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O casamento na era patriarcal


Revista Ultimato


Na linguagem religiosa e em sentido restrito, o nome patriarca é dado aos três primeiros pais da nação de Israel: Abraão, Isaque e Jacó.

Chama-se de era patriarcal o período de tempo que começa com o nascimento de Abraão na Mesopotâmia e termina com a morte de Jacó no Egito. A história toda compreende uns 300 anos e ocupa mais de três quartos do primeiro livro da Bíblia (Gênesis 12 a 50). É difícil estabelecer a data precisa, mas alguns estudiosos colocam-na na metade da Idade do Bronze, entre os anos 1.900 a 1.600 a.C.

Em nenhum outro lugar da Bíblia há tantas informações sobre problemas conjugais como na história familiar de Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e Jacó e Raquel. Os detalhes são numerosos e muito esclarecedores. Nada é escondido. Os atritos entre marido e mulher, entre esposa e concubina, entre sogro e nora, entre genro e sogro, entre pais e filhos, e entre irmãos são narrados exaustivamente. Problemas provocados pela esterilidade feminina, pela poligamia, pela inveja, pela vingança, pelas decisões precipitadas, pelo favoritismo, pelas trapaças mútuas, por escândalos sexuais graves, pelo estupro, pelo risco de perder a esposa em favor de outro homem, pelo controle da natalidade, pela viuvez e pelo novo casamento vêm à tona com a maior clareza possível.

No bojo de toda essa miséria há também lances admiráveis, como o amor sincero e sacrificial, a prática do perdão, a firmeza de caráter, a solicitude, o aprendizado e o crescimento na fé em Deus e na comunhão com Ele.

Na verdade, os casamentos da era patriarcal são um precioso laboratório de pesquisa para quem quer melhorar o seu matrimônio. Basta tomar conhecimento dos erros cometidos por seus personagens e fechar corajosamente as portas para eles.


Abraão e Sara


O mais famoso ancestral dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos, o pai na fé das três religiões monoteístas do planeta, era um homem bem casado, mas não sem sérios problemas conjugais.

As esposas gostam de ouvir de seus maridos que elas são bonitas. Foi isso que o noivo disse à noiva no poema atribuído a Salomão: “Como você é linda, minha querida!” (Ct 4.1). Abraão fez a mesma declaração a Sara: “Bem sei que você é bonita” (Gn 12.11).

Em dois momentos e lugares diferentes, o casal passou por uma situação muito constrangedora. Exatamente porque a beleza de Sara chamava a atenção de todo mundo, ela foi como que seqüestrada tanto por Faraó, no Egito, como por Abimeleque, em Gerar. A mulher de Abraão só não foi molestada sexualmente por esses dois reis porque Deus protegeu o casal (Gn 12.10-20; 20.1-18).

O problema mais complexo, mais desgastante e mais prolongado, porém, foi provocado por uma precipitação da esposa, dez anos depois de terem abandonado para sempre os parentes e a terra natal, em obediência ao chamado de Deus. Porque nunca engravidava, apesar das promessas de Deus de que teriam uma descendência “tão numerosa como o pó da terra” (Gn 13.16) ou como as estrelas do céu (Gn 15.5), Sara, num repente de entusiasmo e de abnegação, ofereceu ao marido a sua criada pessoal para que ela desse a ele um filho. Então, Abraão foi para a cama de Hagar e se deitou com ela, provavelmente mais de uma vez, porque não é todo dia que uma mulher tem condições de engravidar (Gn 16.1-4).

Uma vez grávida do marido da patroa, Hagar começou a se sentir importante e a desprezar Sara. Aí a coisa complicou e muito. Sara brigou com Abraão: “Por sua culpa Hagar está me desprezando” (Gn 16.5, NTLH). Não era bem assim. Todavia Abraão deu total liberdade à mulher e ela passou a maltratar de tal modo a criada grávida, que Hagar achou por bem fugir para o deserto em direção ao Egito, de onde era.

