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REBELDES SIM; SEM CAUSA, NÃO


Fabricio Cunha



“Eu vejo na TV, o que eles falam sobre o jovem não é sério. O jovem no Brasil nunca é levado a sério”. Chorão não viveu pra ver a sua afirmação na música ser refutada por um sem número de manifestantes que foram/estão nas ruas de nosso país nesses dias. Jovens em sua maioria.

De todo o incompreendido desse momento, arrisco tentar entender e comentar algumas coisas que vi e ouvi.

Movimento de Pessoas Mais do que de Grupos

É inegável que esse rebuliço todo teve como ponto de partida o descontentamento quanto ao aumento do transporte público na cidade de São Paulo, capitalizado pelo Movimento Passe Livre. Eu estava na primeira manifestação que se deu na Av. Paulista no dia 06 de junho. Foi bem barulhenta, mas pequena em expressão e representatividade.

Também fui nas duas que se seguiram.Quanta diferença. Especialmente na do dia 17 de junho.

Eram jovens que chegavam de todos os lados, de dois em dois, três em três, ou sozinhos. Perguntei para alguns de onde vinham. Faculdade, igreja, prédio, trabalho. Vinham pelo ímpeto de se manifestar. Não faziam parte de nenhum movimento organizado, mas sentiam-se fortalecidos pelo senso de pertencimento a algo maior.

O movimento não é acéfalo, mas não tem um cérebro só, nem uma só face. Ele é “multicéfalo” e multifacetado, e vive bem assim.

Múltiplas Causas

O aumento e as péssimas condições do transporte público foram os disparadores do movimento, a sua causa primeira. Mas os cartazes, os gritos, as mensagens, os nomes dos grupos convocadores nas redes sociais denunciavam a multiplicidade das causas apresentadas pelos manifestantes.
A causa primeira foi a gota que fez transbordar a jarra.
O que ninguém imaginava, nem mesmo o povo, era que as causas eram comuns a tanta gente. Que mesmo sem organização formal, sabia-se pelo que gritar.
E gritaram.
E estão gritando.

Convocatória Virtual

Qual foi o fator comum de convocação dessa massa toda? A internet, especialmente as redes sociais. A facilidade de mobilizar e convocar via redes mostrou sua força como nunca em nosso país.

Enquanto muitos ainda tencionam e questionam a importância desse “mundo virtual”, essa geração “nativa digital”, como diz o pesquisador Volney Faustini, faz das redes sociais a sua principal mediação relacional e, por que não, existencial.

Foi nas redes que os temas se multiplicaram de forma viral, ganharam organização mínima e legitimidade para convocar tanta gente, em tantos lugares. Foram os vídeos que serviram tanto como motivação quanto como provas em relação aos exageros de ambos os lados.

Reporte Independente

As grande mídias ficaram de fora desse processo. Foram pegas de surpresa tanto quanto o Poder Público. Precipitaram-se em criminalizar o movimento e tiveram que, mesmo tacitamente, se retratar depois, para não serem colocadas, de forma radical, à parte do processo.

Simpatizaram-se com as manifestações; primeiro porque também foram alvo da truculência da polícia e depois porque não se colocariam contra, como fizeram no início, a uma multidão grande e exponencial.

Mas os reportes mais fiéis, vistos, lidos e multiplicados foram os feitos por gente comum, que estava dentro das manifestações. E foi feito pela internet. Fotos e vídeos que correram mundo afora. Transmissões feitas pela internet ao vivo, direto dos locais das concentrações. Gente que abriu suas redes de wireless para facilitar a conexão de todos nas redes sociais.

Os grande veículos de mídia erraram em quase tudo. Confundiram os temas, se equivocaram ao darem nomenclaturas aos grupos, criminalizaram o todo por conta de uma minoria, não sabiam quem chamar pra conversar, enfatizaram o que foi negativo.
E, por tudo isso, foram colocados pra fora da “panela”, pelo próprio “caldo”.


Insatisfação com a Classe Política

Os disparadores desse momento são muitos. O que têm em comum? Uma substancial insatisfação com a classe política por alguns motivos:

• Corrupção crônica – a corrupção na política brasileira se tornou endêmica. Muitos políticos já assumem seus mandatos com compromissos de campanha espúrios e atuam mais comprometidos com os financiadores de suas campanhas do que com um ideal ou projeto político. Sem contar os que encontraram na política o instrumento para seu enriquecimento ilícito, que não são poucos;

• Descomprometimento com a ética – a classe política não demonstra estar comprometida com decisões que favoreçam o país e sua população. Tem um discurso muito pouco conectado com aquilo que fazem de fato em seu dia a dia. Questões como o foro privilegiado e a demora em aprovar a “ficha limpa” são expressões do medo que a classe tem daquilo que é ético e correto;

• Dicotomia entre eleição e mandato – os projetos de campanha e suas promessas já se tornaram motivo de piada por parte do eleitorado. Em geral, se guardarmos os vídeos, áudios e impressos da época de campanha, que contemplem as promessas do candidato, a porcentagem de compromissos cumpridos é pequena. Assim uma campanha que deveria ser a apresentação de um projeto político que gerasse interesse da população em conhecer as propostas dos candidatos, virou um “carnaval” de ofertas não cumpríveis e, por isso, muito desacreditadas.

• Pseudo-politização dessa geração – o descrédito com a política gerou um desinteresse generalizado que, por seu vez, estabeleceu um desconhecimento das engrenagens que movem a política partidária, instrumento pelo qual nossos representantes se candidatam e atuam. Muitos partidos, de fato, parecem mais quadrilhas organizadas. Mas em nossa democracia representativa, os partidos políticos ainda são o meio pelo qual alguém se candidata e exerce um cargo público eletivo. Assim, rasgar bandeiras e dizer que os partidos não nos representam soa cult e engajado, mas expressa o desconhecimento que a juventude tem de nossa máquina política. Os partidos não são os únicos instrumentos de nossos exercício político cidadão, mas, no que diz respeito às eleições, ainda são um instrumento importante que precisa ser considerado e conhecido. É certo que já não carregam mais a carga ideológica que outrora os caracterizou, mas ainda, mesmo que não mereçam, são instituições legítimas e necessárias em nossa configuração.

Patriotismo Bonito

De todo esse momento, o que mais me causa espécie é a devolução do senso de patriotismo ao brasileiro, esse ser tão desconfiado e envergonhado de si mesmo.
Não um patriotismo fake, mas, antes, um orgulho bonito de se gritar: “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.”

Em todas as manifestações que participei, cantamos o hino nacional, juntos, orgulhosos, a plenos pulmões, mas sem perder o “tempo da música”.

Os 90 segundos da FIFA não seguraram a vontade de cantar.
Voltamos a gostar de ser brasileiros.
Ser brasileiro é bonito.
Brasileiro não se cala. Grita. Não se cansa. Luta.


Fomos tomados de uma santa rebeldia nesses dias. Não estamos satisfeitos com aquilo que vemos. No meio dessa massa toda, claro, tem coisa podre. Mas a massa é boa e seu fruto será bonito.

As causas são muitas, mas são! Existem! Estão nos cartazes das crianças, dos jovens, dos velhos, escritas em letras grandes, lidas em voz alta pra que todo mundo leia e ouça de forma muito clara.

Somos rebeldes sim, sem causa, não!


Fabricio Cunha colabora com o Genizah






 

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