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Não posso mais 'bater cabeça'", diz Tom Araya, do Slayer, o crente metaleiro

Foto: Getty Images
TERRA
David Shalom

"Não posso mais 'bater cabeça'". A afirmação foi feita pelo vocalista e baixista do Slayer, Tom Araya, na última segunda-feira (6), dia em que concedeu por telefone uma entrevista exclusiva ao Terra, direto do hotel onde estava hospedado em Buenos Aires. A banda norte-americana se apresentou ontem em Curitiba e faz show em São Paulo nesta quinta-feira (9).



A justificativa para a nova regra na vida do músico, há 30 anos acostumado a jogar para frente e para trás a longa cabeleira - o termo bate-cabeça vem da expressão "headbang", em inglês -, é médica, consequência de uma cirurgia nas costas a que foi submetido no ano passado. Infelizmente, não é só ele que vive um ano difícil no quarteto, o precursor do estilo thrash metal, conhecido por seu peso, velocidade e letras endiabradas.

Jeff Hanneman, guitarrista da banda, foi hospitalizado em fevereiro deste ano após ter uma séria infecção no braço direito causada pelo veneno de uma aranha venenosa que o picou. O fato o levou a ser substituído por Gary Holt, do Exodus, na turnê atual. "Não foi uma decisão fácil de ser tomada, mas ter um amigo para te ajudar e que ainda é um tremendo guitarrista deixou tudo mais simples. Não poderíamos fazer essa substituição com outra pessoa".

Bastante simpático e bem-humorado, Araya, que completou 50 anos de idade no dia da conversa, falou sobre os mais variados assuntos, inclusive alguns bastante espinhosos, como o processo judicial sofrido pelo Slayer em 2000, quando uma família acusou suas músicas de terem influenciado três jovens a assassinar brutalmente uma garota de 15 anos em um ritual macabro. "Aquilo nos fez perceber o quão perigoso pode ser o que fazemos. Foi um período bastante nervoso".

Confira a entrevista completa a seguir.


Terra - Primeiramente, feliz aniversário.
Tom Araya - Obrigado, muito obrigado. Você é o primeiro a me desejar isso sem contar a minha mulher (risos).

Terra - Como está Jeff Hanneman?
Tom - Ele está indo bem, tocando sua guitarra, cuidando de sua saúde. Vai demorar ainda um tempo para que volte a se juntar a nós, mas ele está melhorando.

Terra - Vocês só voltam a gravar com ele na guitarra?
Tom - Sim, quando ele estiver pronto, conseguir escrever músicas e voltar ao estúdio, nós voltaremos a gravar.

Terra - Como encara o fato de estar no palco sem ele?
Tom - Não é fácil fazer isso. Sabe, nós temos estado no palco juntos por 30 anos e não foi uma decisão fácil de ser tomada fazer a turnê sem ele. Mas nós estamos com Gary Holt (do Exodus), que é um tremendo guitarrista, e ele está tocando muito, muito bem. Fica mais fácil fazer isso quando você tem um amigo para te ajudar. Nós conhecemos o Gary há quase 30 anos, ele é um grande amigo do Jeff e eu não acho que nós poderíamos fazer essa substituição temporária com nenhuma outra pessoa que não fosse o Gary, sabe? Ele está indo muito bem, sua guitarra soa otimamente, então estamos conseguindo lidar com esse problema.

Terra - Você também teve um problema no início do ano, mas com tonturas que atrapalhavam sua performance no palco. Como está agora?
Tom - Há um ano e meio eu tive que passar por uma cirurgia nas costas. E, apesar de ter me recuperado muito bem, de não ter mais nenhum problema, eu estava com um nervo doendo demais, afetando todo o lado esquerdo do meu corpo, especialmente o meu braço e o peitoral. Agora estou bem melhor, não tenho mais isso, mas não posso mais "bater cabeça" (headbang). Isso chegou a ser um problema no início, mas não é mais.

Terra - Desde então, você nunca mais "bateu cabeça"?
Tom - Não, eu realmente não posso.

Terra - Sua cidade natal, Viña del Mar, no Chile, o homenageou no último fim de semana. Como você encarou isso?
Tom- Foi demais, uma grande honra. Foi um evento bem formal, com discursos e tudo o mais, e eu me senti muito honrado pelo fato de eles terem me homenageado por representar o Chile e por ter nascido em Viña del Mar. Fiquei muito orgulhoso.

Terra - Foi também a primeira vez que você tocou com o Slayer na cidade. Qual foi a sensação?
Tom - Foi um grande show, realmente demais. Foi tremendo! Eu senti o amor...senti o amor (diz em português e dá risada).

