Segundo a cultura pós-moderna, eu estou aqui para aproveitar ao máximo, para consumir e desfrutar, enquanto puder. 

E a Bíblia, o que ela tem a dizer sobre o por quê de estarmos aqui? Jesus disse aos que lhe ouviam: "Portanto eu lhes digo: não se preocupem com suas próprias vidas, quanto ao que comer ou beber; nem com seus próprios corpos, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa?” (Mt 6:25).

Neste texto Jesus mostra que a vida é mais importante do que o consumo que fazemos com ela. Se a vida é importante, onde está então a sua importância? Em Colossenses 1:16-18 diz que “tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo da igreja, é o princípio e primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha preeminência.”

O objetivo central da vida e de todas as coisa criadas por Deus é que elas possam trazer a Cristo glória e honra, e que ele possa ter a supremacia em todas as coisas. Evidentemente que o humanista não aceitará esta resposta, muitos cristão também não a aceitam, para estes não interessa a glória de Deus em todas as coisas, o que interessa é a sua felicidade individual, portanto, que tudo trabalhe para o seu melhor-estar. 

Por que estou aqui? Estou aqui para trazer glória e honra ao Senhor Jesus Cristo. É por isto que nós existimos! Em Isaías 43:7 o Senhor diz que nos criou para a sua glória. Se tão somente tivéssemos esta verdade firmada no nosso coração, nossa vida faria muito mais sentido. Permita-me lhe perguntar: Deus tem sido glorificado na sua vida? Quem sabe você diria: “Bom, acho que sim!” No entanto podemos saber se ele de fato tem sido glorificado ao responder as seguintes perguntas:

Por que você escolheu seu último trabalho? Foi por causa da glória de Deus ou porque este emprego lhe paga mais do que o emprego que você tinha antes? Como um pastor escolhe uma igreja para pastorear, por ser grande, um templo bonito, ou por poder pagar mais, ou por prestígio? Ou deve ser para que Deus seja glorificado em seu ministério? E perguntas semelhantes, com respostas sinceras a todas as áreas da vida, poderão nos ajudar a agir de maneira que o Senhor seja glorificado.

Viver a vida como se ela fosse uma nuvem que passa, ou uma estação do ano, com ganância de consumir e gozar o máximo que posso, é estupidez. A vida começou, mas não termina, começou aqui e continuará lá, com Deus ou sem Deus, no céu ou no inferno, mas certamente continuará. Fomos criados com o propósito de glorificar a Deus e não podemos viver por menos.

por Luis A R Branco


NOTAS
[1] LIPOVETSKY, Gilles. A Felicidade Paradoxal, Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumismo. Lisboa: Editora 70, 2007, páginas 30 e 31.
[2] Idem, página 111.
[3] Ibidem, página 112.
[4] Ibidem, página 112.
[5] Ibidem, página 113.
[6] J. Blanchard. Perguntas Cruciais: São José dos Campos, Editora Fiel, 1992, página 58.
[7] Idem, página 58.
[8] Ibidem, página 58.
[9] Ibidem, página 58.






 

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