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Decisões de vida e morte no dia a dia do Caminho Nações


Marcelo Quintela

Projeto Oásis no Deserto | Decisões de vida e morte no dia a dia do Caminho Nações
Um sacrifício, uma salvação, um orfanato!
Ano de 2012. Sul da Nigéria.

Caso: Michael, 7 anos, “criança-bruxa” resgatada pela equipe Way to the Nations (Caminho-Nações) na África.


Ele que nos procurou com a cabeça rajada vazando a ferida de uma pancada tomada com uma barra de ferro. Michael. Vamos salvar o Michael. É para isso que o Leonardo, diretor na Nigéria, está programado aqui no Campo.

Mas a polícia mandou devolver o Michael ao pai que o expulsara de casa. O pai foi obrigado a receber de volta o suposto causador de sua miséria, o menino que amaldiçoou sua casa e impedia a prosperidade prometida nos “sacrifícios” encomendados no templo “evangélico” que alimentava as loucuras dessa superstição (UNICEF, 2010).

Michael tinha medo do pai. Michael não tinha mãe. Michael só tinha a gente. Mas a gente cumpriu a ordem policial. Estigmatizar crianças na Nigéria agora é crime. Mas é lei de papel. Nossa equipe suspeitava de maus-tratos persistentes. Tivemos que manter o menino sob fiscalização nessa volta ao “lar”.

Leonardo foi vê-lo, então. O jovenzinho estava jogado na lama em frente sua casa, tratado feito um cão. Entrevistado, dizia baixinho e assustado que durante o dia era posto para fora, e durante a noite seu pai o trazia para dentro. Ele estava com fome, com sede, sem roupas. O Leonardo não pensou duas vezes e seguiu seu instinto: vamos levá-lo daqui agora!

Michael teve um dia muito especial com o Leo, foi vestido e alimentado.

Comeram juntos, riram, trocaram afetos, e ele conheceu a história do homem mais amaldiçoado nesse mundo dos homens, Jesus – Aquele que disse que dos pequeninos pertencia Seu Reino. Michael ficou sabendo que o Reino de Deus é o Reino do Michael!

Mas e agora? Que decisão tomar? Devemos arrancar o menino de seu pai-carrasco mesmo contra a ordem policial, correndo o risco de sermos expulsos do país e abandonar todas nossas outras crianças? Não tínhamos ainda nosso orfanato à época e levá-lo poderia se configurar em sequestro num lugar de tráfico de órgãos e da mediação criminosa de corretores-de-crianças que as vendem para pais inférteis em países ricos.

Então, a equipe se reuniu. Nossos amigos nigerianos, conselheiros, procuravam convencer o Leo dos riscos de manter o garotinho conosco. Temeram pela deportação do Leo, que acabou ficando sem o apoio do staff na ânsia que tinha de sequestrar o Michael. O que todos temiam era perder o Leo. Compreensível. Ele, por fim, acatou os conselhos do bom-senso e da auto-proteção da Missão. Promoveu-se um encontro com o pai para tentar mudar sua consciência, implorando que revisasse sua fé, que não tem qualquer correspondência com o Evangelho que um dia já inspirou o cristianismo. Mas fundamentalistas são pessoas descerebradas, arrogantes, cheias de ódio e certezas inabaláveis que escondem um medo desgraçado de tudo e de todos! Um fundamentalista não se enxerga. Ele só enxerga conspirações.

Fim desse dia de acolhimento, uma moto foi alugada and bye-bye little boy!


Nunca mais vimos o Michael.
Tentamos muito.
Mas nunca mais ninguém da vizinhança viu o Michael.
A verdade é que enviamos o Michael de volta para os braços da morte.