Ali, junto a um poço, o anjo do Senhor (esta é a primeira referência a anjo em toda a Bíblia), apareceu a Hagar e dispensou todo cuidado à fugitiva. Aconselhou-a a voltar para casa e submeter-se à patroa. Disse que ela estava grávida de um menino, a quem ela deveria dar o nome de Ismael, e ainda acrescentou que a criança seria como um jumento selvagem e teria uma enorme descendência. Emocionada, Hagar disse ao anjo: “Tu és o Deus-que-me-vê, pois eu vi Aquele-que-me-vê”. O poço passou a se chamar “Poço daquele que vive e me vê” (Gn 16.13,14, EP).

Sara foi obrigada a conviver com Hagar até o nascimento da criança, quando o marido estava com 86 anos (Gn 16.16). Depois foi obrigada a conviver não só com Hagar, mas também com o menino dela, que era filho de seu marido, por um longo período de tempo (14 anos), até o nascimento de Isaque, o filho da promessa, quando Abraão estava com 100 anos (Gn 21.5). Por último, foi obrigada a conviver com a ex-criada e com o meio-irmão do seu próprio filho até a grande festa do desmame de Isaque, provavelmente três anos depois do nascimento dele, conforme o costume da época. Foram mais de 17 anos de convivência incômoda para ambas as mulheres e de circunstâncias difíceis para o relacionamento conjugal de Abraão e Sara. A convivência entre as duas não acabou em beijos e abraços. Hagar e Ismael foram expulsos da fazenda por Abraão a pedido da esposa, só porque na festa do desmame Sara viu Ismael, de 17 anos, rindo de Isaque, de 3 anos. Não foi fácil para Abraão satisfazer o desejo de Sara, que já não se referia a Hagar como “serva” (Gn 16.2), mas como “escrava” (Gn 21.10). “Isso perturbou demais Abraão”, registra o texto sagrado, “pois envolvia um filho seu” (Gn 21.11). No dia seguinte à exigência de Sara, Abraão colocou uma mochila de couro com água e alguns pães sobre os ombros daquela que lhe dera o primeiro de todos os filhos e a despediu. A mãe e o filho foram se afastando cada vez mais da porteira sob o olhar de Abraão até desaparecerem por completo, cena exatamente oposta à da parábola do Filho Perdido, em que o pai se põe junto à porteira para ver o filho se aproximando cada vez mais até poder abraçá-lo e beijá-lo (Lc 15.20).

Abraão e Sara comemoraram bodas de madeira (cinco anos de casamento), estanho (10), cristal (15), porcelana (20), prata (25), pérola (30), coral (35), rubi (40), safira (45), ouro (50), esmeralda (55) e diamante (60). Quase certamente comemoraram também bodas de platina (65), vinho (70), brilhante (75) e outras sem nome. Quando saíram de Ur dos Caldeus (ao norte do Iraque), os dois já estavam casados não se sabe por quanto tempo. Na ocasião, Abraão tinha 75 anos (Gn 12.2) e Sara, dez anos mais nova que ele, 65 (Gn 17.17). O casamento só acabou com a morte de Sara, aos 127 anos (Gn 23.1) — 62 anos depois da saída de Ur, 51 anos depois do nascimento de Ismael e 37 anos depois do nascimento de Isaque.

Abraão, o viúvo da mulher bonita, fez questão de sepultar a esposa na terra prometida, mas ainda não recebida, não em túmulos alheios, porém numa propriedade funerária própria. Ele comprou uma área onde havia uma caverna e um bonito arvoredo, por um preço muito alto (400 moedas de prata, o equivalente a 4,5 quilos do precioso metal), 23 vezes mais cara que a propriedade comprada por Jeremias em Anatote por 17 moedas de prata (Jr 32.9), muitos anos depois. Conhecida como a Caverna de Macpela, esse lugar tornou-se o cemitério de toda a família. Lá foram sepultados o próprio Abraão (38 anos mais tarde), Isaque e Rebeca, Jacó e Lia (Gn 25.9; 49.29-32; 50.13).

