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Dos guetos às avenidas



No Brasil o evangelho sempre esteve associado com pessoas pobres e pessoas sem muito conhecimento. Havia nesta antiga ideia uma verdade e uma mentira. A verdade é que de fato a grande maioria dos evangélicos eram de origem humilde e a mentira é que eram pessoas sem conhecimento. Não concordo com a segunda premissa por razões simples:

i) Preconceito - Havia a ideia e de certa forma ainda há, de que o fato de uma pessoa ser de origem simples significa que não tem acesso à educação. Obviamente que via de regra era assim mesmo, mas havia um exagero.

ii) Errónea associação de riqueza com conhecimento - E aqui, uso a palavra conhecimento num sentido mais amplo, que envolve não apenas um conhecimento científico, mas também um conhecimento prático da vida. Há pessoas muito simples, que não tiveram uma oportunidade para estudar, mas que possuem um grande conhecimento e uma sabedoria prática da vida. Naquela época os evangélicos eram ridicularizados por sua fé em Cristo, por rejeitar as doutrinas católicas, as práticas espíritas e por seu fanatismo religioso que envolvia os usos e costumes de algumas igrejas.

Esta realidade, fazia com que de certa forma os evangélicos no Brasil, numa época não tão distante, tenham vivido em “guetos” sociais que os mantinham distante da sociedade de elite. Hoje as coisas mudaram um pouco, o mundo mudou, os evangélicos já não são tão pobres como antes, em especial os bispos e apóstolos. A melhoria na qualidade de vida que vem acontecendo lenta, mas gradualmente no Brasil beneficiou também a camada pobre evangélica. O mesmo com relação a educação, hoje com proliferação das escolas e universidades, o pobre tem mais oportunidade de se preparar para uma vida melhor. Mesmo que a educação no Brasil ainda seja de má qualidade, é melhor do que nada e com certeza irá melhorar. Aos domingos, nas portas das igrejas, onde antes havia os pontos de ônibus, hoje estão os estacionamentos para os carros de seus membros, obviamente, que a maioria ainda usa o ônibus mesmo, mas houve uma mudança significativa nos padrões de vida.

O que não mudou foi o preconceito da sociedade quanto à igreja. Se antes o preconceito era social e cultural, hoje é um preconceito ético, moral e teológico. Este preconceito nos mostra que a igreja só mudou o endereço do gueto, mas que ele ainda existe e a sociedade de elite continua inalcançável. Talvez seja melhor esclarecer o que entendo como sociedade de elite. A sociedade de elite é formada por uma camada social de pessoas com alto poder aquisitivo e com elevado nível de educação. Infelizmente este é o mal das nossas sociedades capitalistas, que embora tentem, não conseguem diminuir o desnível social entre as classes. A sociedade de elite, como tenho referido neste texto, poderá ser também àqueles que têm acesso privilegiado à alta cultura

Alta cultura é a forma como nos referimos aos elementos culturais que envolve a arte em suas formas mais variadas. A alta cultura é também uma fusão de estilos e comportamentos que dão sofisticação a sociedade de elite. Não há uma unanimidade na definição da alta cultura, mas a maioria dos filósofos concordam em seus pontos mais comuns. Por esta razão, utilizo o termo sociedade de elite no sentido de mostrar que há um grupo diferenciado na sociedade. Deste modo, o termo ‘elite’, segundo o sociólogo Thomas Burton Bottomore[1], designa um grupo dominante na sociedade ou um grupo localizado em uma camada hierárquica superior, em uma dada estratificação social.

A sociedade de elite não tem sido alcançada pelos meios evangelísticos utilizados pela igreja ou mesmo por grupos para-eclesiásticos. Na verdade, os preconceitos supra mencionados contra a igreja têm afastado cada vez mais este grupo do evangelho. O testemunho ético e moral da igreja brasileira, com seus vários escândalos envolvendo membros, pastores, bispos e, obviamente, a aberração apostólica, tem empurrado a igreja para um gueto cada vez mais profundo. Os intelectuais ainda não conseguem olhar para a igreja evangélica sem preconceito, pois esta pouco ajuda com sua forma de viver e proclamar aquilo que chamam de evangelho, mas que em nada difere do mundo. 

Acrescido a isto está o problema teológico da igreja, e este existe tanto nas igrejas neopentecostais e pentecostais, como nas igrejas reformadas e históricas. Se por um lado há uma ênfase quase que panteísta nos milagres e prosperidade, por outro há uma veneração engessada de uma história ultrapassada pelo tempo. Toda história passa, é por isto que deveríamos atentar para o conselho dos reformadores “Ecclesia semper reformanda est” (a igreja deve sempre ser reformada), no sentido de que devemos sempre buscar uma reforma que contemple as necessidades da nossa geração. No entanto, enquanto isto não acontece e enquanto vivermos de extremos de um lado e de outro, continuaremos nos guetos da cristandade, quando deveríamos estar nas “Avenidas” atraindo homens e mulheres de todos os povos, todas as culturas e de todos os grupos sociais existente na sociedade, tal como nos dias de Jesus e da Igreja Primitiva.

"Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas.”
Marcos 16:15

Luis A R Branco é colunista do Genizah


[1] Classes in Modern Society (London: Ampersand, 1955; London: George Allen & Unwin, 1965)






 

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