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Quinze reais

por Zé Luís

-Moço... posso lhe pedir um favor? - disse a desconhecida magricela de cabelos desgrenhados, com sua criança suja e magra a tiracolo.

Foi durante a hora do almoço que ouvi a história, enquanto caminhávamos pelas ruas do centro de São Caetano do Sul para fazer a digestão.

Renato, a pessoa que me contou o episódio, um corintiano do qual nunca ouvi falar sobre religião ou política, disse estar distraído diante de seu prato de comida quando a moça o abordou. Na época, ele prestava serviços de informática em uma rede de lojas de varejo e parou naquela filial para almoçar em um restaurante barato da região. Ele nem percebeu quando ela entrou no estabelecimento e seguiu em direção à sua mesa.

-Pois não? - respondeu ele, sem se atentar a quem era e ao que veio.
- Se sobrar alguma coisa do seu prato, o senhor poderia deixar no prato ao invés de jogar fora?

A comida entalou na garganta, assim como meus olhos marejaram ao ouvir o relato. A mulher estava faminta dentro de um restaurante de periferia de São Paulo: ela só queria o resto da comida, caso sobrasse um osso de frango e umas colheradas de macarrão.

Quem mora por aqui está acostumado com os pedintes profissionais, mas naquele momento, Renato não parou para pensar nisso. Levantou-se, mandou que ela senta-se com sua criança de colo numa mesa ao lado, e pediu para o garçom servisse-a com o que ela quisesse do cardápio.

Ela sorria e chorava diante da refeição servida, e comia desesperadamente, intercalando colheradas de feijão e arroz com a criança esfomeada de olhos esbugalhados que permanecia de boca arreganhada na esperança da próxima porção de comida.
- Olha moço... posso comer lá fora – disse ela ao garçom – só permite que eu leve o prato até a calçada, que eu devolvo assim que acabar...

Renato observava prazerosamente a moça matar a fome de sua mesa e, ao ouvir isso, de lá mesmo disse a ela:
-Eu estou pagando e você come aqui como qualquer cliente. Coma e beba...

Dizendo isso, saiu em direção ao caixa. Na hora de pagar, o dono do estabelecimento não deixou:
-Vi tudo, a moça foi sincera. Talvez, se ela viesse me pedir, eu não teria dado nada e a enxotaria. Mas quero eu arcar com essa despesa. Obrigado.

-Apesar dos anos, eu ainda sou capaz de lembrar o rosto dela e de como é bom ver alguém valorizar um prato de comida – disse ele enquanto eu fingia olhar uma vitrine, para que não visse que eu estava aos prantos.

Pensei nas bobagens que me tiram do sério, do meu mundinho onde me aborreço com problemas de um carro com um novo ruído, um computador lento, um celular que não é de ultima geração, aquela viagem que furou por ter que trabalhar no dia, um telefonema mal-criado...

Menos de quinze reais foram suficientes para realizar a vida de uma pessoa. Não falo da moça que naquele dia matou a fome dela e de seu filho. Refiro-me ao prazer sem explicações que aquele homem sentiu ao dar uma refeição a uma miserável estranha e seu filho esquelético.

Ele contou aquela experiência como quem ganha um grande prêmio e eu, emocionado, tentei ouvi-la sem deixar que visse minhas lágrimas e trouxe para que outros se servissem dessa bela refeição.




O Zé ouviu a história, se sentiu edificado com o caso e trouxe para os leitores do Genizah




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