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O dia em que as cartas pararam de chegar…

Rev. Luis A R Branco

No início da minha carreira missionária o sistema de comunicação era bem diferente do que temos hoje, o mundo parecia maior e as distâncias mais longas. Lembro-me do dia em que estava na Missão Antioquia e senti o chamado de Deus para a Índia, naquela época pouco ou quase nada se falava da Índia no Brasil, naquela mesma noite, depois da pregação onde tive meu coração aquecido com a chama missionária, subi à casa de oração que existia lá no Vale da Bênção, onde estava a Missão Antioquia, para buscar saber num mapa onde estava este país estranho, exactamente do outro lado do mundo. A viagem de avião para a cidade onde fui trabalhar na Índia, com as escalas, era feita em três dias.

A minha comunicação com o Brasil era feita basicamente através de cartas. Uma carta levava até um mês para chegar ao Brasil e depois mais um mês para receber a resposta, mas era uma espera gostosa. Quando o dinheiro permitia, usávamos o telefone, que não tinha em todo lugar, eram umas cabinas apertadas com uma espécie de contador que enquanto falávamos mostrava o valor a pagar pela ligação. Era tão caro que a ligação era um martírio, falávamos o básico necessário para poder desligar ou o dinheiro ia todo para o telefone. Então a alegria eram as cartas mesmo. Duas a três vezes na semana íamos ao correio central para buscar as cartas, era uma alegria tão grande que líamos ali mesmo, sentado no meio-fio ou escadas. Sempre havia umas três ou quatro cartas, longas, com fotos, contanto detalhes da vida, etc. Mesmo as cartas daqueles que não conhecíamos, geralmente enviadas em época de campanhas missionárias nas igrejas, mesmo estas eram cartas gostosas de ler e responder.

Depois a tecnologia chegou onde estávamos, o email. Mas não era assim como temos hoje, era do tipo que se enviássemos entre 10h e 17h, o destinatário recebia no mesmo dia, se não, só receberia no dia seguinte. E no fim de semana não funcionava. No inicio poucas pessoas tinham e-mail, então não prestava muito. Mas não demorou muito e o hotmail e yahoo dominaram a comunicação e passamos a fazer uso desta ferramenta. Mas algo começou a acontecer, a comunicação ficou cada vez mais superficial.

O mundo ficou menor, as distâncias encurtaram, a comunicação ficou praticamente de graça, mas em vez de aumentar nossos laços com familiares, amigos e igrejas, elas diminuíram. E para piorar, inventaram um tal “cc” ou “bcc” nos emails, que permite escrever a mesma coisa para milhares de pessoas ao mesmo tempo. Facilitou a comunicação e o espalhar da informação, mas a personalização se foi por completo. Confesso que não gosto dos meses de campanha missionária, pois recebemos inúmeras mensagens de igrejas e pessoas que não tem a mínima sensibilidade, pedem informações como se tivessem fazendo um orçamento em supermercado. Observamos que a mesma correspondência foi enviada para dezenas ou centenas de missionários e sempre com a mesma promessa: a “possibilidade” da oração e de uma ofertinha, que raramente, muito raramente mesmo, acontece. Sem contar quando não trocam nossos nomes e o campo onde trabalhamos e por ai vai.

Enfrento dois problemas, sou missionário velho no campo, isto significa que já estamos quase esquecidos, não pela igreja que nos enviou ou por nossa junta, mas para uma boa maioria daqueles que no passado nos escreviam. Missionário velho sai de moda, pois não conta novidade todo dia. E quem está interessado em saber de quem faz a mesma coisa há vinte anos? As redes de comunicação social substituíram a boa conversa pelos recados nos murais, e por ai vai. Uma lástima! Hoje a maioria dos e-mail que recebo são spams, e os poucos que recebemos de amigos são muitas vezes superficiais, e finalmente chegou o dia em que as cartas deixaram de chegar, a última que recebemos faz seis meses.

Este texto não é uma reclamação contra nossos amigos, é apenas um texto para nos fazer reflectir sobre o perigo da superficialidade nas relações e comunicação, principalmente na causa missionária. Com o tempo, parece que a relação com o missionário se torna cada vez mais institucionalizada e vazia de relacionamento. O missionário não vive apenas de dinheiro e oração congregacional, ele vive também de relacionamento, aliás o próprio Senhor Jesus disse que não é só de pão que vive o homem (Lc 4:4).

Eis algumas orientações básicas para quando se comunicar com um missionário: 1. Escreva o nome dele e do país onde ele trabalha correctamente. 2. Não envie sua mensagem no estilo “cc” ou “bcc”. É melhor escrever bem para um missionário do que para cem, mal escrito, e não receber uma resposta decente. 3. Escreva sobre você mesmo, como soube da existência do missionário. 4. Procure saber sobre o missionário através da junta de missões, e evite perguntas generalizadas e perguntas do tipo “conta-me tudo”. Se procurar saber sobre o missionário através da junta de missões poderá dizer-lhe: “sei que trabalham com formação teológica, como posso orar por seu trabalho?” Lembre-se, o missionário geralmente tem pouco tempo livre, acredite, é verdade! E responder a um email enviado por “cc” ou “bcc”, que me chama de Luis “Antônio” e me pergunta se o Peru é bonito, enquanto trabalho em Portugal, é algo improvável.

Vou terminar este texto por aqui, fazer um “copy and paste” e enviar pelo “bcc” para todos na minha lista, para quem sabe um ou dois lerem… se ler, ore por este missionário velho, sozinho e cansado. Se me escrever com carinho, prometo fazer como fazia Francisco Xavier, missionário jesuíta que levou o evangelho a Ásia, e que lia com lágrimas e oração as cartas que lhe enviava seu amigo Inácio de Loyola.


Originalmente no blog do autor. Enviado ao Genizah




 
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