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Vamos dar um basta no repeteco?



Estou sempre recebendo por correio eletrônico ou correio convites para participar de eventos evangélicos. E também me deparo com os mesmos nas revistas evangélicas que recebo. Os eventos são os mais variados, desde sexualidade à plantação de igreja. O cardápio está até variado, o que não muda muito é o chefe, o cozinheiro. O que quero dizer é que são as mesmas figuras em praticamente todos os eventos a falarem dos mais variados temas. É uma repetição enjoativa, pois embora os temas sejam diferenciados, o tempero é sempre o mesmo. São as mesmas piadas, os mesmos jargões e as mesmas caras.

Assento-me para escrever este texto já com meu capacete de obras na cabeça, pronto para levar as pedradas, e certamente alguns dirão: “É inveja, por que ele não foi convidado é mera dor de cotovelo!” Antes fosse minha inveja, assim pelo menos o problema seria restrito a minha pessoa, e é mais fácil mudar o hábito de um do que de uma comunidade, e antes fosse, pois, devido a complicações de saúde, mesmo que me convidassem não teria como aceitar. E esta possibilidade é remota, sou um dos milhares de anónimos que andam por aí. Como digo em minha poesia: “Quem sou eu? Não me conheço, sou o que sou! Hora poeta, teólogo ou filósofo, mas na maioria das vezes sou aquele que passa e ninguém vê.” Confesso que me espanta e me cansa só de ver tais convites. E permita-me lhe explicar por que:

1. Fazemos parte de uma cultura idólatra. Seja qual for a religião no Brasil, a idolatria é exagerada. Desde o candomblé às igrejas evangélicas históricas o culto a imagens ou personalidades é impressionante. O país ficou chocado quando o “idolatrado” padre Fábio zangou-se com os exageros da idolatria mariana. E nas igrejas evangélicas, desde as neopentecostais às reformadas, o culto a personalidade é o mesmo, só muda o venue (local) e o cardápio, mas o espírito por trás destas personalidades é o mesmo.

2. Uma surpreendente versatilidade temática. Depois de quase vinte anos no ministério, já cheguei a conclusão de que alguns temas não são para mim, ou seja, não sou a pessoa indicada ou preparada para falar sobre determinados assuntos. Mas o que vemos no Brasil de hoje é uma surpreendente versatilidade nos pregadores, preletores ou como desejar chamá-los. São autoridades em tudo! O que não é verdade, nem pode ser, pois seria surpreendente se assim o fosse. Recebi ontem um Twitter de um pregador dizendo que iria falar sobre sexualidade num evento e nos mesmos dias sobre filosofia em outro, é possível? É, mas é surpreendente. Duas questões me veem a mente nesta hora: 1. o indivíduo é realmente versátil e bom em todas as áreas ou; 2. tem um serio problema em dizer não e reconhecer sua limitação.

Fui assistir a um evento destes, e o orador é renomado no meio evangélico, e fiquei impressionado com a quantidade de erros históricos nas afirmações deste querido irmão. Numa cultura onde pouco se lê, e de culto a personalidades, isto passa batido, mas num contexto mais refinado intelectualmente e menos protagonizador, é logo percebido. E um colega europeu, doutorado, levantou-se, olhou para mim, percebendo que eu já havia notado os erros, disse: “Gosto muito de ouvir este irmão, mas me surpreende os erros históricos.” Estimado pregador versátil, cuidado, pois podes pensar que estás abafando, enquanto na verdade está passando vergonha!

3. Falta de criatividade. Você já imaginou quantos seminaristas são formados todos os anos em nossos seminários? Já imaginou a quantidade de pastores que são consagrados todos os anos? Já imaginou a quantidade de membros de igreja altamente capazes para falar sobre determinados assuntos? Então, por que insistimos no repeteco? Na verdade, a repetição das figurinhas protagonizadores é uma pura demonstração de que os organizadores destes eventos pouco importam-se com o conteúdo, mas com a utilização de protagonistas capazes de atrair pessoas. Que bênção seria se fosse melhor utilizado todos os recursos que temos nas igrejas, que bênção maior ainda seria se nossos pregadores tivessem a coragem e decência de dizer: “Desculpe-me, mas não posso aceitar o convite, pois não entendo bem deste assunto, mas indico um irmão, ele não é conhecido, mas é perito nesta área.”

4. E para concluir, falta humildade. Estes dias removi o nome de um pregador da minha lista no Twitter, todo dia recebia mensagens dele dizendo onde daria a próxima palestra e qual seria o tema, apaguei, pois me incomodava a elasticidade teológica deste irmão, que tem até nome conhecido, mas a essência é rasa. São os mesmos jargões, as mesmas piadas, a mesma postura, só mudou o tema. Uma pobreza que chega doer! Nos esquecemos tão rapidamente de que quem quer ser bom em tudo, acaba não sendo bom em nada. Quem fala demais, peca demais também. Quem sabe boa parte da agenda destes preletores não poderia ser gasta em oração e no preparo de temas que os qualificassem como peritos naquela área. Como professor de hermenêutica há alguns anos, me dei conta de que nenhum pregador conseguirá pregar mais do que cinco mensagens por ano realmente bem preparadas, exaustivamente examinadas e provadas pelas regras da teologia, exegese, hermenêutica e homilética, levando-se em conta o tempo que se gasta na preparação e oração por uma mensagem, para além das demais atividades que temos, como cuidar do rebanho, da família, da saúde e da oração. Quando vejo que um pregador tem que atender a tantos convites quase que diariamente, fica claro para mim algumas coisas: Ele tem negligenciado a família, tem negligenciado a oração, tem negligenciado a saúde, tem negligenciado a simplicidade.

Que Deus nos ajude! Vou terminar aqui, pois talvez eu vá ouvir o mesmo irmão que ouvi mês passado, mas o congresso e o tema é diferente!

“É necessário que ele cresça e que eu diminua.” João 3:30



Luis Branco é colunista do Genizah




 

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