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Dos “amigos da onça” nem os crentes escapam...



Amigos são benefícios do Senhor – além de tudo que se pode contar. Somam forças, multiplicam afetos, dividem alegrias e sofrimentos e, de sobra, dá gosto de ver o resultado. Amigos como esses têm valor (Provérbios 27.10); são como óleo e perfume para o coração e seus conselhos são doces (Pv 27.9) e até mesmo seu olhar nos faz bem (Pv 15.30). Quando preciso, desafiam-nos como o ferro afia o ferro – mas, até isso, é ferida de amor (Pv 27.5-6). Eles estão aí a todo tempo (Pv 17.17), na riqueza ou na pobreza (Pv 19.4). No entanto, na aritmética bíblica, “O homem que tem muitos amigos sai perdendo”, valendo mais os poucos amigos (e eles existem!) mais chegados “do que um irmão” (Pv 18.24). O modelo perfeito desse tipo de amigo é o Senhor Jesus Cristo, que disse:

Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer (João 15.13-15).

No entanto, neste mundo tem amigo de todo tipo. De amigos de casa, têm de sala e de cozinha. Tem amigo da casa ao lado, amigo de “bom dia” e “como vai?” E tem Amigo da Onça. Lembra dessa criação de Péricles, inspirada na piada?

“Dois caçadores conversam:
- O que você faria se uma onça aparecesse?
- Ora, dava um tiro nela.
- Mas se não tivesse nenhuma arma?
- Então eu usava meu facão.
- E se estivesse sem facão?
- Subiria na árvore mais próxima!
- E se não tivesse nenhuma árvore?
- Sairia correndo.
- E se você estivesse paralisado?
Então o outro retruca:
- Mas você é meu amigo ou amigo da onça?”

Amigos, muitas vezes, doem. Uns doem dor como de parto e dão à luz a misericórdia (cf. Hebreus 2.17-18). Outros doem como piruá na cava do dente. De fato, alguns se sentem íntimos somente quando criticam, e conseguem pegar no nervo do dente. Há outros que nem é bom lembrar. Quando estamos em pé, apóiam-se nos nossos ombros, mas, se tropeçamos, alegram-se e se reúnem contra nós (Sl 35.14-15). Assim, para não incorrer no pecado da ira ou da amargura, talvez, melhor, será trazer o sentimento mencionado na Bíblia: “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Salmos 41.9) e “Com efeito, não é inimigo que me afronta; se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta contra mim, pois dele eu me esconderia; mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo” (Sl 55.12-13).

Em relação aos primeiros, não resta dúvida: havemos de ter o mesmo ânimo, ser compadecidos, ser amigos fraternos, com toda misericórdia e humildade; retribuir sempre o mal com o bem, e ter sempre uma palavra de bendição, para estes e destes para os outros (1Pedro 3.8-11). O que, porém, fazer como os amigos da onça? Ora, se o Senhor mandou amar os inimigos, por que não amar também os que são mais amigos do bicho? Ele, o perfeito Amigo, sabendo que seus inimigos o afligiriam com acusações maldosas, que seus amigos o abandonariam, que seu amigo o negaria, ainda assim e sobre tudo, “ sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (João 13.1).

Esse tipo de amor é extremamente libertador. Um dia, procurado por alguns homens com respeito a dificuldades na relação com um pastor, respondi que o certo seria amá-lo e honrá-lo, a que ouvi: “Mas eu não gosto dele”. “Amar não é gostar (se bem que o amor acaba produzindo esse gosto)”, respondi; “amar é fazer o bem.” Uma jovem que havia sido abusada pelo pai, declarou: “Nem quero pensar sobre ele”. Contudo, a cada manhã e a cada passo, ela nutria na boca e na alma o gosto ruim de fel e ferro, perpetuando uma escravidão amarga. “Sabe”, falei, “Deus quer que você ame e honre o seu pai. Dado que ele é um abusador, Deus não requer que você tenha prazer em sua presença nem fique perto dele. Mas amar e honrar, isto é, fazer-lhe o bem e não maldizê-lo, é algo de que você precisa a fim de experimentar a libertação que há na obra de Cristo.”

Sei que para nós, que vivemos ainda na nossa carne, esse tipo de amor parece quebrar os nossos dentes e estraçalhar a nossa alma. Parece-nos reviver a dor que mais desejamos evitar. Mas não é assim. A despeito de toda a ânsia quase incontida de sermos amados – alvo impossível de ser sempre atingido e mantido – no fundo no fundo o de que precisamos é amar. Deus nos criou em seu amor, para amá-lo sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, e, se não tivermos seu amor para dar, jamais seremos satisfeitos. O coração deseja amar o amigo, o pai, o colega. Quando, porém, não somos amados por eles, vingamo-nos, negando-lhe o nosso amor. “Você não gosta de mim? Eu não gosto de você primeiro!” O amor de Cristo, porém, ama primeiro e a despeito de tudo. Certamente, muitas vezes, pecaremos tanto por não amar quanto sofremos por não sermos amados. Nessas horas e situações é que a lição do apóstolo Paulo vem em nosso socorro: “Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma. Se mais vos amo, serei menos amado?” Ou, como diz outra versão, “ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2Coríntios 12:15). Essa é a aplicação da grande verdade do amor do Pai: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8). Afinal, não é essa a nossa vocação: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro” (Romanos 8.35-36).


Wadislau Martins Gomes escreve no blog Coram Deo Comentário
Título original: AMOR DÓI, MAS DÁ UM BEIJINHO QUE PASSA





 

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