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Porque uma linguagem de ódio racial e revolução não cabe na celebração da vida de Nelson Mandela


Braulia Ribeiro

Me espantei no twitter hoje ao ler algumas frases sobre a morte de Mandela. Fãs empolgados pegam carona na morte do grande líder para soltar fagulhas revolucionárias anti-tudo e viva direitos.

Infelizmente tenho que dizer aos empolgados e mal-informados caronistas que a vida de Mandela inspira tudo menos ódio revolucionário. Mandela passa para a história não por causa da primeira fase de sua vida, de luta violenta contra o violento regime do Apartheid. Não foram as lutas que teve, os tiros que deu, a resistência armada contra um regime que não hesitava em matar e torturar seus opositores que o transformaram no herói celebrado que morreu hoje.

Foi a luta que Mandela não fez que o celebrizou. Quando saiu da prisão aos 71 anos de idade, depois de 27 anos preso, Mandela diz pra si mesmo: _ “Sabia quando cruzei a porta da prisão em direção à liberdade, que se não deixasse pra trás o ódio, a amargura, o ressentimento, continuaria preso.”

Foi exatamente o perdão que o tornou extraordinário. Ele poderia ter dividido o país, poderia ter se vingado dos brancos protestantes motivando um genocídio como o que aconteceu no vizinho Zimbabwe. Poderia ter confiscado toda a riqueza dos brancos, e destruído a infra-estrutura do país. Teria sido “direito”. Teria sido justiça. Mas preferiu não fazê-lo. Poderia também ter aberto guerra contra os Zulu, rivais clássicos do Khosa, tribo de Mandela. Mas não o fez.

Na célebre cerimônia de posse em 1994 Mandela se postou ao lado dos generais brancos do Apartheid. Ouviu e cantou o hino dos brancos “Die com a mão respeitosamente no coração “Die Stem”, pra depois cantar o hino Khosa “Nkosi Sikelel’ iAfrika”. O hino em Afrikans fala do poder do Altíssimo que ajudou os ancestrais (holandeses) a construírem o país. Mandela poderia ter mandado o Altíssimo praquele lugar com sua teologia racista. Ao contrário, no livro “Longa Jornada para a Liberdade”, ele fala com gratidão da escolinha missionária protestante onde recebeu as primeiras letras.

Comparemos a África do Sul com o Zimbabwe. Apesar dos problemas que ainda tem, a África do Sul cresceu 83% em sua economia desde 1994. Os negros formam a classe econômica emergente. Ao invés de destruir o que havia, Mandela somou. A situação não é perfeita, a jornada ainda é longa até a igualdade de circunstâncias, mas as oportunidades são de todos.

Já o Zimbabwe, antiga Rodésia do Sul, elegeu Mugabe, seu primeiro presidente negro em 1980. Durante os primeiros anos de Mugabe mais de 20 mil pessoas foram mortas. No início dos anos 90, leis foram feitas para legitimar o saque das riquezas dos brancos e “redistribuí-las” aos pobres. Resultado? O país foi à ruína. De “cesta de pão” da África como era chamado o país, o Zimbabwe foi relegado à pobreza total. A produção agrícola, trabalho primariamente dos brancos, foi reduzida em 90%. A população branca se retirou do país ameaçada, e a população da região Matabeleland foi dizimada. Se não fosse Mandela a África do Sul teria se tornado em outro Zimbabwe, um poço de sangue e miséria sem perspectiva de democracia e harmonia política.

É bom lembrar também que o prêmio Nobel da Paz que Mandela ganhou em 1993 foi compartilhado com o presidente branco F. Willem de Klerk. Foi o trabalho dos dois que permitiu a transição do governo de minoria branca para as eleições majoritárias que fizeram de Mandela o presidente.

O nome carinhoso com que Mandela é chamado na sua terra natal, Madiba, quer dizer “conciliador”. Mais do que um mero revolucionário, o mundo perdeu hoje um homem de paz.

Fica aqui minha oração, para que o Senhor nos faça a nós que amamos a justiça de seu nome, administradores de paz e perdão. Que a nossa linguagem seja respeito, e que nosso olhar seja amor. A todos não importando se merecem ou não. Um mundo melhor se constrói conciliando-se diferenças e não agravando-as.



Braulia Ribeiro colabora com o Genizah




 

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