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Noé, o filme com Russell Crowe.


PIPOCA TV


Corajosa a proposta de Darren Aronofsky (“Réquiem Para Um Sonho”, 2000), usando um mito bíblico, desconstruindo uma lendária referência e assim mesmo inserindo seus valores ao final do filme. Foi por aí que Aronofsky, responsável por dirigir e adaptar, que ‘Noé‘ (2014) chega às salas de cinema brasileiro com sutilezas e ideias interessantes para um público acostumado ao trivial.

O que está ali representado não são dogmas e nem o desmantelamento da história humana através do olhar hebreu mas uma ‘licença poética‘ bastante abrangente sobre a história de Noé, vivido por Russell Crowe, e sua incondicional obediência ao Criador.




O primeiro cuidado que Aronofsky tomou foi, apesar de estar ‘tudo’ ali, foi não denominar o ídolo sem nome, cunhado como DEUS pelo povo que se tornaria hebreu. Uma clara demonstração de que o enredo seria direcionado a qualquer grupo, sem especificar a ideologia religiosa. Mesmo que, lá pelo meio do filme, Noé, conte aos seus filhos, a criação do criador sobre o ponto de vista judeu.

O que mais impressiona no filme co-escrito por Ari Handel (“Cisne Negro”, 2010) é que a ordenança do Criador para Noé aflige a vida eremita do sobrevivente. Aflige de tal forma que há momentos de pura insanidade onde seu olhar e intenções estão tão convictos de que precisam fazer a vontade do seu deus, que ele esquece aquilo que sempre prezou na vida: sua própria família.

Este é um outro grande acerto: é óbvia a crítica feita aos xiitas da religiosidade que, contraditoriamente, buscam atender às regras e ordens do seu deus e esquecem os sentimentos mais primordiais da vida em sociedade, como a compaixão, o amor e a fraternidade. A cegueira da obediência quase o fez um homem solitário e a maioria dos conflitos que ele mesmo se impôs não veio dos céus e sim das suas aflições, na interpretação dos sonhos que ele tinha.

A postura de Naameh, muito bem conduzida por Jennifer Connely, aceitando as condições impostas pelo marido, trabalhando duro na construção da arca, cuidando dos filhos, deu bem a ideia da sociedade patriarcal construída, onde a organização social não se dava apenas por quem tinha mais força mas por quem exercia sobre a família o papel de orientador espiritual. Connelly emociona com seu (quase) único discurso, tentando persuadir Noé de um duplo assassinato.

E por falar em mulheres, Emma Watson cresceu e está muito bem como Ila, a sobrevivente resgatada pela família de Noé e ‘ajuntada’ de seu filho mais velho, Sem. Anthony Hopkins como Matusalém mantem a qualidade de suas aparições: a voz, o rosto, os movimentos, de quem te convence o tempo inteiro de que ali não está um ator, mas a presença de um oráculo que tem muita coisa a dizer, sempre de maneira didática. Seu diálogo com Naameh transforma os eventos que se seguem até o fim do filme.

Não dá para deixar de falar sobre alguns quesitos que devem ter causado estranheza aos olhares pudicamente cristãs: Handel e Aronofsky, seu companheiro, preferiram mistificar com ‘efeitos especiais’ a relação do homem com seu criador, sem se utilizar de uma “voz imponente e poderosa” para significar o deus de barba branca e impiedoso, mais ou menos a figura que se desenha na mente ocidental de quem namorou com os traços do Cristianismo em algum momento da vida. A sutileza é a maior prestadora de serviço. Ela quem dá o tom da relação distinta entre Noé e seu deus.

Bacana também não ver uma embarcação nos modelitos do que se vê em desenhos animados, que estão historicamente equivocadas e longe da engenharia praticada há mais de 3000 anos. A arca é uma espécie de armazém que dará socorro aos seus moradores temporários.

‘Noé‘ é um filme difícil se ficarmos buscando as similaridades da descrição bíblica e complicado se não estivermos atentos aos motes discutidos. Especialmente os polêmicos, quase cíclicos, que questionam os níveis de bondade e maldade dentro de cada ser e quem é habilitado a escolher quem vai viver e quem vai morrer. O proselitismo é chamado durante o filme de “tarefa”.

Com direito a muitos momentos de silêncio, ‘Noé‘ está longe de ser previsível e pode discutir com a audiência os frutos da religiosidade e especialmente o legado das escolhas do homem.



Nota do Editor  de Genizah

E o filme é bíblico? Não. Trata-se de uma ficção, realismo fantástico. Fábula inspirada onde os gaps do relato bíblico são preenchidos por critérios dramaturgicos, sem se ater a princípios  doutrinários e à tradição interpretativa, ao contrário, se utiliza de lendas, textos gnósticos e a tradição de outras religiões  com o propósito de produzir poder dramaturgico. Por conseqüência, oferece muitas heresias e produz toda a sorte de teorias conspiratórias entre os evangélicos acerca das motivações dos produtores  e mensagens ocultas, subliminares, satânicas, etc. Coisas de crente, mais do mesmo...

Muitos pastores irão desaconselhar o filme. Fazem bem. Considerando que a maioria dos crentes não lê a bíblia e que entre os que lêem poucos compreendem, em alguns dias teremos a Sarah Sheeva inspirando mensagens no relato do filme e a crentaiada dizendo amém...









 

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