Inconformado, o Leo o procurou por muito tempo, em muitos lugares, como quem procurar uma remissão para sua própria decisão. Se ele encontrasse o Michael já tinha prometido no coração que ninguém o arrancaria de nós, nem polícia, nem distâncias, nem liderança alguma (Sinceramente, sei que se trata de um delírio apaixonado de alguém que já não teme mais). Foi um ano caminhando por abismos e florestas, e nada… Alguém resolveu ajudar o Leo: Man, desista. Só você não sabe que o menino já esta morto! Acabou!

Sim, o Michael é mais uma vítima dessa insanidade que bruxificou a alma dos cristãos por aqui, a ponto de abandonarem seus filhos. O Michael foi assassinado aos 8 aninhos… O Reino de Deus é o Reino do Michael…

Mas deixa-me contar só mais uma história. Garanto um final feliz. Eu não sou tétrico. Eu queria que só houvessem finais felizes… Mas quero que você faça a conexão entre as história, e o peso de vida e morte em cada passo que se dá nesse chão de armadilhas.
Porque foi o Michael que salvou o Bobó.

Caso: Ito Thompson, apelidado Bobó, de 4 aninhos, foi encontrado pelo Way to the Nations à beira da morte no orfanato que o recolheu para mantê-lo em estado de desgraça controlada e fazer dinheiro com ele. Mas perderam o controle. O menininho teve uma parada cardíaca na semana que vinha evacuando sangue, e ninguém estava nem aí… Esquelético, desnutrido, com o intestino prolapsado devido a total falta de gordura que sustentasse seu reto, o Bobó ia morrer!

Só que não…

Todo mundo salvou o Bobó. Você salvou o Bobó. O Leo salvou o Bobó. Mas foi o Michael que salvou o Bobó.

Porque o Leo lembrou do Michael e disse: Não, agora não! Agora vai ser diferente! E arriscou-se tudo pelo Bobó, e fechando os ouvidos para os receios, tiramos o menino do orfanato no qual ele está registrado sem consultar seu “dono”, depois o arrancamos do hospital local que nos cobrava as diárias da enrolação! O “médico” saiu correndo atrás do carro, gritando que o menino não recebera alta ainda. O Bobó, na verdade, estava bem pior depois dos cuidados dessa clínica local. Então, mandamos reforços do Brasil, contatamos amigos em Lagos, a São Paulo nigeriana, encontramos um hospital de cirurgiões e pediatria, e aí o Leo sequestrou o Bobó de vez e o colocou dentro de um avião para Lagos. Ao desembarcar, o Leo foi preso sob suspeita de tráfico infantil. O Tony, enviado do Maranhão, prosseguiu com a Missão e internou o Bobó. O Brasil pagou tudo que foi preciso. O Bobó ganhou peso, vitalidade… Até sorriu. Foi operado. Seu intestino foi posto para dentro de novo. Sua nutrição garantiu o sucesso da intervenção.

Da cadeia, o Leo lutou por sua libertação e ligou aos berros para a embaixada inglesa. Mineiro com cidadania britânica, o Leo assustou os policiais que não conseguiam provar nada contra ele, e foi liberado, pegou um avião para qualquer parte do mundo, pousou na Turquia, e de lá voltou para casa, em Londres, para dormir em paz com a Ayla e seus dois filhotinhos.

Bobó caiu de amor nos braços do Tony, seu Dad… E juntos cantavam a música brasileira do Rappa: Valeu a pena, valeu a pena! Sou pescador de ilusões…

Michael finalmente caiu de amor nos braços de Deus, seu Dad…
Bobó voltou ressuscitado para o orfanato.
Mas a gente nunca mais vai devolver nenhum pequenino para quem não os ama. Por isso, o orfanato hoje é nosso! Cinquenta e oito crianças que o Bobó salvou, que o Michael salvou…

“E quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração.
E quem irá dizer que existe razão.”

Acima, Michael (in memoriam) e Bobó (encontrado como se vê neste vídeo: http://youtu.be/PcoTGaAXxJQ

Michael, um beijo na sua alma, filhote. Valeu a pena!

Em julho de 2013
De Dakar, Senegal
Dr. Marcelo Quintela




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