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OS DESIGREJADOS TAMBÉM CONGREGAM?





Durante toda minha vida fiz parte de uma igreja tradicional. Nasci, fui batizada, cresci, fiz amigos e casei ali dentro. Meus pais também trilharam este mesmo caminho. A família do meu esposo idem. Crescemos intrinsecamente ligados a esta grande família, portanto, falo com conhecimento de causa. Há cerca de quatro anos passamos por algumas situações difíceis dentro desta comunidade. Sofremos decepções e vimos pessoas queridas sofrendo também. Ouvimos coisas que jamais pensaríamos ouvir dentro de uma igreja e, diante de todos estes fatos, nos vimos encurralados. Não acreditávamos mais na instituição, e pior, ela nos parecia mais um empecilho do que uma facilitadora do Evangelho. Vidas estavam sendo machucadas para que a imagem do líder religioso se sobressaísse. O dilema era grande: "Tantos anos sendo parte desta família, tantas lembranças, tantas pessoas amadas... Como se desvencilhar desse laço?" A decisão não foi fácil, mas as circunstâncias nos levaram a isso. Nossos pais e avós sofreram bastante. Alguns amigos também. A nossa dor na verdade não foi a de sair oficialmente da instituição religiosa (pois já estávamos emocionalmente desvinculados a ela), mas a de presenciar a dor da família e de amigos tão queridos.

Nesta dura caminhada perdemos o contato de pessoas amadas, que nos viram nascer, crescer e formar família. Conheciam a nossa história, nosso caráter, nossos trabalhos enquanto casal, mas não aceitaram as denúncias que fizemos e o nosso desligamento. Encararam como ato de rebeldia, fraqueza e falta de persistência. Mas no fim, descobrimos que o nosso caso era apenas mais um entre os milhares que se decepcionam e desacreditam da instituição todos os dias. Neste tempo, conhecemos muitas pessoas que estavam na mesma situação que a nossa. Nos unimos a elas em busca de força e orientação. O Pai foi bondoso nos enviando verdadeiros amigos. Nossa fé cresceu, se fortaleceu e amadureceu. Foi aí que conhecemos o termo "desigrejados", apelido dado àqueles que, por terem se decepcionado com o sistema religioso e sua liderança, resolvem partir para o outro extremo. No início, a dor e amargura nos fizeram ficar cegos e desacreditados de tudo o que se relacionava a religião. Por isso nossa busca por algo simples e mais informal possível, sem estruturas, regras ou doutrinas. A sede era de viver o Evangelho puro e simples, e só.


Durante essa busca, encontramos um grupo mais do que especial, formado por pessoas que estavam na mesma situação que a nossa. Era como um oásis em terra seca, um refrigério para alma. Hoje são amigos queridos, mais chegados que irmãos. Deus não nos desamparou em nenhum momento. Além disso, encontramos mestres excepcionais que nos alimentaram da Palavra como nunca antes havíamos sido alimentados. Eram pratos e pratos de "feijoada" toda semana. Como aprendemos! Quer dizer... ainda estamos aprendendo!

Veja bem, não quero com esse texto denegrir alguma instituição ou expor os fatos que nos levaram ao desligamento, não! O meu desejo é o de esclarecer algo que durante muito tempo esteve oculto para nós, e que hoje, nos é tão óbvio e nos faz tão bem. A minha esperança é que este testemunho alivie o sofrimento e traga ânimo àqueles que estão passando ou já passaram por situação semelhante.

Sempre acreditei, desde muito pequena, que um cristão verdadeiro não poderia jamais trocar um culto de sua igreja por qualquer outro evento (sem boa justificativa), e que tal atitude consistia em pecado grave. Ninguém nunca nos disse isso claramente, com todas as palavras, mas no decorrer da história captamos as mensagens subliminares que nos eram lançadas dos púlpitos, aulas de estudo bíblico e do próprio testemunho de vida de nossos amigos e familiares. Nossa mente foi sendo aos poucos cauterizada. Não creio que tenham feito por maldade, mas simplesmente por acreditarem ser esta a verdade ou por medo de perderem ovelhas... Estou apenas supondo. Enfim, depois de todo o reboliço e decepções que enfrentamos, despertou em nós uma fome imensa de conhecer a Palavra. Dia após dia descobríamos uma nova verdade que havia sido encoberta pela religião. A sensação era a de ter acordado de um transe. Isso mesmo! Parecíamos novos convertidos. Estava tudo ali, bem na nossa frente, claro como água! Como nossa mente pôde estar tão cauterizada a ponto de não entendermos tamanha obviedade?