Isaque e Rebeca


Isaque, o filho da promessa, era um quarentão quando se casou com Rebeca, neta do irmão de Abraão, residente na Mesopotâmia (atual Iraque). A essa altura, Sara havia morrido três anos antes e Abraão já não era viúvo.

O casamento de Isaque foi precedido de muitos cuidados e muita oração. Os noivos se juntaram certos da inequívoca direção de Deus. Mas Isaque não se ligou a Rebeca apenas porque era a mulher indicada: ele também a amou (Gn 24.67). À semelhança de Sara, Rebeca era “muito bonita” (Gn 24.16) e solícita.

O primeiro problema do casal foi a esterilidade de Rebeca durante os primeiros 20 anos de casamento. Todavia Rebeca não arranjou nenhuma “Hagar” para o marido. Isaque fez questão de enfrentar a situação adversa por meio da oração. O Senhor ouviu o perseverante clamor de Isaque, e Rebeca engravidou. Quando nasceram os gêmeos Esaú e Jacó, o casal comemorava suas bodas de porcelana (20 anos) e Isaque estava com 60 anos (Gn 25.26).

Houve um episódio desagradável que poderia ter sido evitado se Isaque tivesse aprendido com o erro do pai. Estando muito tempo em Gerar, Isaque espalhou a notícia de que Rebeca era sua irmã. Mas ele se traiu, ao ser flagrado em carícias íntimas com sua esposa pelo olhar indiscreto do rei de Gerar do alto de uma janela (Gn 26.8). Abimeleque estava de olho em Rebeca e queria levá-la para o palácio certo de que ela era irmã, e não esposa, de Isaque.

Porque Rebeca amava mais a Jacó do que a Esaú e porque Isaque amava mais a Esaú do que a Jacó (Gn 25.28), a harmonia conjugal e familiar tornou-se cada vez mais difícil. O casamento de Esaú com duas mulheres hititas no ano em que os pais comemoravam bodas de diamante (60 anos) complicou ainda mais a vida do casal, pois as duas noras “amarguravam a vida de Isaque e de Rebeca” (Gn 26.25). O caldo entornou quando Isaque resolveu abençoar Esaú e não Jacó, e quando Rebeca resolveu enganar o marido em favor de Jacó e em detrimento de Esaú. A família estava dolorosamente partida: de um lado Isaque e Esaú; do outro, Rebeca e Jacó. Os esforços em contrário de um e de outro produziram muita sujeira ética: engano, mentira, trapaça, desrespeito pelas cãs e pela cegueira de uma pessoa idosa, ira, desejo de vingança etc. Para evitar o pior — a repetição do que acontecera com Caim e Abel —, Jacó fugiu para a casa dos avós maternos, na Mesopotâmia, onde viveu muitos anos. Esaú, por sua vez, para agradar o pai, foi à casa de Ismael, seu tio paterno, e tomou para si mais uma mulher. Chamava-se Maalate e era, como ele, neta de Abraão (Gn 28.1-9). A essa altura, Isaque, que era meio-irmão de Ismael, tinha mais seis meios-irmãos, pequenos, filhos de Quetura, segunda esposa de Abraão (Gn 25.1-4).


Jacó e Raquel


Parece que a Mesopotâmia nunca saiu por completo da cabeça de Abraão e sua família. Afinal ali haviam ficado os parentes comuns do patriarca e de sua mulher. Não havia melhor lugar para arranjar esposa para Isaque e esposa para Jacó. Além de bonitas, as mulheres do clã de Terá, pai de Abraão e descendente distante de Noé, provavelmente conheciam o projeto de Deus para aquele ramo da família que abandonara a região em busca de outras paragens. No caso de Isaque, foi o servo mais velho da casa que viajou até a Mesopotâmia em busca de uma esposa para o filho de seu patrão. No caso de Jacó, ele mesmo foi para a terra de seus avós maternos e de seus bisavós paternos.


