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Censura, truculência e ameaças. Bola de Neve mostra a sua cara novamente



Bola de Neve tenta impedir o lançamento de livro, baseado em dissertação de mestrado, tratando das estratégias de marketing da organização religiosa. Segundo o autor da obra, a BDN está promovendo uma campanha de constrangimento envolvendo processos, intimidação nas redes sociais, truculência e ameaças veladas.


Danilo Fernandes

Outubro marcou a discussão na mídia em torno da produção de biografias e produziu acaloradas discussões e sustos homéricos, quando testemunhamos atônitos figuras como Chico Buarque, Roberto Carlos e Caetano Veloso defendendo a censura prévia por parte de biografados (ou de seus herdeiros) ao conteúdo das obras biográficas -ou ainda que fosse pela criação de algum tipo de aparato legal adicional, estabelecendo limites e regras de conduta para os autores de biografias, garantindo direito de veto por parte dos biografados sobre as obras contendo versões de sua história pessoal, além do compartilhamento dos lucros auferidos pelas referidas obras.

Longe dos holofotes seculares, mas perto dos nossos interesses, outubro também foi marcado pelo início do litígio entre o autor do livro "A grande onda vai te pegar: marketing, espetáculo e ciberespaço na Bola de Neve Church" e a própria agremiação religiosa. Como já é de hábito entre as denominações neopentecostais, a crise envolveu a truculência do líder da organização religiosa,  o autointitulado apóstolo Rinaldo de Seixas, da Bola de Neve Church.

Segundo o autor do livro, Eduardo Meinberg Maranhão (Du), em pouco menos de um mês, desde os primeiros anúncios do lançamento do livro nas redes sociais já foram duas ações judiciais – em primeira e segunda instâncias- tentando impedir a circulação do seu livro. Ambas indeferidas pela justiça. Contudo, isto não impediu a direção da Bola de Neve de seguir constrangendo o autor do livro. Em mensagens trocadas pelo Facebook, Du nos contou: “Durante o lançamento, um advogado da igreja descrita, acompanhado de dois rapazes de porte avantajado, procuraram impedir o lançamento, dizendo que caso eu lançasse o livro, eu iria ter problemas“. 

Segundo Du, a ação pretendia impedir a circulação da obra alegando o uso do nome da igreja na capa. Como pudemos apurar  junto a especialistas na matéria, o artigo Art. 20. Do código civil (referente a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.) não se aplica neste caso, uma vez que a obra envolve matéria de interesse público. E não poderia ser diferente. A Bola de Neve é uma igreja mundialmente conhecida e a obra se fundamenta na dissertação de mestrado do autor pela UDESC, seguindo as orientações do comitê de ética da cátedra e recebendo bolsa da própria universidade e da CAPES.



A ação já foi julgada em segunda instância pelo juiz Alexandre Marcondes (VEJA AQUI) que deu efeito suspensivo ao recurso dos advogados da igreja decidindo em favor da livre circulação da obra e pela liberdade de expressão: “Em verdade, trata-se de tese de pós-graduação que se converteu em livro comercial. O interesse público é inegável. A agravante, apesar de ser pessoa jurídica de direito privado, possui finalidade de congregar fiéis para o livre exercício do direito de culto. Constata-se, assim, que é uma instituição que congrega interesses públicos e privados. Logo, qualquer escrito minimamente sério e analítico sobre a Igreja e seus métodos se reveste de interesse público, a ser tutelado juridicamente. Além disso, a obra produzida pelo agravado consiste em trabalho acadêmico, elaborado no seio de curso de pós-graduação em História, ambiente vocacionado à pesquisa, conjecturas e manifestações de ideologia. No mais, a divulgação do livro será útil a toda comunidade acadêmica interessada no assunto, o que já denota a cientificidade e o interesse público que acompanham a liberdade de expressão do agravado. Impraticável a concessão de liminar, em sede de cognição limitada, diante do que acima se expôs. Não existe flagrante e manifesta violação a direitos da personalidade e de marcas, em confronto com o direito de igual estatura de livre expressão e manifestação do pensamento”.


A truculência da Bola de Neve

Não é a primeira vez que o líder da Bola de Neve, o senhor Rinaldo Seixas, usa de truculência para impedir criticas públicas às suas estratégias de marketing religioso e a teologia de sua seita. Este blog já sofreu até tentativa de hackeamento, fartamente documentada. Há dois meses a revista especializada em surf Hardcore produziu uma matéria sobre a denominação e revelou alguns meandros pouco conhecidos da organização, com base em testemunhos reais, desligados da influencia da direção da seita (LEIA AQUI). Como resultado da matéria, a revista sofreu enorme pressão de milhares de fiéis da BDN, coordenada pelo próprio Ap. Rina, como pode ser visto AQUI. Diante de ameaças de processo e pressão de leitores e anunciantes a Hardcore recuou. A revista produziu uma retratação genérica e lacônica e o editor da publicação perdeu a sua função.

