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Reflexões sobre o joio e o trigo


 
“Pena que Bilbo não o matou quando teve a oportunidade.” Disse Frodo.
“Pena?” Disse Gandalf. “Foi justamente a pena que parou a mão de Bilbo. Muitos que vivem merecem morrer. Alguns que morrem merecem viver. Você pode lhes dar vida Frodo? Então não seja tão ávido para julgar e condenar à morte. Mesmo os mais sábios não conseguem enxergar tudo. Meu coração me diz que Gollum tem um papel a desempenhar para o bem ou para o mal antes de isso acabar. A pena de Bilbo pode decidir o destino de muitos.”
Filme O Senhor dos Anéis – A sociedade do Anel.


Eu gosto de assistir a filmes. Sempre que tenho a oportunidade, assisto a algum. Épicos, ficção, históricos... A Trilogia O Senhor dos Anéis faz parte do meu gosto pessoal. No primeiro filme, essa conversa entre o sábio Gandalf e o hobbit Frodo Bolseiro é, para mim, o ponto culminante do enredo. Mostra que ninguém, por mais sábio, preparado, conhecedor dos mistérios da vida, tem a visão completa sobre si mesmo e o mundo em que vive. Esse trecho tem estado repetindo em minha mente constantemente nesses últimos dias.

Jesus certa vez, como relatado em Mateus 13 entre os versos 24 e 30, comparara o Reino dos céus ao homem que saiu ao campo a semear a boa semente. Percebam na parábola que a boa semente não está misturada ao joio. No descuido dos homens que deveriam cuidar do campo, o inimigo também semeou o joio. E ambos cresceram juntos. E ambos eram idênticos no princípio. Tão idênticos que não poderiam ser arrancados antes de amadurecerem e dar seus frutos para não correr o risco de que o trigo fosse arrancado junto com o joio. “A palavra joio não é uma tradução exata da palavra grega zizania que significa erva daninha que nasce nas plantações de grãos e cresce exclusivamente em campos cultivados. Ela é uma degeneração do trigo.” (Kistemaker, Simon – As parábolas de Jesus. Pg 58).

Essa é uma grande verdade da vida: uma semente, a boa, semeada pelo Mestre. Outra semente, a má, semeada pelo próprio diabo. E ambas se parecem muito antes da colheita, antes que apareçam os frutos.

Tenho acompanhado com certo assombro o momento histórico que o cristianismo vem atravessando no mundo, especialmente aqui no Brasil. Mas ao mesmo tempo, meu coração está quieto, pois também tenho visto as palavras de Jesus tendo seu cumprimento, no tempo certo, da forma certa. Tenho observado os frutos de ambas as sementes aproximando-se do amadurecimento. E o resultado do crescimento do joio já começa a aparecer: frutos podres, que exalam morte, que exalam mundanismo e ecos do próprio inferno atrás de si. O joio são os filhos das trevas. Tenho visto pessoas abarrotarem, literalmente, as chamadas “igrejas” que pregam a prosperidade. Mas tenho visto também, parte dessas pessoas afastarem-se ou perderem a fé quando submetidas a qualquer vento de dificuldade, por menor que seja. Árvores sem raiz profunda, plantadas na areia de mentira, do engano, da morte. A prosperidade que vem dos céus é esta: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.” Filipenses 4:11-13

O chamado pseudo-evangelho que vemos é o resultado claro do envolvimento dos filhos das trevas. No início aparentava certa semelhança, algo parecido com o que acontece entre o joio e o trigo quando ainda são pequenos. Mas apenas aparentava. À medida que as plantas crescem, o fruto torna-se mais nítido. Por isso, o Filho do Homem dirá aos que não são filhos do Reino naquele dia: “Apartai-vos de mim...” Observe que tudo o que os que não são do Reino fizeram, fizeram-no em nome do Mestre. E que tudo o que fizeram, fizeram para aproximar-se daquilo que os filhos do Reino fazem, mas de forma distorcida: fazem e vendem milagres em nome de Jesus; incentivam as pessoas a pagarem pelas benções dos céus em nome de Jesus; entregam visões, revelações e profecias em nome de Jesus; consagram objetos em nome de Jesus... Contudo, o Mestre não os conhece. Não são filhos do Reino. Os filhos das trevas jamais serão filhos do Reino: lobos travestidos em pele de pastor de ovelhas, pedófilos, prostitutos, escarnecedores do Evangelho de Cristo, que usam a Palavra apenas para o que lhes convém, que sugam as ovelhas para depois descartá-las... O lugar destes é no lago de fogo, têm por pai ao diabo (Mt 13:41-42).

Peço permissão para citar algo que me tocou profundamente, e me fez refletir durante muito tempo: “Falando de prosperidade material e, após afirmar que o nosso Deus é um Deus de recompensas (?), apresenta os versículos de Filipenses 3:13-14, insinuando que o ALVO é a prosperidade material. Ali estava a malignidade. Meus ouvidos se fecharam.” “Danilo Fernandes via Genizah em 05/02/13). Sim, ali o nobre irmão viu a essência do joio em sua forma mais letal até os dias atuais. Ouso afirmar que ali o nobre irmão não somente viu, mas entendeu de forma mais ampla a dimensão do poder destruidor que o joio tem quando cresce junto com o trigo deixando-se ser confundido com ele!

Mas como na conversa entre Gandalf e Frodo, até mesmo o mal tem seu propósito na história da humanidade - mas isso é conversa para outra reflexão, que está “quentinha, quase saindo do forno”. E o joio tem sua importância. Uma delas é mostrar que seu fruto para nada presta, serve apenas como combustível a ser queimado no meio do fogo. Mas antes de ser queimado, ele necessariamente deve crescer. E o mais interessante é que as raízes, tanto do joio como do trigo estão tão emaranhadas que, se alguém tentar arrancá-lo antes do tempo acabará pisando no trigo e matando-o, ou então arrancando o trigo juntamente. Isso só poderá ser feito no momento certo e pela pessoa certa. O joio, portanto, deve misturar-se, deve frutificar. E o Mestre conhece os que são Seus e a estes Ele não confunde jamais! 

Concluo com as sábias palavras de Douglas Stuart e Gordon Fee, em seu excelente livro “Entendes o que lês?” “A própria parábola é a mensagem... a fim de fazê-los parar e pensar acerca de suas próprias ações, ou de levá-los a dar alguma resposta a Jesus.” (pg 119-120). Qual é a resposta que daremos a Cristo? Ficaremos inertes, vendo o joio passar-se por trigo sem denunciá-lo? Ou levaremos cada vez mais a sério o estudo minucioso das Sagradas Letras e denunciaremos, seguindo o mesmo exemplo do apóstolo Paulo?






Rilda Santos é leitora do Genizah e (agora) colaboradora.







 

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