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NATAL, O ÓPIO DO POVO (1)



Fabricio Cunha


Uma vez ouvi um pastor dizer que duas classes de pessoas não podem sorrir muito, médicos plantonistas e pastores. Elas convivem constantemente com a dor das pessoas. Na verdade todos convivemos. Entretanto pastores e médicos são (ou deveriam ser) mais sensíveis que os outros, conhecem a fundo a alma e o corpo, têm nisso seu objeto de trabalho, não se familiarizam com a doença, não se acostumam com a dor, investem suas vidas na melhoria das dos outros.

Tenho percebido ultimamente um sentimento constante em meu coração. Não sei explicar direito. Choro com mais facilidade, presto atenção nas conversas de quem se senta ao meu lado em qualquer lugar, observo as pessoas com mais atenção, penso em minha família o tempo todo. Não sei o que está acontecendo mas tenho "gostado" de tal sentimento. Ele me aproxima mais da verdadeira realidade, das pessoas e do sagrado. Realmente tenho sorrido um pouco menos.

Sempre fui e ainda sou muito alegre. Gosto de celebrar, de estar entre amigos. Mas rir, festejar e se alegrar todo o tempo é, no mínimo, fugir da realidade em que vivemos. É fugir dos outros, de seus problemas, de suas dores, de suas lágrimas e de nossas próprias. É por isso que não gosto tanto do Natal. Gostava quando era criança. Não gosto mais. É uma época de muitos sorrisos, mas de pouca realidade.

Se Karl Marx fosse vivo, diria: "O Natal é o ópio do povo". Ele anestesia o cotidiano e traveste nossa realidade vexatória com uma fantasia de fraternidade e alegria plenas.

Alguns poucos vão revelar amigos secretos em meio a uma farta ceia de tipicidades, vão esperar a meia noite para dar o abraço contido e desejar "um feliz natal" sem saber o que isso significa e, quando chegarem em casa, seus filhos correrão ansiosos para procurar o presente deixado pelo “Papai Noel” em algum lugar da casa.

Um amigo "rico" tem feito, nos últimos três anos, um jantar de Natal muito especial. Ele aluga alguns ônibus e na noite de 24 de dezembro, sai recolhendo pessoas pelas ruas e em bairros pobres de nossa cidade. Reúnem-se num salão e lá, ele e uma equipe servem um belo "jantar de natal". Sabemos que isso não resolverá o problema da fome nem da pobreza locais. Entretanto é nesse ambiente tão compensador que percebo que estamos mais próximos do que é a vida real. No último jantar perceberam uma senhora saindo com alguns copos cheios de comida do salão. Perguntaram o que ela iria fazer com aquilo e ela disse: "vou levar para minha filha que não pôde vir comigo", emendou em seguida: "moço, esse foi o melhor natal da minha vida". O melhor natal da vida dessa senhora que já havia passado por tantos deles. Não deu para conter as lágrimas. Em toda a ilusão desse dia a realidade falou e sempre falará mais alto.

Acabei de voltar de meu almoço. Almoço todos os dias. Tenho ido muito ao centro da cidade, onde, despercebidamente, posso ouvir histórias e observar pessoas. Cheguei ao local de praxe e meu lugar de costume estava ocupado. Era uma jovem, estética “assembleiana”, muito simples, mal vestida, já com alguns filhos. Olhei com reservas, afinal ela ocupava o "meu" lugar. Era um balcão e sentei-me dois bancos depois. Percebi que a dona do estabelecimento, uma japonesa sempre austera e carrancuda, estava, para meu espanto, carinhosamente insistindo para que ela e sua filha pequena comessem algo. Continuei a observar e ouvir. "E como vai a quimioterapia?", perguntou a dona da lanchonete colocando, em seguida, uma sacola cheia de comida e um guardanapo com dinheiro nas mãos da jovem. Pensei: "Não é justo, Senhor!!!". Uma jovem já com tantos filhos, com tanta dificuldade e na iminência de deixá-los órfãos por causa de um câncer. E como será o Natal dessas crianças. E como será o Natal dessa mulher?

Não interessa né?! Afinal o nosso lugar de praxe está garantido.

E não sou médico, sou pastor.

Fabricio Cunha







 

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