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Igrejas Saudáveis Crescem



Sejamos sinceros: Há uma grande preocupação nas lideranças eclesiásticas quanto ao tema do crescimento da igreja local. Afinal, qual é o pastor que não deseja testemunhar o crescimento do seu rebanho? Tal anseio não está apenas no coração do pastor e de outros oficiais eclesiásticos (presbíteros e diáconos), mas mesmo os membros, especialmente os mais dedicados à Obra de Deus, também o possuem. Trata-se, portanto, de um desejo legítimo e do desdobramento natural da história de uma igreja. O problema surge quando a “neurose numérica” se instala. Corremos o risco de desenvolver dois sintomas denunciados pelo Rev. Hernandes Dias Lopes: a “numerolatria” e a “numerofobia”. O primeiro (numerolatria) diz respeito ao apego exagerado e psicótico aos números. É quando os dirigentes dos cultos estão mais preocupados em “contar as cabeças”, como também disse John Piper. O segundo sintoma (numerofobia) ocorre quando as lideranças vivem justificando a falta de crescimento (como se houvesse alguma virtude nisso) por se considerarem verdadeiros guardiões da sã doutrina ou por estarem mais preocupados “na qualidade do que na quantidade”. Esquecem-se, contudo, os que pensam assim, que a qualidade também contribui para a quantidade. Podemos concordar com a máxima que sentencia: “números não dizem tudo, mas dizem alguma coisa”.

Como pensar no tema do crescimento de nossas igrejas sem cairmos nos extremos mencionados acima?

Bem, quando pensamos no êxito que algumas igrejas alcançam quanto ao seu crescimento numérico, logo nos indagamos sobre as razões que explicam o fenômeno. Surgem respostas variadas. “A igreja está crescendo porque tem como pastor um homem de Deus”; não acredito muito nesta resposta, pois conheço pastores que são legítimos homens de Deus e que, entretanto, seus ministérios não testemunham de um crescimento estável. “A igreja está crescendo porque fala a língua do povo”; é outra resposta também simplória, pois há muitas igrejas inseridas nas periferias e favelas das grandes cidades e cujas lideranças procuram “falar a língua do povo” e que também não desfrutam de um crescimento consistente. “A igreja está crescendo porque possui uma liturgia atraente”. Também não é uma verdade absoluta, pois há igrejas que tentaram mudar sua liturgia, adotando uma prática cúltica mais “neopentecostalizada” e que depois de mais de 10 anos, tudo o que conseguiram foi afugentar os crentes antigos e deseducar os novos quanto à liturgia, sem, contudo, experimentar um crescimento convincente. Rev. Leônidas Prudêncio de Lemos, pastor da Igreja Congregacional em Vista Alegre (São Gonçalo / RJ), em uma pregação sobre a primeira carta aos Coríntios 3, disse, com muita inteligência, que “há corpos que engordam, outros que incham e aqueles que crescem. Logo, todos aumentam de tamanho, mas só o que cresceu é saudável”. Semelhantemente ocorre com a igreja. Temos igrejas que aumentaram de tamanho, mas não se pode dizer que cresceram, pois a despeito de seu corpanzil, muitas carecem de saúde espiritual. Como então resolveremos esta questão? Quais os indicadores saudáveis do crescimento de uma igreja? Como poderemos contemplar um saudável crescimento de nossos rebanhos em todos os níveis?

No texto de Atos dos Apóstolos 2.42-47, temos a resposta do que é uma igreja saudável e, consequentemente, crescente. Lucas aponta 14 características que a primeira comunidade de fé possuía, vejamos:

