681818171876702
Loading...

Subvertendo o mundo com a esperança



Marcos Almeida

Dias atrás, uma jovem jornalista deixou a seguinte pergunta em minha caixa postal: “O que é ser um músico e artista cristão?”. Não tive outra escolha senão utilizar a resposta que já estava na ponta da língua. De pronto e docemente, escrevi para ela: é aquele que não coloca sua arte a serviço de segundas intenções, que tem a liberdade de compor e criar a partir daquilo que é real, a partir desta vida palpável e complexa, inteira e misteriosa! O artista cristão é aquele que não se preocupa em fazer uma “arte cristã”, já que sua criação é fruto natural de uma vida. Ele se ocupa mesmo em viver o evangelho e ser honesto com sua criatividade, em vez de produzir uma arte-simulação.

Ninguém fica pedindo para uma macieira dar maçãs, pois esse é o fruto esperado de tal árvore. Da mesma forma, seria desnecessário solicitar ao cristão uma arte cristã, exatamente porque toda expressão sincera e honesta daquele que se imbuiu do evangelho reflete-se numa arte evangélica. Então, quando o artista olhar para o mundo, tentando descrevê-lo como um narrador sensível e atento, ou quando precisar dar significado a ele, comunicando aos outros e a si mesmo o sentido da vida, tudo que chegar aos seus olhos passará primeiro pelas lentes da Boa Nova. Sendo assim, toda arte que fizer de forma alguma poderá estar separada do evangelho! Caso isso aconteça, temos um excelente caso de esquizofrenia: de um lado, a vida privada do cristão; de outro, sua produção artística totalmente desvinculada do que ele acredita.

O único que pode nos livrar dessa contradição é o Deus que reconcilia consigo mesmo todas as coisas e nos faz inteiro nele. É ele quem nos habilita a ter uma arte que é fruto da liberdade, pois sua ação redentora afetou por completo todas as esferas da nossa existência. Ao nos tornar livres, ele nos deu também condições para uma arte admiravelmente livre. Que alegria é poder viver assim! E a nossa música brasileira, a arte desta terra, será rica dessa verdade subversiva quando, antes dela, no tempo que precede sua confecção, o artista também for cheio da vida que nasce da Vida.

“Por que você está dizendo essas coisas?”, algum simpático curioso me perguntaria. Digo isso porque não vejo alternativa diferente desse caminho de imersão real, existencial. Um caminho amplo e honesto, que tem como prioridade a vida antes da estética e do entretenimento. Digo isso porque vejo uma arte amiga da realidade, um artista que ama o mundo de tal maneira que o abençoa, criando um bem estético capaz de interferir na sintaxe da nossa cultura. Por meio da expressão espontânea ou da obra rebuscada, de uma canção de três acordes ou de um hino de quarenta vozes, num grito urbano e amplificado ou naquele sussurro alegre do sertão, vejo uma arte subvertendo o mundo com a esperança.

Se assim você também vê, é tempo de caminhar e semear a terra.




Marcos Almeida é compositor, músico, professor e vocalista da banda Palavrantiga.
Artigo publicado na Revista Ultimato








 

Postar um comentário

Página inicial item

Siga por e-mail