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A Cultura-Mundo e a Igreja




Luis A R Branco

Se lermos todos os artigos escritos neste blog e outros blogs com bom conteúdo bíblico, veremos que muitos deles expressam alguma insatisfação ou insegurança na foma como a sociedade contemporânea tem se comportado em praticamente todas as esferas da vida. A verdade é que vivemos dias confusos, controversos, injustos e estranhos, caracterizando esta época de “a época da cultura-mundo”.

Segundo os filósofos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, a cultura mundo significa a cultura que se transformou em mundo, em cultura-mundo, que é a cultura do “tecnocapitalismo planetário, das indústrias culturais, do consumismo total, dos media e das redes digitais.” [1] A cultura-mundo penetrou ou absorveu praticamente todas as esferas da sociedade, embaralhando o mundo com dicotomias controversas como “economia/imaginário, real/virtual, produção/representação, marca/arte, cultura comercial/alta cultura.”[2]. As mudanças sociais, as novas filosofias, a nova cosmovisão do mundo transformaram a cultura num mundo cuja a “circunferência passou a estar em todo lado e o centro em lado nenhum.”[3]. Não são meros efeitos de uma globalização, pois esta funciona muito mais como a abertura e a expansão e aproximação das fronteiras, enquanto que a cutura-mundo é a transformação da cultura de dentro para fora e de fora para dentro, rompendo com valores, princípios éticos e morais, criando comportamentos estranhos, outrora inaceitáveis, mas que nesta época da cultura-mundo passaram a ser vistas de outra forma pela sociedade. Obviamente que nem tudo na cultura-mundo é negativo.

A igreja por sua vez, integrada na sociedade contemporânea também é afetada e inserida nesta nova época da cultura-mundo, e igualmente tem vivido momentos difíceis com a absolvição das dicotomias deste novo tempo. Hoje predominam na igreja as dicotomias do culto a Deus/culto ao homem, santidade/pecado, renúncia/ganância, vocação/representação, louvor/show, pregação/autoajuda, igreja/empresa, pastor/empresário, etc. Como isto aconteceu com a igreja, merece um estudo mais minucioso, como o realizado por Danièle Hervieu-Léger, que explica que “a religião não está nem no íntimo do homem, nem numa esfera da vida em particular” [4]. Isto significa que as fronteiras da religião já não podem ser mais fixadas com precisão relativamente à vida das pessoas. Em outras palavras, torna-se cada vez mais difícil saber quem de fato é crente e qual grupo de fato é igreja. Esta realidade me traz a mente dois versos em particular: “…quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lc 18:8b) - Jesus nos coloca esta pergunta retórica, e logo a seguir conta a parábola do fariseu e o publicano. Certamente que Jesus já antevia este momento histórico, o qual atravessamos e onde multiplicam-se o número dos fariseus e publicanos. O segundo verso que me vem a mente é 2 Tm 2:19b: “…O Senhor conhece os que lhe pertencem…” - Embora para nós este discernimento seja difícil, não é para Deus, pois ele sabe exatamente quem são os seus.


Em outras palavras, torna-se cada vez mais difícil saber quem de fato é crente e qual grupo de fato é igreja.


A cultura-mundo e a igreja entrelaçaram-se de tal forma que a igreja se tornou tão desorientada quanto a sociedade. “Nossa geração (e aqui incluímos a igreja) enfrenta uma crise que tem afetado toda a vida, seja nas áreas da psicologia, antropologia, sociologia, filosofia ou teologia, questões que no passado eram definidas, retornam nesta era como grandes desafios para sociedade. As questões que envolvem a homossexualidade, aborto, eutanásia, racismo, pobreza, religiosidade entre outras, voltaram para um estado de indefinição.” [5]

A realidade é mais dramática do que parece, pois não se trata aqui de uma mera mesclagem de comportamentos ou do joio crescido no meio do trigo, mas o drama daquele que não consegue se definir como crente ou descrente, salvo ou perdido, santo ou profano, joio ou trigo. É uma crise de identidade, como disse Danièle, a fé já não está no íntimo do homem. E o mesmo se dá com a grupos autodenominados de igreja, que basicamente são “igrejas evangélicas” apenas no nome, pois sua prática é totalmente diferente daquela que descreve uma igreja bíblica.

A crise de identidade dos crentes e da igreja é tão acentuada, que não há praticamente um único valor cristão que não tenha sido deturpado por esta falta de uma identidade cristã clara e moldada pela Escritura Sagrada. Há 52 anos Thomas Merton escreveu: “…temos de admitir que já estamos vivendo num mundo Pós-cristão, ou seja, num mundo em que os ideais e as atitudes cristãs são relegados cada vez mais a minorias. É assustador perceber que a fachada do cristianismo, que em geral ainda sobrevive, tem pouco ou quase nada por trás e que nossa antigamente chamada ‘sociedade cristã’ é mais um neopaganismo pura e simplesmente materialista, com um verniz cristão.”[6]

Não venho propor uma solução para o entrelaço da cultura-mundo com a igreja, mas sim propor uma reflexão séria sobre aquilo que definimos como cristão e aquilo que definimos como igreja. Uma coisa é certa, é impossível ser crente e descrente, grupo e igreja, pois no reino de Deus não há espaço para dicotomias desta natureza.




Luis A R Branco é colaborador do Genizah


[1] LIPOVETSKY, Gilles, SERROY, Jean. A CULTURA MUNDO: RESPOSTA A UMA SOCIEDADE DESORIENTADA. Lisboa: Edições 70, 2010, páginas 12.
[2] Idem, página 13.
[3] Ibidem, página 13.
[4] HERVIEU-LÉGER, Danièle. O Peregrino e o Convertido: A Religião Em Movimento [Le pèlerin et le converti], trans. Catarina Silva Nunes (Lisboa: Gravida - Publicações L.da, 2005), página, 28.
[5] BRANCO, Luis A R. Perguntas Pós-Modernas: uma perspectiva bíblica. Petrópolis: 2013, Clube dos Autores, página 9.
[6] MERTON, Thomas. Paz na era pós-cristã. Aparecida: Editora Santuário, 2004, página 162.






 

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