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RETRATO DA VIDA: ALEGRIA E DOR NA VIDA DE UMA FAMÍLIA POBRE DA BAIXADA FLUMINENSE


Antônio Carlos Costa

O caso da Geovanna, menina de apenas um ano de idade, morta com tiro no peito no dia 18 de janeiro deste ano em Belford Roxo, fez-me temer adoecer emocionalmente. Senti o receio de a causa dos direitos humanos levar-me a estado de depressão. As cenas do desespero da família jamais sairão da memória de todos os que testemunharam aquele momento de dor indizível.

Há dois lados do contato com essa tragédia: o que ouvimos e o que vimos. A mãe me contou do desespero de ver a filha se contorcendo no banco do carro, balançado a cabeça de um lado para o outro, após ser atingida pelo disparo de pistola. Em seguida, logo após a descoberta da morte da filha, Priscila toma o bebê no colo e o traz ao peito para ser amamentado. O pai sai andando pelos corredores do hospital com o corpo da filhinha envolto num lençol.

Chegamos a Belford Roxo. Conhecemos pais, tios, avós e amigos. Gente simples, devastada pelo sofrimento e contato com o incompreensível. O avô paterno me leva à casa dos pais da Geovanna. Entro num lugar humilde no qual um único cômodo destoava pela cuidado e beleza. Ali havia caixas de brinquedo ainda fechadas, que Geovanna recebera como presente de aniversário no dia 29 de dezembro. Sua roupas, todas bem cuidadas e novas, penduradas no armário.

Pego a família e me dirijo com ela para o cemitério. Vejo mãe gritando aos céus pedindo a filha de volta. Em seguida, encontro-a debruçada sobre o caixão branco de um metro e meio, recusando-se deixá-lo ir para o túmulo. Todos choravam. Amigos, parentes, repórteres, miltantes do Rio de Paz. O corpo da menina é posto na sepultura. A tia, inconformada, lança-se dentro, agarra-se ao caixão, tentando arrancá-lo do lugar que não foi feito para receber o corpo de um bebê.

Recebo telefonema da avó materna da Geovanna no dia subsequente ao do enterro, pedindo para que fosse a sua casa a fim de dar suporte emocional à filha, que parecia estar próxima de surtar de angústia, recusando-se voltar à casa em que morava, que até hoje permanece trancada.

Organizamos manifestação em Copacabana. Parentes e amigos se dirijiram para o bairro rico, tão distante da sua realidade de vida e do próprio lugar onde moram, a fim de serem ouvidos pelas autoridades públicas.

Voltamos ao local do crime. Cerca de 200 pessoas, numa manifestação organizada por nós, faziam três solitações ao Governo do Estado do Rio de Janeiro: fim da violência na Baixada, socorro à família da Geovanna e elucidação da autoria do crime. O silêncio do poder público tem feito a famíla crer que não existe sociedade, que tudo é uma grande fantasia e que o Estado brasileiro além de mudo é surdo, uma vez que não ouve o clamor do pobre. Todas as dívidas da família, contraídas após a morte da Geovanna, em razão de os pais terem perdido energia para trabalhar, foram pagas por pessoas que se solidarizaram com o seu drama através das redes sociais.

Esta semana liguei para a Priscila. Perguntei sobre sua vida e se ela estava indo à igreja. Ao que me respondeu: "Eu o Adenildo estamos na igreja. Às vezes a dor da saudade bate, mas nessas horas eu me ajoelho e sinto o consolo de Deus e o seu refrigério". O que não podia imaginar é o que ela haveria de me dizer em seguida: "Seu Antônio, eu tenho uma notícia para te dar. Estou grávida".

Até hoje o crime não foi esclarecido. Impunidade além de abandono. Cabe a nós moradores do Rio de Janeiro fazer pela família o que a nossa democracia capenga não consegue fazer. Além de celebrar este momento de tamanha consolação divina para a vida dessa gente pobre da Baixada Fluminense, prover o que for necessário para que o bebê seja acolhido com amor. Os pais precisam voltar para casa. Até hoje moram no quarto dos avós paternos. Tudo o que eles me disseram que precisa ser feito é tratar das infiltrações, tirar o mofo, pintar a casa, a fim de receber o bebê que, certamente, nunca ocupará o lugar da Geovanna, mas que poderá ajudar a família a se lembrar sempre que há um lado doce da vida, neste mundo tornado amargo pela maldade e indiferença dos homens.



Antônio C.Costa é fundador do Rio de Paz



Ps. A foto acima foi batida por mim no dia do enterro da Geovanna. A mãe escrevendo o nome da filha na sepultura. Veja depoimento impressionante da Priscila no dia da manifestação em Belford Roxo. Imagens Rio de Paz. Edição TV Globo/G1. Protesto em Belford Roxo

Caso você queira ajudar o Adenildo e a Priscila:

Adenildo Leite Firmino CPF: 10085997781 Bradesco Agência: 2605-0 Conta: 0150210-7





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