Mas não foi tão fácil assim: "Vocês estão sendo rebeldes! Nenhuma igreja é boa para vocês! Estão cegos, foram enganados! Voltem enquanto é tempo! A caminhada de vocês não vai prosperar enquanto não voltarem! Seus filhos precisam ser criados dentro de uma igreja, ter consciência do que é altar e púlpito!"

Mas era tarde... A venda já havia sido retirada de nossos olhos: "Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia". Hebreus 10:25

Descobrimos que Jesus nunca nos exigiu nome no rol de membros de uma instituição religiosa, frequência em Escolas Bíblicas Dominicais, presença nos cultos vespertinos e matutinos e tantas outras coisa que a denominação nos exige. Quanto mais estudávamos os Evangelhos e as cartas de Paulo, mais percebíamos o quanto andamos cegos e limitados pela religião. A sensação era de indignação e ao mesmo tempo de liberdade. Uma vontade louca de alertar aqueles que ainda permaneciam no "transe": "Acordem, pelo amor de Deus! Essa é a Verdade, Verdade que liberta! Esta é a graça, Nele somos livres! Não podemos nos colocar novamente sob jugo de escravidão..." Mas todas as nossas tentativas foram frustradas. Entendemos então que o trabalho de despertar era do Pai, e não nosso. Descansamos.

E foi em meio a todo esse conflito que o Pai nos fez acordar para o campo pronto para colheita que estava aqui, bem ao nosso lado. Meu Deus, como estávamos cegos! Tantas vidas sedentas ao nosso redor... Iniciamos então um grupo de Estudo Bíblico com casais e crianças aqui no condomínio em que moramos. Sem religião, sem doutrina, sem placa... Percebemos o quanto placa divide igreja e quanto a falta dela nos une. O Senhor foi acrescentando vidas ao grupo, distribuindo dons, nos fazendo viver a sua igreja aqui na nossa vizinhança. Esse trabalho já dura praticamente três anos, e hoje contamos com mais de 40 pessoas entre crianças, adolescentes e adultos, vivendo a verdade em amor.

"Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo. Por isso é que foi dito: "Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens". Efésios 4:4-8

"Mas Dani, e se surgirem conflitos de doutrina?" Simples, o Senhor nos deixou apenas dois mandamentos: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo... faze isso, e viverás." Lucas 10:27-28". Se cumprimos estes mandamentos, cumprimos todo o restante da Lei: "Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor." Romanos 13:9-10

"Mas vocês são submissos a quem? Quem enviou vocês? Quem é líder da comunidade? Quem disciplina?"

Perguntas típicas de quem ainda está com a mente cauterizada pela religião... Quem distribui os dons não é o próprio Cristo? Pois então. Temos pastores em nossas vidas, pessoas que nos aconselham, choram conosco, nos advertem e nos levam em direção ao verdadeiro Pastor. Quem disse que precisam ser da mesma denominação que a nossa? Na Palavra não existe esta condição. Temos também mestres Batistas, Metodistas, Presbiterianos, sem denominação... E aqui em nossa pequena comunidade, o Espírito tem distribuído dons conforme lhe apraz. Temos visto florescer pessoas com o dom de ensinar a Palavra, ministrar à crianças, outros com o dom de aconselhamento, finanças, teatro... Não é diploma ou faculdade que nos diz quem é pastor, mestre, conselheiro, ajudador ou administrador, mas a própria comunidade reconhece na caminhada os dons distribuídos pelo Espírito de Deus. A faculdade ou curso pode até acontecer, mas apenas como instrumento de aperfeiçoamento de um dom já existente:

"E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro.

Além deste grupo, nos reunimos semanalmente com uma outra turma de amigos para estudar a Palavra, compartilhar, orar uns pelos outros, enfim, nos fortalecer na fé. Ali temos pessoas que frequentam diferentes denominações, e mesmo assim congregamos, isso é fantástico! O congregar vai muito além de um ajuntamento denominacional semanal. Ele fala de transparência nos relacionamentos, carregar a carga uns dos outros, ser suporte para o irmão, conhecer a aflição, chorar junto, edificar vidas com o dom que recebemos do Pai: "Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função." Efésios 4:11-16. Ou seja, não precisamos estar presos a uma denominação para colocar em prática o congregar, assim como não há problema algum em congregar dentro de uma. Como foi libertador descobrir isto!