1. Pregação e Ensino Bíblico – “E perseveravam na doutrina dos apóstolos” (vs. 42);

2. Koinonia – “e na comunhão...” (vs. 42);

3. Adoração – “e no partir do pão” (vs 42 - Celebração da Santa Ceia)-; “Louvando a Deus...” (vs. 47);

4. Oração – “e nas orações” (vs. 42);

5. Temor- “em cada alma havia temor” (vs. 43);

6. Liderança Ungida/Capacitada pelo Espírito Santo – “prodígios e sinais eram feitos pelos apóstolos” (vs 43);

7. Fé – “Todos os que criam” (vs. 44);

8. Unidade- “estavam unidos e tinham tudo em comum” (vs. 44);

9. Solidariedade e Ação Social- “vendiam suas propriedades e bens e repartiam...” (vs. 45);

10. Perseverança – “E, perseverando unânimes...” (vs. 46);

11. Culto Frequente na Vida – “Todos os dias no templo e partindo o pão de casa em casa...” (vs. 46);

12. Alegria- vs 46;

13. Empatia- “caindo na graça do povo” (vs. 47);

14. Crescimento Promovido por Jesus Cristo – “E a cada dia acrescenta-lhes O SENHOR os que iam sendo salvos” (vs. 47).

Gostaria de comentar expositivamente esses versículos, porém não nos é possível em virtude do espaço. Pelos menos, então, observemos o que há no versículo 47b. Lucas diz que o Senhor (Jesus Cristo) é quem acrescentava os que estavam sendo salvos. Isso é coerente com a declaração de Paulo em 1 Coríntios 3.6, quando o apóstolo reconhece que um obreiro pode semear ou regar, mas o crescimento da lavoura vem de Deus (vs 9). Quando nos intrometemos no trabalho que pertence exclusivamente a Deus, isto é, a promoção do crescimento de sua obra, o que colhemos, na verdade, é joio e não trigo. É possível atrairmos, com nossas técnicas de crescimento, gente para dentro das igrejas, mas, produzir novo nascimento, regeneração, conversão só o Senhor é quem pode. O célebre avivalista do século XIX, Charles Finney, no final de sua vida lamentou por muitas das técnicas que empregou e ensinou para produzir avivamento e crescimento numérico, reconhecendo que um número significativo de pessoas alcançadas em tais campanhas não se tornaram crentes de verdade (nascidas de novo), configurando assim em um verdadeiro problema para as igrejas que as tinham no rol de membros. Portanto, como cooperadores de Deus, devemos nos concentrar no plantio e na rega e deixarmos os resultados com o Senhor. Jamais devemos nos esquecer de que quem edifica a igreja, fazendo-a crescer, avançar e expandir é somente o Senhor Jesus Cristo (Mt 16.18).

Mas há outro aspecto importante que precisamos considerar na passagem. Ao informar que o Senhor acrescentava os salvos à igreja em Jerusalém, poderíamos nos perguntar por que Ele estava fazendo isso tão frequente e abundantemente? A reposta é simples: a igreja em Jerusalém (Primitiva) era uma igreja saudável. Ela tinha o que oferecer às ovelhas do Bom Pastor (João 10.9). Os pastos eram verdes (Salmo 23.2). Quando os salvos chegavam para aquela comunidade, encontravam uma igreja com as características citadas acima. Além da pregação bíblica e apostólica que os alimentava, também encontravam uma comunidade relacional/ unida/ solidária, intercessora, temente, adoradora, viva, carismática, servil, dinâmica, empática, perseverante, alegre, singela. Ou seja, a Igreja Primitiva, apesar de suas imperfeições (os episódios narrados no início dos capítulos 5 e 6 do livro de Atos comprovam isso), era um bom aprisco para as ovelhas do Mestre. Aquela comunidade lhes faria bem. Por isso o Senhor confiava suas ovelhas à grei.

Amados, se a igreja for um lugar saudável, onde as ovelhas serão tratadas, tenha certeza de que Jesus Cristo, o bom pastor, chegará trazendo-as para que nós, seus pastores auxiliares, as alimentemos com pastos verdes e águas tranquilas (Salmo 23.2). E não apenas crescerá, mas, também, se manterá. Quem, afinal de contas, não deseja em encontrar uma comunidade bíblica, equilibrada e saudável para congregar? E quem abandona uma igreja com tais características? Muitos dos atuais desigrejados romperam com suas comunidades de fé porque as mesmas não eram saudáveis (ou deixaram de ser), haja vista que tantas (não todas) eram produtoras de tensões, neuroses, disputas mesquinhas e até heresias. Deixá-las, então, foi uma decisão em favor da saúde e da própria sobrevivência espiritual.

Mas não adianta sermos fortes apenas em uma área. Não podemos enfatizar a pregação bíblica e negligenciar a oração. Ou destacar o louvor em detrimento da comunhão entre os irmãos. Não podemos nos contentar em ser uma comunidade alegre, porém sem o devido temor ao Senhor (Pv 1.7). Não podemos evangelizar e sermos relapsos na ação social. Assim como não poderemos servir, desconhecendo a experiência pneumatológica (chamado, unção e capacitação do Espírito Santo – Lc 24.49; Atos 1.8; 13.1-4). Assim como um corpo físico só desfruta de saúde se todos os seus membros, sistemas e aparelhos estiverem em pleno funcionamento, uma igreja só é saudável quando há equilíbrio em suas características. É isso que Igreja Primitiva nos ensina. Aprendamos com ela! Geralmente temos a tendência de escolhermos algumas áreas que julgamos importantes e nos concentramos nas mesmas, mas uma bela sinfonia precisa de todos os instrumentos devidamente afinados para que o conjunto da obra produza o efeito extraordinário. O maestro, para realizar o seu trabalho, precisa ter a sua disposição todos os músicos bem treinados, sendo a harmonia o fator de êxito de uma boa orquestra. O mesmo aconteceu com a Igreja Primitiva. Era uma igreja com equilíbrio e harmonia. Era uma igreja saudável. Por isso cresceu. Que o mesmo possa ser testemunhado em nossas igrejas cristãs no Brasil. Que assim seja!


Soli Deo Gloria!!!

Idauro Campos é pastor congregacional, Mestre em Ciências da Religião e colunista do Genizah


 

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