Rumo à Mesopotâmia

Porque saiu de casa fugido de seu irmão, depois de ter enganado vergonhosamente o pai e Esaú, e porque ia para uma terra distante sem ter a menor previsão de quando voltaria, Jacó estava muito emotivo. Ainda bem que recebeu uma injeção da graça de Deus no primeiro pernoite, quando o Senhor lhe prometeu uma grande descendência e a sua companhia.

Ao chegar à Mesopotâmia, viu pela primeira vez sua prima Raquel, que era pastora de ovelhas. Ele mesmo removeu a pedra da boca do poço e deu de beber às ovelhas do tio Labão, num gesto de gentileza com a jovem. Depois beijou Raquel, começou a chorar alto e contou-lhe que era filho de Rebeca, a irmã do pai dela. Pouco depois, Jacó tinha onde morar e emprego certo, graças a Labão, que o abraçou e beijou.

Em menos de um mês, Jacó já havia se apaixonado por Raquel, que era bonita de rosto e de porte. O dote seria pago com serviço. Depois de 7 anos de trabalho, Jacó sentiu-se no direito de receber a mão de Raquel e deitar-se com ela. Mas o sogro o enganou, dando-lhe a filha mais velha, Lia, que tinha olhos meigos. Porque a noiva era guardada velada até a noite de núpcias, Jacó teve relações com Lia na certeza de que estava na cama com Raquel. Só pela manhã, descobriu a astúcia do sogro e foi tomar satisfações com ele. Passada a semana de festas nupciais, Labão deu-lhe também Raquel, sob a condição de trabalhar mais 7 anos em sua fazenda (Gn 29 1-30).

Uma vida infeliz

Poucos casamentos começam tão mal quanto o de Jacó. Deve ser o cumprimento da lei da semeadura e ceifa: “O que o homem semear, isso também colherá” (Gl 6.7). Pouco antes de ser duramente enganado pelo sogro e por aquela que deveria ser apenas sua prima e cunhada, mas agora era também sua esposa, Jacó enganara vergonhosamente o pai e o irmão. Essa forte propensão para a mentira e o embuste estava no sangue da família de Jacó, pelo lado da mãe, e não poupou nem Rebeca nem Labão nem Jacó nem Lia nem os filhos de Jacó.

Ao que tudo indica, o casamento começou, continuou e terminou mal. Talvez tenha sido esta uma das razões pelas quais Jacó foi obrigado a confessar ao faraó: “Os anos de minha vida foram poucos e infelizes” (Gn 47.9, EP).

Amando uma mas vivendo a contragosto com duas irmãs com problemas de relacionamento entre elas nunca resolvidos (como os que havia entre ele e seu irmão gêmeo Esaú), Jacó se viu em papos-de-aranha a vida inteira. Por não ser estéril como a irmã, Lia engravidou quatro vezes seguidas, sempre com a esperança de conquistar o amor do marido, o que se pode ver pelo nome que ela dava aos meninos (Gn 29.31-35). Por exemplo, quando nasceu Rúben, ela disse: “Agora, certamente, meu marido me amará”. Ao nascer o terceiro filho, Lia ainda insistiu: “Agora, finalmente, meu marido se apegará a mim, porque já lhe dei três filhos”. Raquel passou a ter inveja da irmã, entrou em desespero e desafiou o marido: “Dê-me filhos ou morrerei!” Irritado, Jacó devolveu: “Por acaso estou no lugar de Deus, que a impediu de ter filhos?” Então, Raquel deve ter se lembrado da “feliz” idéia de sua tia-avó e “generosamente” ofereceu sua criada particular para ser a terceira esposa do marido. Bila logo engravidou e deu um filho a Jacó. Raquel assumiu a maternidade do recém-nascido e tomou o nome de Deus em vão (tal qual o marido, quando ele disse ao pai que o cabrito era a caça que Deus havia colocado no seu caminho), ao exclamar: “Deus me fez justiça, ouviu o meu clamor e deu-me um filho” (Gn 30.6).