Terra - Qual é a sua relação com o Chile e com a América do Sul em geral? Você vem para cá com alguma frequência?
Tom - Sabe, eu só venho para cá quando o Slayer toca. Isso torna nossas turnês por aqui muito especiais, porque é muito raro virmos à América do Sul. Eu gostaria de vir para cá para apenas visitar, pois amo o continente. Faz parte do meu sangue, então todas as vezes que estamos na América do Sul é muito especial, pois ela é parte de mim.

Terra - Você é uma pessoa que se diz muito cristã. Qual é a sua relação com a religião?
Tom - Eu sinto que tenho uma relação muito próxima com Deus. Isso é entre mim e ele (risos). Mas, sabe, na verdade não vou à igreja. Eu rezo, rezo em casa, rezo com meu coração, rezo com a minha família, que também tem sua própria relação com Deus. Eu sempre digo que sou católico ou cristão, pois nasci nisso, fui criado para o catolicismo. Mas, na verdade, sou mais cristão, tento viver mais como cristo, sabe? "Faça com os outros o que gostaria que fizessem com você". Quero dizer, é tudo sobre amor. É assim que eu e minha família tentamos viver.

Terra - Você já recebeu críticas por sua relação com o cristianismo e o fato de as letras do Slayer falarem de temas totalmente opostos à religião?
Tom - Sim, eu recebo críticas, mas, quer saber, f...-se (gargalhadas). Eu sei que essa não é a forma cristã de dizer, mas essa é a minha maneira (risos).

Terra - Os assuntos pesados das canções do Slayer te aproximaram de alguma forma da religião?
Tom - Eu acho que a religião por si própria significa "eu faço o que faço". Eu tenho um entendimento diferente do que fazemos, de escrever sobre o demônio. Quero dizer, tenho um entendimento melhor dele, pois não é com a figura do diabo que me preocupo e sim com o demônio da humanidade, a sociedade, que é muito feio. Sim, ele é, e, sabe, isso fala por nós, às vezes de uma forma muito alta (risos).

Terra - No ano 2000, a família de uma menina assassinada aos 15 anos de idade por três garotos em um ritual macabro processou o Slayer alegando que a banda os havia influenciado na forma como a mataram. Como vocês encararam esse caso?
Tom - (pensativo) Bem, eu me senti açoitado, mas a verdade a ser dita é que o verdadeiro diabo não era aquele ao qual as pessoas se referem ou o Slayer. O verdadeiro diabo foi a humanidade naquele celeiro. Nós, como humanos, somos pessoas muito feias, podemos fazer coisas muito feias e más uns com os outros. Sabe, eu sempre soube que a verdade chegaria à tona (a banda foi inocentada no processo), mas por causa dos homens e de suas leis, às vezes esse não é o caso. Então eu estava um pouco receoso, muito nervoso com isso, pois as leis do homem podem não ser justas com as pessoas. Por isso, eu estava um pouco nervoso, todos nós estávamos. Eu não quero dizer o termo com medo, mas estávamos muito receosos com o rumo que as coisas poderiam tomar, pela forma como é o mundo e de como as leis da sociedade funcionam. Foi um período bem nervoso para nós.

Terra - Isso afetou o Slayer de alguma forma, como em sua música?
Tom - Não nos afetou musicalmente, mas espiritualmente. Nos fez perceber o quão perigoso pode ser o que fazemos. Quero dizer, não estou preocupado sobre como o que fazemos afeta as pessoas, é a responsabilidade do que as pessoas dão às coisas que as afeta. Esse é o perigo, pois as pessoas podem ser muito más. Elas querem acreditar e apontar o dedo culpando outras pessoas pelo que fazem e é aí que o perigo mora.

Terra - O fato de os integrantes do Slayer não acompanharem o Metallica e as outras bandas do Big Four (Anthrax e Megadeth) na execução de Am I Evil, do Diamond Head, de alguma forma criou um ambiente ruim entre vocês?
Tom - Não, de forma alguma. Sabe, eu provavelmente fiz isso só uma vez. Foi com o Soufly, de Max Cavalera, com quem escrevi uma música. Essa foi a única vez que eu me juntei a uma banda para fazer algo do tipo. Sabe, para mim, não é a música apropriada. Quero dizer, Am I Evil (serei eu mal?), nhé (som de desprezo), nós sabemos que somos (risos), não precisamos cantar uma música sobre isso. Para mim, a canção apropriada para esse encontro, aquela que me faria subir ao palco para tocar, seria The Four Horsemen (do primeiro disco do Metallica, Kill´Em All, de 1983), pois ela representa aquilo que estamos fazendo. É uma música que significa mais para mim, pois representa o que realmente é o Big Four, o que fazemos. Quero dizer, nós chegamos às cidades e trazemos doenças e vícios (gargalhadas). 



Genizah discorda, risos. Tem crente que bate cabeça, risos.







 

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