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As virtudes humanas


Luis A R Branco


A viagem era longa, e em pleno verão no sudeste asiático, três dias inteiros dentro de um trem super lotado que cruzava os estados de Maharastra, Chattisgarh, Jharkhand e West Bengal, assim eu começava minha aventura na Índia. Como nunca havia viajado de trêm não fazia a mínima ideia de como seria. Eu era jovem na época e na verdade não sabia nem mesmo quanto tempo duraria a viagem. Fui com a cara e a coragem, mas não levei duas coisas essenciais, comida e água.

Na ocasião não entendia nenhuma das línguas indianas e o inglês era complicado para entender e no compartimento em que eu estava a sensação era que ninguém falava inglês. Uma vez ou outra passava alguém vendendo algum tipo de comida, mas eram estranhas demais para meu noviço estômago missionário. Consegui comprar água e algumas bananas e assim seguia viagem por aquele aquela estranha. Foi quando à noite, na hora do jantar um homem, magrelo, alto, sem falar uma única palavra em inglês sentou-se na minha cama. Ele trazia uma bolsa e dali tirou uma toalha, a qual abriu entre nós dois, enquanto eu o observava curioso, ele começou a pôr sobre a tolha vários tipos de comida, aquilo que havia levado para si mesmo durante a viagem, juntou as mãos numa prece rápida e silenciosa e com gestos, me convidou para jantar com ele. Não falávamos a língua um do outro e comíamos em silêncio. Uma lágrima me escorreu pela face, pois ali acontecia o milagre da manifestação da virtude humana. A caridade, a bondade e a generosidade eram visíveis naquele amigo desconhecido. E assim voltava ele em cada refeição até o fim da viagem.

Temos a tendência de achar que as virtudes humanas são prerrogativas apenas daquele que é cristão, e nos surpreendemos quando um não-cristão demonstra com suas ações tão especiais, como aquele indiano fez comigo. Nunca mais o vi, não sei seu nome, nem onde mora, nem sua etnia, conheci apenas as suas virtudes. Mas será possível que um não-cristão seja um possuidor de virtudes tidas como tão nossas? Sim, ainda que isto nos espante! Deus não encolheu a sua mão graciosa da humanidade por ele criada. Seu amor não se restringe apenas aos cristãos, mas ao mundo todo (João 3:16). E neste ponto em particular, vou citar o texto a partir da parafrase de Eugene Peterson, A Mensagem: “Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho, seu único filho, pela seguinte razão: para que ninguém precise ser condenado; para que todos, crendo nele, possam ter plena vida eterna. Deus não se deu ao trabalho de enviar seu Filho apenas para poder apontar o dedo acusador e dizer à humanidade como ela é má.” (João 3:16-17 MSG). No entanto, parece que alguns cristãos assumiram o papel de Deus e apontam o dedo acusador a todos os que não são da “família de Deus”, como se estes fossem destituídos de qualquer virtude.

Não estou contudo, dizendo que não precisamos pregar o evangelho, que os não-cristãos não precisam da salvação, e que todos serão salvos. Isto é outra coisa! O que pretendo comunicar aqui é um aspecto da teologia que nós chamamos de “graça comum”. Wayne Grudem explica: “Graça comum é a graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação.” [1]. Isto significa que é perfeitamente possível que pessoas não-cristãs demonstrem virtudes genuínas.

A Bíblia nos dá alguns exemplos de pessoas não-cristãs ou não pertencente a nação de Israel, mas que demostraram virtudes que favoreceram o povo de Deus e a sua obra. Como o espaço é pequeno, posso me referir a dois casos no Novo Testamento. O primeiro está em João 1:47, no encontro de Jesus com Natanael, sobre o qual Jesus diz: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade!” (BKJ). Jesus observou uma virtude neste homem comum, e fez questão de ressaltá-la. Um outro exemplo podemos ver em Mateus 8:10, na narrativa do pedido do centurião romano pela cura do seu servo, sobre o qual Jesus disse: “Com toda a certeza vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei alguém com tão grande fé.” (Mateus 8:10 BKJ). Além da fé, podemos observar outras virtudes neste centurião, compaixão pelo seu servo, humildade em ir ter com Jesus, e sinceridade quanto ao seu estado pecaminoso.

Caminhando para o final deste artigo pergunto a você caro leitor: Será possível que não cristãos demonstrem virtudes humanas louváveis? Será possível encontrar algum tipo de fé mesmo naqueles que nunca entraram numa igreja evangélica? Será que a graça de Deus está restrita aos cristãos ou reconhecemos que há uma graça comum e que tem criados pessoas maravilhosas mesmo fora da igreja e do cristianismo. A esta altura acredito já ter escandalizado alguns, mas o fato é que as virtudes humanas não são prerrogativas do cristianismo ou das igrejas evangélicas. Acredito também que alguns já possam estar dizendo: “Sim, mas isto não significa que são pessoas salvas.” Eu não estou falando aqui da salvação, vou deixar isto para outro que desejar escrever sobre o tema, meu interesse neste texto está na humanidade e em mostrar que todo ser humano é uma mistura de luz e trevas, confiança e medo, amor e ódio. Vejamos o brilho do sol, os pássaros que cantam e as estrelas que brilham a noite. Cada ser humano faz parte deste universo maravilhoso e perfeito criado por Deus.

Quando olhamos para figuras como Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, Dalai Lama, Chico Xavier e tantos outros, ficamos impressionados com virtudes demonstradas por estas pessoas, em termos de caráter e cuidados para com o próximo. Não estou contudo dizendo que tais pessoas são salvas, como também não sei se alguns que estão com os nomes do rol de membros da minha igreja estão. Neste momento, tal como Paulo, estou trabalhando para guardar a minha própria fé (2 Timóteo 4:7). Não tenho dúvida da minha salvação, mas não quero perder meu tempo apontando o meu dedo dizendo este é salvo e este é perdido. A salvação pertence ao Senhor (Jonas 2:9), meu interesse é reconhecer que há virtudes humanas maravilhosas na vida de muitas pessoas que tradicionalmente daríamos como perdidas.

Precisamos purificar mais nossos olhos ao olhar para a criação e para a humanidade, isto nos ajudaria não só a redescobrir a bondade, compaixão, amor, amizade, generosidade e tantas outras virtudes, como também o próprio Deus. Rubem Alves escreveu: “Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida.” [2]. Esta beleza da criação e das criaturas nos enche o coração de esperança, esperança de uma sociedade melhor e de um mundo mais justo. A esperança nos diz que a vida é mais forte que a morte, que a luz é mais forte que as trevas e que o amor é mais forte que o ódio.



Luis A R Branco é colaborador do Genizah


[1] Teologia Sistemática, Wayne Grudem, Editora Vida, pág. 297.
[2] Teologia do Cotidiano, Rubem Alves, Olho Dágua, pág. 80.







 

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