Lia e Zilpa versus Raquel e Bila


A essa altura, Lia não conseguia engravidar e, porque não queria perder a guerra, fez o mesmo que a irmã e a tia-avó: deu a Jacó a sua criada particular para ser a quarta esposa dele. Zilpa gerou dois filhos seguidos para Jacó, que foram assumidos por Lia.

A guerra familiar não acabou aí; ficou ainda mais suja quando Raquel desejou as mandrágoras (plantas tidas como capazes de favorecer a fertilidade feminina) que eram da irmã e lhe propôs: “Vamos fazer uma troca: você me dá as mandrágoras, e eu deixo que você durma com Jacó esta noite” (Gn 30.15, NTLH). Ao chegar do campo, Lia explicou ao marido que a vez era dela à vista do negócio feito com a irmã. Nessa noite, a filha mais velha de Labão engravidou pela quinta vez. Pouco tempo depois teve mais uma criança, cujo nome revela seu desejo incontido e inútil de ser amada por Jacó: “Agora dominarei meu marido, pois lhe dei seis filhos” (Gn 30.20, EP).

Só depois do nascimento de dez meninos (seis de Lia, dois de Bila e dois de Zilpa) e de pelo menos uma menina é que Raquel, por obra e graça de Deus, engravidou e deu à luz José, que seria o mais virtuoso e o mais bem-sucedido dos filhos de Jacó. Alguns anos mais tarde, Raquel deu mais um filho ao marido, cuja alegria foi misturada com uma tristeza muito grande, pois a querida ex-pastora de ovelhas morreu no parto a caminho de Belém, onde Jesus nasceria quase dois milênios depois (Gn 35.16-19).

Filhos sem o temor do Senhor


Os filhos, nascidos e criados com muita fartura, mas com o mínimo de exemplo da parte do pai e das quatro mães, deram muito trabalho e tristeza a Jacó. Um deles, Rúben, o primogênito, teve a ousadia de deitar-se com Bila, a terceira esposa do pai e mãe de dois de seus irmãos (Dã e Naftali), uma mulher muito mais velha que ele (Gn 35.22). Diná, filha de Lia, foi agarrada e violentada por um homem chamado Siquém, filho do chefe de uma das terras de Canaã. Esse crime provocou outro crime: dois irmãos de Diná por parte de mãe, Simeão e Levi, mataram à traição Siquém, o pai dele e todos os homens daquela região. Além do aspecto moral, essa matança criou uma situação muito perigosa para Jacó, pois atraiu contra ele o ódio dos cananeus (Gn 34.1-21). Judá, o quarto filho, era um sem-caráter. Depois de viúvo, deitou-se, como o pai, com uma mulher que tinha o rosto encoberto, na certeza de que era uma prostituta cultual e a engravidou. Três meses depois, soube que a nora Tamar, também viúva, estava grávida. Sem ainda saber que Tamar era a tal mulher que se fizera de prostituta para se engravidar dele, Judá mandou queimar a nora e os gêmeos que estavam no ventre dela. Uma vez exposto ao escândalo, ele voltou atrás e a mulher foi poupada (Gn 38.1-30).

Uma das maiores tristezas de Jacó foi o desaparecimento de José, o primeiro dos dois únicos filhos da única esposa que ele amou. Era seu filho predileto, o filho de sua velhice (Gn 37.3). O rapaz tinha 17 anos quando foi vendido por seus próprios irmãos para uma caravana de ismaelitas (descendentes de Ismael, filho do bisavô deles por parte de Hagar). Seguindo a tradição da família, os autores desse crime mataram um bode, mergulharam no sangue a túnica de José e a mandaram para o pai para que ele mesmo concluísse que o filho fora devorado por um animal selvagem (Gn 37.12-36).

Naturalmente há uma explicação para o fato de que os piores filhos de Jacó foram todos os quatro primeiros filhos de Lia (Rúben, Simeão, Levi e Judá). Eles nasceram de um casamento provocado por uma emboscada, sem amor e carregado de ressentimento. Cresceram em um ambiente de competição, de guerra, sem aproveitar as lições do passado, as experiências dolorosas de seus pais, avós (Isaque e Rebeca) e bisavós (Abraão e Sara).