Para nós, não existem mais sábados ou domingos, pois todos os dias são do Senhor. Aqui no condomínio nos encontramos às quartas a noite. Neste outro grupo, que carinhosamente chamamos de "igreja do Pão de queijo", nos encontramos às sextas-feiras. Além disso, servimos em uma missão que trabalha com crianças carentes aos domingos pela manhã. Nunca congregamos tanto! Estamos mais firmes na fé do que nunca! Por isso posso dizer com toda a convicção do meu coração que congregar não exige do cristão estar ligado a uma instituição religiosa, mas creio também que um cristão de verdade não existe sem o congregar. Aquele que está em Cristo é aperfeiçoado através dos relacionamentos, não pode caminhar sozinho. Não sou contra as denominações, aliás, muitas delas exercem um trabalho fantástico e vivem a verdadeira igreja, não permitindo que a estrutura passe por cima das vidas. Conheço pastores que colecionam diplomas e são cristãos exemplares! Não há nada de errado nisso, desde que se viva e pregue o Evangelho genuíno. Não levanto uma bandeira contra a instituição, de forma alguma, mas enquanto ela estiver sendo empecilho para a propagação do Evangelho, deve ser removida do caminho para que as pessoas consigam chegar ao Caminho.

Foi o que aconteceu conosco. Em um dado momento ficamos travados em nossa caminhada e ministério por conta da denominação. Vidas estavam sendo machucadas. Por isso decidimos tirá-la de nosso caminho. Mas que fique claro que nosso caso não é regra. Cada um deve entender sua própria situação e buscar respostas e direção em Deus. Se o teu chamado é dentro de uma denominação, amém. Viva a igreja de Cristo lá dentro! Somos todos parte de um mesmo corpo, onde há apenas uma cabeça, que é Cristo Jesus. A Igreja é feita de pessoas e não de tijolos, e está espalhada por toda a face da Terra. Não podemos permitir que a religião nos divida enquanto corpo. Quando meu marido e eu excluímos nosso nome do rol de membros da igreja Metodista, não deixamos de ser irmãos. Ainda compartilhamos da mesma fé, apenas congregamos em locais diferentes. Nosso foco permanece o mesmo, e o amor também.

"Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão". Gálatas 5:1.

O conselho que deixo aos leitores é: Examinem as Escrituras para não serem enganados. O amor a Deus e ao próximo é o cumprimento de toda a lei, portanto, uma regra, tradição ou doutrina não deve jamais passar por cima de uma vida! Olhem ao redor e vejam os campos prontos para colheita. Não se feche em sua comunidade a ponto de não enxergar aqueles que perecem lá fora. Se você está em Cristo, tem o dever de anunciar a Boa Nova do Evangelho àqueles que ainda não a conhecem. Cristo veio para os que estão enfermos e o "Ide" é para todos os que creram e receberam seu Espírito: "...assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós." João 20:21 "Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." Mateus 28:19

Batistas, Metodistas, Presbiterianos, Pentecostais, Católicos ou sem-denominação... Não importa mais. Somos todos parte de uma mesma igreja, a Igreja do Cristo ressurreto. A nossa religião é só uma: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo, conforme Tiago 1:27. É momento de nos unirmos por aquilo que temos em comum e retirar do caminho tudo aquilo que vem para nos dividir. Hoje entendo que não somos e nunca seremos desigrejados. Para aquele que entendeu a Cruz e creu no Evangelho da Salvação, caminhar sozinho não é uma possibilidade. O congregar faz parte de sua vida, estando ele fora ou dentro de uma denominação.

E se você é daqueles que ainda acreditam que excesso de liberdade gera libertinagem, então não entendeu a Verdade que liberta. Quando me libertei das amarras da religião, me vi presa ao amor do Pai. O escravo obedece por medo de ser castigado, o filho obedece porque é cúmplice do amor do Pai. É nessa liberdade que hoje vivo e caminho, para a Glória do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!



Dani Marques é colunista do Genizah








 

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