A revista de surfe sofreu enorme pressão orquestrada de membros da Bola de Neve


Marketing de Guerra

Como pode ser visto no resumo da dissertação que deu origem ao livro (AQUI), a proposta do trabalho é identificar como como a BDN se miditiatiza e se insere no contexto da espetacularização e mercadorização típicos deste nosso tempo, já invadindo também as igrejas evangélicas. Obviamente, e este deve ser o principal temor dos líderes da BDN, a observação está construída a partir de uma visão mercadológica do fenômeno (i.e. vislumbrando a organização como um negócio comercializando um produto para um determinado público consumidor) e o autor adiante na sua dissertação faz referencia a conceitos típicos do chamado marketing de guerra. Ou como define o Du Meinberg, marketing de guerra SANTA: “O mercado religioso no qual se inserem as agências que praticam este tipo de marketing passa por contextos de adequação ao capital simbólico e ao arcabouço cultural dos fiéis, sendo possível identificar o investimento ideológico e econômico na fabricação e veiculação de suas estratégias, discursos e mercadorias. O objetivo é o de perceber algumas das maneiras com as quais firmas religiosas (tomando como maior exemplo as igrejas neopentecostais) veiculam as mercadorias que produzem ou se apropriam, e os discursos que reverberam, relacionando-os a uma cultura de massa e a uma sociedade espetacular; fomentando a discussão sobre como tais igrejas e outros segmentos religiosos aplicam o marketing de guerra santa para melhor posicionarem sua marca no mercado e conquistarem mais fiéis.”

Du, ele próprio, antes inserido na cultura dos alvos do proselitismo da Bola de Neve, foi membro de denominação em Santa Catarina e conheceu de dentro as práticas e estratégias da organização religiosa.

O autor também explora algumas estratégias de marketing da instituição demonstrando o processo de mudança de discurso da BDN a partir da mudança perfil de seus fieis, inicialmente focado nos jovens surfistas de classe média alta e, depois em público mais amplo contemplando o envelhecimento do seu target inicial e outros grupos de classe média alta, mas sempre com  ênfase no discurso na questão do corpo, drogas e sexualidade. Neste LINK, temos um artigo baseado na dissertação do autor apresentado na revista Mandrágora da Metodista. Vale a pena conferir.

O livro promete

 A dissertação e o livro não avançam nas questões teológicas da doutrina da Bola de Neve. Imagine, caros leitores, se o fizessem? Seria um tsunami de dimensões bíblicas nas hostes da BDN, como acontece quando a mesma se pronuncia sobre o que escrevemos nos blogs da nossa comunidade virtual. Entrementes, com base no artigo publicado na revista Mandrágora AQUI, a proposta do livro, de um olhar histórico, sociológico e mercadológico, promete muito e despertará interesse na nossa comunidade.  Para os interessados: Já há uma página no Facebook com informações sobre o livro (https://www.facebook.com/pages/A-grande-onda-vai-te-pegar-Marketing-espet-e-ciber-na-Bola-de-Neve-Church/600883706638627?fref=ts ), além do site da editora Fonte Editoria que edita a publicação (http://www.fonteeditorial.com.br/).

Provocação

A partir da leitura do material acadêmico disponível, constatamos que a questão da homofobia foi abordada pelo autor em sua dissertação, no contexto da análise do discurso da denominação. 

Du Meinberg dissertou sobre o discurso da Bola de Neve destacando a aparente ambiguidade do mesmo,  ao mesclar a flexibilidade em relação aos hábitos e atitudes do público-alvo inserido na subcultura do surfe e dos esportes radicais (alvo inicial da seita) e a rigidez fundamentalista dos chamados "usos e costumes" (com destaque para a promoção da castidade, o namoro cristão e o repúdio à homossexualidade e às identidades de gênero desviantes). 

O lançamento do livro contou com uma apresentadora provocativa.

Na sua análise, o autor demonstra como este discurso, ao contrário de ambíguo é, na verdade, resultado de uma negociação “de mercado” e foi construído a fim de responder as expectativas da maioria dos fieis, garantindo os melhores resultados financeiros, traduzidos na conquista e manutenção de novos membros. Segundo Du Meinberg, as normatizações que regem estes temas comportamentais costumam receber amparo em apropriações de versos bíblicos descontextualizados, enquanto a flexibilização ocorre para garantir um espaço para o público-alvo da organização a salvo da caretice impostas por outras denominações cristãs em questões relativas à: vestimentas, tatuagens, esportes, culto ao corpo, etc.

Neste contexto, seria o fato da festa de lançamento ter sido organizada e apresentada pela drag queen Tchaka algum tipo de provocação?



 

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