Da Mesopotâmia ao Egito via Canaã


Os 20 anos passados na Mesopotâmia foram muito sofridos para Jacó (é ele quem o diz). Solteiro, nos 7 primeiros anos, e casado, nos últimos 13. Trabalhando para o sogro mais de dois terços do tempo (14 anos) e para ele mesmo apenas 6 anos. A metade do tempo a serviço do sogro foi para pagar o dote de um casamento que ele não pediu nem desejou. A cada 17 meses, o sogro mudava a bel prazer o seu salário. No campo, muito calor de dia e muito frio à noite; em casa, insônia e atrito com as mulheres (Gn 31.28-42). Economicamente valeu a pena, pois Jacó ajuntou um rebanho de bois e jumentos, de ovelhas e cabras tão grande que poderia aplacar a ira de seu irmão gêmeo, oferecendo-lhe 550 cabeças de gado e mais algumas crias de camelas de leite (Gn 32.13-15).

Provavelmente o melhor período da vida de Jacó foram os 17 anos de velhice que ele passou no Egito sob a proteção de José e do faraó. Apesar de todos os problemas, a família do patriarca permaneceu unida. O farrancho todo — Jacó, suas mulheres secundárias (Raquel e Lia já haviam morrido), seus filhos e noras e seus netos (33 de Lia, 16 de Zilpa, 14 de Raquel e 7 de Bila) foram morar na região de Ramassés, a melhor do Egito. Ali, ele se reencontrou com José, o filho de seu grande amor, aquele que estava desaparecido havia 13 anos, do qual se dizia que fora morto por um animal selvagem. Aquele que nunca lhe deu trabalho nem dores. Aquele que nunca matou ninguém (ao contrário de Simeão e Levi), aquele que nunca se deitou com Bila nem com Zilpa (ao contrário de Rúben) nem com a nora (ao contrário de Judá), nem sequer com a mulher de Potifar, que quis se entregar várias vezes a ele (Gn 39.7-15). Aquele que suportou a injustiça alheia (dos irmãos, de Potifar e do chefe dos copeiros do faraó) dos 17 aos 30 anos de idade.

Uma família unida, apesar dos pesares

Na velhice, Jacó não perdeu por completo a memória. Mesmo doente e no leito de morte, ele reuniu todos os filhos, do mais velho (de uns 60 anos) ao mais novo (de uns 50 anos), e os abençoou um por um, misturando história com profecia. Lembrou-se dos predicados, dos defeitos, dos escândalos de cada um deles e fez um resumo maravilhoso da vida de José, a “árvore frutífera à beira de uma fonte, cujos galhos passam por cima do muro” (Gn 49.1-33). E então morreu e “foi reunido aos seus antepassados”. Teve o enterro mais longo, mais concorrido e mais sofisticado da história do povo de Deus. Além de todos os familiares (exceto as crianças menores), todos os conselheiros do faraó, as autoridades da sua corte e todas as autoridades do Egito, em carruagens e a cavalo, foram ao sepultamento de Jacó em Canaã (o mesmo trajeto que seria feito muitos anos depois por todos os descendentes de Jacó, por ocasião do êxodo). O corpo embalsamado de Jacó, de 147 anos, foi colocado na caverna de Macpela, no cemitério arborizado comprado por Abraão, onde já estavam seus avós (Abraão e Sara), seus pais (Isaque e Rebeca) e sua segunda esposa (Raquel). (Gn 50 7-14.)

Apesar da guerra familiar, da diversidade das mulheres (esposas e concubinas, mulheres de “primeira classe” e mulheres “secundárias”), da diversidade dos rebentos (filhos “legítimos” e filhos “ilegítimos”) e dos dois crimes sexuais cometidos em família — a família de Jacó foi impressionantemente unida, o que não aconteceu com a família de Isaque nem de Abraão!



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